A serpente e a potência fascista
Sábado, 6 de junho de 2015

A serpente e a potência fascista

Por Rubens R R Casara

//ContraCorrentes

 

Há uma fábula oriental que traz a história de um homem que, enquanto dormia, teve a boca invadida por uma serpente. A serpente alojou-se no estômago, de onde passou a controlar a vontade do homem. A liberdade desse infeliz desapareceu; o homem estava à mercê da serpente, já não se pertencia: a serpente era a responsável por todos os seus atos. Um dia, o homem acorda e percebe que a serpente havia partido e que, novamente, era livre. Deu-se conta, então, que não sabia mais o que fazer da sua liberdade, que havia perdido a capacidade de desejar, de agir autonomamente.

Em A Instituição negada, Franco Basaglia resgata essa fábula para concluir que “nesta sociedade, somos todos escravos da serpente, e que se não tentarmos destruí-la ou vomitá-la, nunca veremos o tempo da reconquista do conteúdo humano de nossa vida”.[1] As diversas manifestações neofascistas e os micro-fascismos do dia-a-dia parecem confirmar a hipótese de Basaglia: não há razão para temer o ovo da serpente, pois a serpente já existe e está dentro de cada um de nós. Em outras palavras, há uma tradição autoritária, uma cultura (essa “segunda natureza” do sujeito, esse ser finito no tempo e no espaço, que nasce inacabado, incapaz de sobreviver sem ajuda), uma crença no uso da força em detrimento do conhecimento, que coloca cada um na posição de um fascista em potencial.

Esse “fascismo potencial”, aliás detectado e analisado na pesquisa relatada por Theodor W. Adorno em Studies in the authoritarian personality, que está presente no psiquismo de cada indivíduo, faz com que práticas fascistas sejam facilmente naturalizadas. Em que pese a existência de teóricos dispostos a dar aparência de racionalidade àquilo que é, em essência, irracional (basta pensar em “juristas” que “justificam” prisões desnecessárias ou mesmo instrumentais à coação de réus, o afastamento de garantias processuais, mandados de busca e apreensão coletivos, internações compulsórias como medidas higienistas, etc.), o fascismo não necessita de racionalizações, uma vez que se refere a dados intuitivos e imediatos, que não dependem de reflexão (ao contrário, o fascismo se alimenta de dados que não suportam qualquer juízo crítico), e, portanto, aptos a serem incorporados por todos e, com mais facilidade, pelos mais ignorantes.

A aposta em soluções de força para solucionar os mais variados problemas sociais revela uma desconfiança. O fascista desconfia do conhecimento, tem ódio de quem demonstra saber algo que afronte ou se revele capaz de abalar suas crenças. Ignorância e confusão pautam sua postura na sociedade. O recurso a crenças irracionais ou anti-racionais, a criação de inimigos imaginários (a transformação do “diferente” em inimigo), a confusão entre acusação e julgamento (o acusador – aquele indivíduo que aponta o dedo e atribui responsabilidade – que se transforma em juiz e o juiz que se torna acusador – o inquisidor pós-moderno) são sintomas do fascismo que poderiam ser superados se o sujeito estivesse aberto ao saber, ao diálogo que revela diversos saberes.

Ao lado do ódio ao saber, o fascista revela medo da liberdade[2]. O fascista desconfia, não sabe como exercê-la (e não admite que outros saibam ou tentem), razão pela qual aceita abrir mão da liberdade (e querer o fim da liberdade alheia) para fundir-se com algo (um movimento, um grupo, uma Instituição, etc.) ou alguém a fim de adquirir a força que acredita ser necessária para resolver seus problemas (e os problemas – reais ou imaginários – que vislumbra na sociedade). O fascista apresenta compulsão à submissão e, ao mesmo tempo, à dominação (é um submisso, que demonstra dependência com poderes ou instituições externas, mas que, ao mesmo tempo, quer dominar terceiros e eliminar os diferentes), é um masoquista e um sádico, que não hesita em transformar o outro em mero objeto e goza ao vê-lo sofrer.

Diante dos riscos do fascismo, o desafio é destruir e vomitar a serpente capaz de conduzir nossas vidas ao fascismo e, o que é ainda mais difícil, ajudar o outro, aquele que identificamos como fascista, a destruir e vomitar a sua serpente (talvez essa seja o objetivo do diálogo proposto pela filósofa Marcia Tiburi). A receita para induzir o vômito? Uma misture de saber e liberdade. Doses cavalares.

Rubens Casara é Doutor em Direito, mestre em Ciência Penais, professor do IBMEC/RJ e membro da Associação Juízes para a Democracia e do Corpo Freudiano. Junto a Marcelo Semer, Márcio Sotelo Felipe, Patrick Mariano e Giane Ambrósio Álvares participa da coluna Contra Correntes, que escreve todo sábado para o Justificando.


[1] BASAGLIA, Franco. A instituição negada – relato de um hospital psiquiátrico. Rio de Janeiro: Graal, 1985, p. 132-133.
[2] Sobre o tema: FROMM, Erich. El miedo a la liberdad. Barcelona: Paidos, 1980.
Sábado, 6 de junho de 2015
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