Em nome de deus
Quarta-feira, 25 de março de 2015

Em nome de deus

Por Daniela Rosendo e Tamara Amoroso Gonçalves

// Na Coluna Inclusive,

No filme A Pedra de Paciência, do diretor Atiq Rahimi, baseado em seu livro homônimo, Golshifteh Farahani interpreta uma mulher que vê no seu marido em estado vegetativo a sua pedra de paciência. Na mitologia persa, trata-se de uma pedra mágica para a qual se contam as tristezas, levadas embora no dia em que a pedra se desfaz. Um pouco como as bonequinhas de pano da Guatemala, que, segundo diz a lenda, nos ajudam com nossos problemas. Na cultura Maia, deve-se contar um problema para cada boneca e colocá-la debaixo do travesseiro antes de dormir, para que ela absorva nossas preocupações e nos ajudem a acordarmos mais tranquilos.

Pois bem, essa mulher do filme, que não tem nome e pode ser qualquer uma de nós, consegue se libertar do sofrimento e da opressão ao verbalizar seus sentimentos, seus traumas e seus desejos. O filme afegão traz à tona o fundamentalismo religioso e os problemas políticos que se passam na região, mas trata também de uma opressão universal, que subjuga não só mulheres, mas todas aquelas que são diferentes do homem, branco, ocidental, levando à discriminação múltipla, cristalizada em intersecções que conjugam gênero, classe, orientação sexual, idade, etnia e assim por diante. Além das mulheres, muitos outros grupos têm seus direitos e sua autonomia violados pela mesma lógica opressora: indígenas, quilombolas, ribeirinhas, negras, pobres, gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais…  e tudo mais que está do lado de baixo dos dualismos cartesianos (corpo/mente, razão/emoção, homem/mulher, cultura/natureza) sempre menos valorizado em relação ao que está do lado de cima.

Quantos julgamentos fazemos sobre o outro que não conhecemos? Quantas opressões pressupomos e nos lançamos ao “salvamento” de oprimidos, sem perceber que atuamos meramente em um processo de imposição de culturas?

Sendo um país de tradição majoritariamente católica e crescente expansão neopentecostal, pouco estamos acostumados a outras religiões. Também pouco discutimos a fundo e a sério a ideia de laicidade estatal, fazendo vista grossa para a forma como a religião cristã se impõe no dia-a-dia de todos: do crucifixo nos mais diversos espaços públicos até as orações em escolas públicas e aulas de religião. Enquanto isso, minorias religiosas – sobretudo religiões de matriz africana – sofrem ataques aqui e acolá, que preferimos ignorar.

Mas eis que a vinda de imigrantes ao Brasil e o aumento da pluralidade religiosa nos últimos anos nos têm lançado novos desafios: lidar com o outro, com o que não conhecemos. Saberemos fazer isso? A situação pela qual uma candidata ao exame da OAB passou na última prova, revela que estamos longe de compreender e aceitar aquilo que não entendemos, sobretudo no campo da fé e da liberdade religiosa.

Nossa sociedade está carregada de preconceitos e a cultura oriental, para a ocidental, também está do lado de baixo do dualismo. Disso muitas vezes decorre um imperialismo cultural, segundo o qual devemos impor nossa cultura e nossos costumes ao outro e a outra, em um verdadeiro processo de resgate. Para Charlyane, isso se traduziu na imposição de tirar o hijab, mesmo após ter sido revistada, sob ameaça de ser eliminada do exame. Enxergamos submissão no véu mas nos abstemos de criticar a peruca da judia, a saia comprida e o cabelo que nao pode ser cortado das evangélicas. Ou ainda pressupomos que são todas imposições que requerem nosso “resgate” sem cogitarmos que pode haver escolha e agenciamento. Julgamos as escolhas pelos nossos olhos.

A linguagem da opressão, infelizmente, é universal e se reveste de inúmeros preconceitos, explícitos ou implícitos. Temos o hábito de criticar a cultura de outros lugares ou grupos e tentamos lhes impor limites, sob nossos padrões de moralidade, sem nos darmos conta de que muitas vezes estamos incorrendo na mesma imoralidade. Critica-se a ingestão de cães e gatos na China, por exemplo, enquanto se consome vacas, galinhas, porcos e outros animais “exóticos”, sob a alegação de que aqueles são “animais de companhia”, não comida. Contudo, esse é um pensamento especista eletivo, ou seja, escolhem-se quais animais serão protegidos e quais continuarão sendo objetos da exploração. A prática cultural, por si só, não pode ser utilizada como argumento para justificar a manutenção da subjugação. 

Quando se trata das mulheres, o Brasil ocupa a alarmante sétima posição no ranking dos países mais violentos, mesmo que aqui não tenhamos que cobrir nossos corpos com burcas. Aliás, esse é outro paradoxo com o qual nos deparamos: enquanto as mulheres são supostamente livres, nossas roupas são esquadrinhadas meticulosamente para justificar a violência sexual que nos é infligida, invertendo o lugar do agressor e da vítima. O machismo está presente aqui também e impõe às mulheres um papel social que a impede de exercer sua autonomia e ter seus direitos garantidos.

Alocar a opressão masculina apenas no “uso do véu” é fechar os olhos para as opressões cotidianas as quais todas nós nos submetemos. Desde os padrões de beleza inatingíveis, regras de depilação, cabelo, maquiagem, manicure e outras mais que nos amarram, nos restringem, nos oprimem. Aqui ou acolá, somos sempre julgadas pelo que vestimos, como se isso definisse nosso caráter. Como se se traduzisse em convites ao nosso corpo. A lógica que nos permite julgar o véu como opressivo é a mesma que se camufla em dizeres como: “também, com aquela roupa… estava pedindo!” ou ainda: “ela não se dá ao respeito!”

Tamara Amoroso Gonçalves é advogada graduada pela PUC/SP e mestra em Direitos Humanos pela USP. Membro do CLADEM/Brasil, do Grupo de Estudos sobre aborto (GEA). É também integrante do Conselho Consultivo da Doctors for Choice Brazil e pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir, Concordia University, Canadá.

Daniela Rosendo é professora, mestra e doutoranda em Filosofia pela UFSC. É integrante do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil).

Quarta-feira, 25 de março de 2015
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