Nenhuma nação pode ser feliz se não há liberdade religiosa
Sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Nenhuma nação pode ser feliz se não há liberdade religiosa

Não é raro eu escutar coisas do tipo “o Brasil seria outro se o povo seguisse a Bíblia” ou “feliz a nação cujo Deus é o senhor” (Salmos 33:12.)

São frases bonitas, mas perigosas.

A começar pela Bíblia: sempre que se seguiu aos ordenamentos dela a carnificina foi geral. Segundo o americano Steve Well, um grande estudioso histórico da bíblia, as mortes em nome de Deus na Bíblia passaram de 24 milhões. A coisa foi tão brutal que “nem crianças, mulheres, idosos e animais” escaparam (Josué 6:21). E as mortes não aconteceram só “dentro da Bíblia”, mas fora dela, por causa dela, como é o caso das inquisições e das cruzadas.

Então, não sei se o Brasil seria outro se seguisse a Bíblia, mesmo porque – e aqui nosso segundo ponto – temos uma bancada religiosa extremamente conservadora e reacionária e hipócrita no país.

Três membros da bancada religiosa estão com os nomes envolvidos na Lava Jato, são eles: os deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara e seguidor da Igreja Sara Nossa Terra; Aguinaldo Ribeiro (PP/PB), fiel da Igreja Batista; e o Missionário José Olímpio (PP/SP), da Igreja Mundial do Poder de Deus.

Segundo o Portal Transparência (dados de 2012), todos os deputados que faziam parte da bancada religiosa respondiam processos judiciais; 95% da referida bancada estavam entre os mais faltosos; 87% da referida bancada estavam entre os mais inexpressivos do DIAP; e na última década não houve um só projeto de expressão, ou capaz de mudar a realidade do país, encabeçado por um parlamentar evangélico.

O que se defende são os interesses da instituição religiosa. Apenas. Não foi por acaso que o Frei Betto alertou: “Precisamos abrir o olho porque está sendo chocado no Brasil o poder fundamentalista de confessionalização da política. Isso vai dar no fascismo.”

Não vejo com bons olhos uma nação dominada por um Deus, mesmo porque não é Deus quem vai dominar, né? Quem vai dominar mesmo é quem se diz representante Dele. E eu, desconfiado como sou, caminho sempre pela dica dada pelo teólogo Huns Kung: “Eu creio em Deus, mas duvido de tudo o que dizem sobre ele”.

E eu penso desta forma porque a Instituição Religiosa deixou de ser (nos dizeres do teólogo Paul Tillich) uma Comunidade Espiritual para se tornar um Centro Político. Deixaram de lado um plano de construção do Reino de Deus (igualdade e fraternidade) para construir um Reino de Poder (discriminatório e desigual). E esta instituição que pretende dominar o Brasil em nome de Jesus é a instituição que cedeu àqueles encantos que Jesus conseguiu resistir:

E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu. (Lucas 4:6,7)

Uma nação cujo Deus é o Senhor e segue a Bíblia é uma nação antidemocrática, diabólica, pois não consegue inserir em seu seio a multiplicidade. Por esta razão, por exemplo, o candomblé, durante o chamado Estado Novo, era encarado como bruxaria e por isto era proibido – e mais: sua prática era reprimida pelas autoridades policiais.

Enquanto uma nação cujo Deus é o Senhor defende que os contrários a isto devam ser punidos, a Constituição Brasileira, democrática, defende que

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes.

É interessante que a nossa Constituição garanta o Direito à vida a todos, porque se fôssemos seguir a Bíblia (e por acaso não adorássemos “o deus”), poderíamos ser castigados e/ou mortos. Aliás, quando se fala sobre a perseguição do povo de Deus contra os Cananeus o argumento que mais se ouve é: morreram porque não seguiam a Deus. Foi castigo.

Eu prefiro a Constituição Brasileira. Eu prefiro a liberdade religiosa. Aliás, bom que se diga, a lei de liberdade religiosa, no Brasil, foi obra de um ateu: o deputado Jorge Amado. Ele apresentou esta lei em 1942 e em 1988 a nossa Carta Magna a inseriu em seu corpo. Tinha que ser um ateu para defender a liberdade religiosa, pois o religioso certamente iria defender a sua própria religião…

Ora, e se seguíssemos a Bíblia? Um espírita estaria com sérios problemas: O homem ou mulher que consultar os mortos certamente será morto. Serão apedrejados, e o seu sangue será sobre eles (Levítico 20:27).

Num estado Democrático, porém, os espíritas podem viver tranquilos com sua fé.

Não! O Estado não pode servir a um só Senhor. Na verdade, o Estado não tem que ter nenhum senhor senão o povo, e o povo tem o direito de cultuar qualquer Deus – inclusive nenhum.

Estou convencido que a paz no mundo passa pelo respeito à fé religiosa, pelo convívio com a multiplicidade. Não seríamos um Brasil melhor se seguíssemos a Bíblia, mas seremos quando nunca abandonarmos o que reza a nossa Constituição Federal:

“É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias” (art. 5, VI)

Realmente não acho uma boa ter uma nação de um Deus só. Como diz o Pastor Ricardo Gondim no texto Deus nos livre de um país evangélico:

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. A alegria do futebol morreria; alguma lei proibiria ir ao estádio ou ligar televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada de várzea, aconteceria quando? Haveria multa ou surra para palavrão?

Acreditem nisto: Feliz é a nação que respeita a diversidade e a crença alheia. 

Wagner Francesco é Teólogo com pesquisa em áreas de Direito Penal e Processual Penal.
Sexta-feira, 21 de agosto de 2015
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