O medo nosso de cada dia
Sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O medo nosso de cada dia

Tão frágil e tão forte é o poder do medo.

Desde crianças, o medo é alimentado em nossas almas. Não podemos pular na cama. Nem subir em árvores. Nem colocar o dedo na tomada. Nem brincar com os restos do copo de vidro que derrubamos – tentar consertá-lo, remontá-lo, nada. Copos, uma vez quebrados, permanecerão para sempre quebrados. Corpos quebrados talvez jamais se recomponham. Corações quebrados talvez jamais se recomponham. Há muitas ameaças pelo mundo, nos dizem. Não deixemos que nossos corpos frágeis se quebrem. Não deixemos que nossa vida voe para longe. Não deixemos que nossos corações se partam.

Agarramo-nos, então, a nós mesmos. Encolhemo-nos na cama, tal como um feto que apenas quer proteger-se. Encolhemo-nos em casas pequenas, em relacionamentos vazios, em rotinas cinzentas. Agarramo-nos ao seguro, ao conhecido, ao passado. Encolhemo-nos feito rocha firme, feito rocha inerte: estamos, agora, seguros. Estamos, agora, protegidos dos riscos deste mundo que nos quer quebrar. Estamos, agora, sem vida.

Há um mistério profundo na vida. Uma flor desabrocha ao abrir-se. Um abraço é o encontro de corpos que se abrem. A mulher se abre ao homem e o homem se abre à mulher para que uma nova vida possa nascer. A beleza da noite estrelada está além do teto e da poluição que nos amarram ao nosso mundo rotineiro. O medo é o poder que estrangula a vida que tenta desabrochar.

***

Uma vida que desabrocha é a mais poderosa força da natureza – força diante da qual o medo não é nada, absolutamente nada. Eis a fragilidade do medo.

No solo fértil da tranquilidade, vidas desabrocham em profusão. E, neste espetáculo maravilhoso – tão belo quanto raios de sol que abraçam nuvens passageiras num fim de tarde ou quanto um roseiral completamente aberto numa manhã limpa –, o maior dos milagres acontece. Cada vida que desabrocha tem seu jeito, tem sua beleza, tem sua exigência, seu gosto, sua singularidade. E cada vida que desabrocha basta a si mesma.

Aqui, portanto, a vida plena: é a vida que, no auge de sua fragilidade, abre-se poderosamente. No auge de sua singularidade, basta-se a si mesma. Abraça o mundo. Abraça os riscos do mundo. Não por coragem – pois a coragem nada mais é que um subproduto do medo. A vida plena abraça os riscos do mundo como uma planta que, enfrentando ventos e tempestades, busca o sol: é simplesmente sua razão de ser, é sua beleza concretizada, é sua dança, é o que brota naturalmente no solo fértil da tranquilidade.

***

Mas a tranquilidade também pode amedrontar. Vidas plenas amedrontam quem não quer que vidas desabrochem.

O medo poda na raiz toda autenticidade. A vida que se abria volta-se, agora, em torno de si mesma. Fecha-se como feto. Faz-se rocha firme e fria, com a dureza que parece necessária diante de um mundo ameaçador. Olhos vivos perdem o brilho. A flor, cujo caminho único era desabrochar, já não mais sabe por onde ir. Escuta, então, os sussurros que vêm de fora. Sussurros não mais seus: sussurros de um mundo que traz o medo e a fantasia da solução.

Promessas surgem: de segurança e de luxo. O mundo é um lugar perigoso, perigoso demais para nossos corpos frágeis e nossos corações que podem partir-se. Melhor a quietude de um teto firme. Melhor o muro alto. Melhor a polícia ostensiva. Melhor a cerca. Melhor o que separa – separemos o mundo e seus riscos de nós, pois apenas assim poderemos sobreviver. Ainda que seja uma sobrevida cinza, sobreviveremos. Por décadas, talvez – décadas vazias, mas ao menos décadas sobrevividas.

E do vazio também se cuida. Haverá remédios, quando a dor do vazio for muito forte. Haverá muita cobiça, muita ambição. Todos querem isto ou aquilo. Todos querem chegar aqui ou ali. Todos querem esta ou aquela posição. Eu posso alcançar. Posso enfeitar meu vazio com medalhas reluzentes. Posso pintar meu caixão com cores alegres. Que mais se pode querer, senão sobrevida e consumo? Que mais se pode querer, senão segurança e destaque?

A vida plena desabrocha. Mas vidas plenas amedrontam. Vidas vazias que vendem soluções para vidas vazias fracassariam se vidas plenas proliferassem. “Há quem tenha medo que o medo acabe”, disse Mia Couto.

Aviões se chocam contra torres. Assassinatos a sangue frio são transmitidos ao vivo. Na manchete de jornal, o destaque é o crime mais terrível. É o menino que estupra e esquarteja. É o grupo terrorista que dizima crianças. É a atrocidade mais excepcional a mais lida: um evento isolado repercute e ganha dimensões indescritíveis. O risco torna-se o traço dominante de um mundo que talvez pudesse ser mais belo que arriscado. O pequenino medo, tão frágil diante de vidas plenas, ganha corpo e estende suas garras terríveis. Agora todo o mundo se recolhe. Agora todo o mundo perde cor. Agora todo o mundo quer segurança e ilusão, punição e caixões pintados de cor alegre.

A flor, que desabrocharia no solo fértil da tranquilidade, murcha sem jamais ter conhecido o sol. Somos nós: amedrontados por quem tanto teme que o medo acabe. 

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro “Carl Jung e o Direito Penal”. 
Sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend