Em uma sociedade orientada pelo ódio, resta o vazio
Quarta-feira, 3 de junho de 2015

Em uma sociedade orientada pelo ódio, resta o vazio

Por Haroldo Caetano

// Colunistas Just

 

O crime, brutal, seguido de suicídio do assassino, não mais permite a solução fácil da prisão do culpado, da condenação e da punição. Não dá para apontar o dedo e bradar aos quatro cantos que queremos justiça. Até a ideia de justiça fica meio sem sentido após o suicídio, pois agora a gente percebe que não era bem justiça o que se poderia buscar, mas tão somente vingança. Nada mais que a miserável vingança.

Foi num shopping da região metropolitana de Goiânia, mas poderia ter sido em qualquer outro lugar do país. Homicídio seguido de suicídio (confira aqui). Filmada pelas câmeras de segurança e registrada em dezenas de telefones celulares, a cena do crime ganhou rápido as redes sociais e os veículos de comunicação.

Entretanto, além do regozijo daqueles que celebram a exposição dos corpos via WhatsApp, a perplexidade também se fez evidente. Atordoados, os apresentadores televisivos do show não tiveram como vociferar o discurso sempre pronto a exigir, sob gritos e quase vômitos de sangue, punição severa ao criminoso, exposto como monstro perverso, o personagem preferido dos programas policiais vespertinos.

Não. Esse é um daqueles casos que nos constrange e nos obriga, enquanto pessoas que insistem na convivência social, a olhar para o espelho e exercitar a reflexão (quão difícil tarefa!) sobre o que aconteceu, sobre a violência em nossas cidades e sobre a banalização do homicídio, epidemia no Brasil. Acontecimentos assim impõem algo de que há muito insistimos em nos afastar: a necessidade de observar e analisar de maneira crítica a vida em sociedade, a violência, a condição humana.

Talvez alguém até venha a propor uma passeata contra a violência ou alguma outra saída tangencial muito comum e conveniente diante da consternação geral para que, assim, aquele duro exercício da reflexão seja mais uma vez postergado.

Quem sabe uma manifestação pela paz sirva de alento até que venha o próximo crime bárbaro, já rotineiro que, infelizmente, não tardará a acontecer. E que não seja seguido de suicídio. Aí, abandonada qualquer possibilidade de busca pela compreensão da violência em suas profundas dimensões na sociedade brasileira, poderemos voltar a apontar o dedo:

– Foi ele! Prendam o monstro! Queremos justiça!

Contudo, ao menos por enquanto alguns fatores estão aí a nos incomodar a vista. Afinal, pais, mães, filhos e amigos ainda choram seus mortos em mais essa tragédia brasileira. A cena do crime viaja na velocidade das redes sociais.

As evidências estão todas expostas e, se levadas a sério, podem esclarecer muita coisa; começando, quem sabe, por nos ensinar a aprender com os nossos erros quando o assunto é a violência.

Violência que tem, no crime, a sua face visível, que lhe serve de espetáculo, mas cujas causas são fugidias, camufladas e colocadas a uma distância cômoda, de forma que possamos continuar na alienante percepção isolada do crime, fato recortado de um contexto que não nos interessa; e, ao mesmo tempo, acreditando que esse crime se resolva com uma certa justiça, reduzida esta à vingança, à prisão de alguém digno de ser odiado. Como se a punição, por si só, significasse uma resposta suficiente para o fenômeno da violência. Cegos por opção, por não querer ver.

Se o machismo é um ingrediente evidenciado nesse episódio em que o guarda civil mata a namorada no shopping, também não se pode afastar a ligação imediata dos fatos com outras questões e outros problemas (a serem enfrentados?): o acesso fácil a armas de fogo, lícitas ou não; a pouca atenção à saúde mental da população; a forte exposição de profissionais que lidam com a segurança pública ao estresse. E certamente a lista não acaba aí.

Mudar esse quadro, que a cena do shopping ajuda a esclarecer, deveria ser o objetivo maior neste momento em que o quebra-cabeças começa a ganhar forma.

Resta saber se queremos conhecer essa imagem por inteiro ou, o que é mais previsível, se vamos esperar, ou mesmo desejar que outro crime violento venha misturar novamente as peças desse jogo macabro.

Afinal, parece mais confortável que, de volta ao círculo vicioso e alienante do crime-culpa-castigo-crime, permaneçamos cegos e entorpecidos pelos efeitos desse mesmo quadro. Que prossiga o espetáculo!

E que da próxima vez (que acreditamos só acontecer com o outro, jamais conosco) possamos, em busca da satisfação desse prazer mórbido, fazer a melhor foto e obter a melhor cena audiovisual para compartilhar e gozar pelas redes sociais, levantando de novo o nosso cínico brinde à violência.

Haroldo Caetano da Silva é Promotor de Justiça, Mestre em Direito (UFG), Doutorando em Psicologia (UFF). Autor dos livros Ensaio sobre a pena de prisão (Juruá, 2009), Embriaguez e a teoria da actio libera in causa (Juruá, 2004) e Execução Penal (Magister, 2006).

Quarta-feira, 3 de junho de 2015
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