O direito pleno que só a manhã de domingo me traz
Segunda-feira, 20 de abril de 2015

O direito pleno que só a manhã de domingo me traz

 Por Roberto Tardelli

// Colunistas Just

 

Logo de manhã, baladeiros e baladeiras voltavam da noite, na mesma rua em que o pai e a filhota de oito anos, no máximo, passavam por mim de bicicleta, a garotinha sem conseguir conter sua euforia por estar pedalando em pé de igualdade com o pai, que não continha sua euforia por ter aquelas horas com sua filhota. “Olha, pai.”  Ele olhava e era evidente sua emoção.

A padaria recebia seus primeiros fregueses e o cheiro do pão estalava na calçada, na mesma rua dos baladeiros, do pai e filha e do senhor que metodicamente pediu meia dúzia de pãezinhos franceses e exatas duzentas e cinquenta gramas de presunto. Quem o aguardava do lado de fora da padaria, paciente e resignado, era o Bill, seu poodle, velho amigo da Panda, minha cachorra. Não é de hoje que ambos discutem vários assuntos e quase nunca os vi se desentenderem. Urgências caninas são outras e nada existe que um xixi ali mesmo não resolva.

Na praça, os baladeiros não foram bem aceitos durante a noite. Falaram demais e não deixaram dormir o Jorjão, que renovou seu estoque de palavrões. “Tenho sono leve, Tardelli.” Eles cantaram músicas horríveis, disse, além de não partilharem nem a bebida nem a maconha.”Não compartilharam um baseado que fosse comigo.” Sem dúvida, uma ofensa suficiente para que fossem postos para correr dali, o que fez com que ele, Jorjão, acordasse mal humorado, fato raro na vida desse cabra, que sempre me abordou cantando e pedindo dez reais. No domingo, ele precisa organizar o trânsito na igreja católica, que abriu suas portas também.

Na barraca de pastel, já tem gente. Comer um pastel de feira com caldo de cana a essa hora desafia todos os aparelhos digestivos e joga a conta de calorias para a casa dos quinze dígitos. O mais radical é o pastel de Quatro Queijos, que uma mulher come com um gosto que me fez invejá-la; mais comedido o marido comeu o de carne. Comedido pero no mucho, comeu dois. O verde da barraca de folhas, alface, almeirão, rúcula, agrião, couve, brócolis lembrava uma tela de natureza morta que vi faz anos nem sei onde nem sei se vi, mas tinha um ar pictórico. O pastel de quatro queijos era o mais caro, quatro reais. Todos acharam justo, do vendedor à mulher, que fez companhia ao marido e comeu também dois, de quatro queijos. Na matemática jurídica, oito queijos, uma loucura.

“Comecei a trabalhar às quatro da matina”.  Ele me comunicou sua hora de entrada no trampo, porque percebeu que Panda e eu o olhávamos ao vê-lo virar um copo americano de cachaça. Eram quase oito e ele já havia cumprido quatro horas de um trabalho duríssimo. O ritual da cachaça, um pouco no chão, o dedo mindinho em riste, um único gole e um grito ao final. “Pinga da boa”. E voltou para gritar que a banana prata estava de graça. Mas não.

Corredores de domingo passaram voando. Alguns em grupo, os mais compenetrados correm sozinhos e pela pisada é fácil ver quem corre de verdade. Uma mulher, magra, pernas compridas, passou por mim com a velocidade do vento. Um grupo de pessoas panfletava contra alguma coisa, queriam que fosse tombado um prédio, que se demarcassem as terras indígenas e que se realizasse imediatamente uma reforma política, tudo junto e misturado.

Nenhum de nós dava conta de que existe todo um Direito que saúda as manhãs de domingo, um direito silencioso, que corre imperceptível entre os que estão na rua e entre aqueles que dormem ou leem os jornais da manhã ou assistem a algum filme que respingou da noite. Nesse exato momento, gays acordaram namorando ou estavam naquela mesa da padaria, café expresso, pão na chapa e cabeça no ombro. O marido levou o café também para a esposa que terminava de acordar, outros casais fizeram amor. O direito que temos à frugalidade dos dias banais, dos dias em que nada acontece é grandioso e existe apenas para que lembremos que somos livres. Japi é uma gatinha que desapareceu. O dono gratifica ou agradece, mas implora que a devolva, caso alguém a tenha achado tão linda que não tenha conseguido resistir à tentação de levá-la consigo. Gatas e gatos são nômades, andam por aí, voltam e partem, talvez sejam a mais correta síntese do amor. Por isso, faz todo sentido a súplica pela volta da Japi. Se eu soubesse, diria, até porque uma criança estava febril por isso. Volte, Japi. Que sua liberdade seja reconhecida, mas volte, ou apenas passe para uma visita à criança e depois suma de novo.

Nada é melhor que a liberdade silenciosa, como uma rede na praia. A liberdade sem grandiloquências, sem uma descoberta espetacular, sem uma citação genial, sem um tratado, nada, apenas uma manhã de domingo, em que as pessoas, como se houvesse um cartaz celestial enorme, advertindo: Tente ser feliz. Tente ser livre.

Sem pensar em nada, sem doutrinadores, sem a necessidade de defender teses, nada. Só isso.

A liberdade da manhã de domingo. Toda ela em sua plenitude. A liberdade inteira.

Assim, a liberdade que existe, que entra sem se anunciar.

Se eu pudesse, reescreveria o poeta:

Liberdade preta, liberdade boa

Liberdade sempre de bom humor

Imagino a Liberdade entrando no céu:

Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão respondendo:

Entra, Liberdade,

Você não precisa pedir licença.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Segunda-feira, 20 de abril de 2015
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