Sérgio Salomão Shecaira: a proibição das drogas foi uma espécie de bomba de efeito retardado
Quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Sérgio Salomão Shecaira: a proibição das drogas foi uma espécie de bomba de efeito retardado

 

Sérgio Salomão Shecaira passou duas horas na redação do Justificando, mas a impressão foi de um sopro. A conversa com um dos maiores nomes da criminologia no país acelera no tempo, obra do tema interessante, aliada à simpatia e humildade do entrevistado.

No início da conversa, a expectativa para o maior evento de ciências criminais da América Latina. O seminário internacional do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) vem no fim do mês de agosto, com o grande nome da pesquisa sobre drogas na atualidade, Carl Hart, da Universidade de Columbia (EUA).

Hart se destacou com pesquisas científicas sobre vício em drogas. Ao passo que as pesquisas mais comuns traziam ratos em uma gaiola com entorpecente, as quais resultavam fatalmente na dependência química do animal, Hart construiu uma "Ratolândia", cujo contexto ia muito além da única opção do animal em consumir drogas. 

Hart começa a mostrar que nem sempre o ratinho vai querer a droga. Ele quer estímulos. E os estímulos não estão exatamente nas drogas, especialmente quando você vive em comunidade. Isso transferido para o ser humano é uma inovação, porque você mostra que somente em determinadas circunstâncias a pessoa procura droga como um mecanismo de evasão.

Shecaira, assim como Hart, se preocupa com o tratamento do Estado na questão dos entorpecentes – a "guerra às drogas" propriamente dita. Para ele, a guerra às drogas não se justifica, principalmente quando a substância proibida é algo menos danoso que substâncias legalizadas, como a própria maconha. Além disso, legalizar drogas é caso de saúde:

Por que hoje a gente tem violência associada à droga? Porque ela é proibida.

A proibição das drogas foi uma espécie de bomba de efeito retardado. Hoje, nós estamos sentindo os efeitos dessa bomba, o efeito real em termos de saúde das pessoas com drogadição que não podem ser tratadas porque é uma substância ilegal. Há drogas que necessariamente para tratar tem que dar drogas substitutivas. É o caso da heroína, dos opiáceos, que você substitui aquela para manter a pessoa estável. É fundamental que a gente olhe para esse fenômeno das drogas sem paixões.

Questionado se seria a favor da legalização de todas as drogas, Shecaira falou no processo de normalização, isto é, um processo gradual para tratamento diferente da questão:

A gente tem que caminhar para uma normalização do processo. A normalização passa, necessariamente, a meu juízo, pela legalização da maconha, algo que foi feito no Uruguai, alguns Estados dos Estados Unidos, como o Colorado, na Holanda com a utilização do sistema dos coffee shops. (…). Então, existem experiências estrangeiras que caminham para uma legalização da maconha. Agora, é fundamental que, em relação às outras drogas, o Estado tenha controle sobre elas e se estabeleça um sistema progressivo que eliminem essa tensão da proibição.

Para Shecaira, enquanto essa normalização não for estabelecida, enquanto a droga continuar proibida, a violência será uma realidade cada vez mais constante.

Por que hoje a gente tem violência associada à droga? Porque ela é proibida. Você vai comprar um álcool, que é uma droga lícita e não existe a polícia dando batida nos locais onde você compra. Você compra álcool no supermercado, basta ser maior de 18 anos. E a grande questão é: por que eu não posso comprar outras drogas? Por que este não é um controle estatal? (…) É importante a gente ter em conta então que num primeiro momento a gente teria que ter uma política diferente com a maconha – e a maior parte do tráfico no mundo é a maconha. Isso já diminuiria a carga estatal e depois a gente gradativamente vai encarando as outras drogas.

Quarta-feira, 5 de agosto de 2015
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