O ser humano é uma promessa, jamais uma ameaça
Quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O ser humano é uma promessa, jamais uma ameaça

Numa de minhas inspeções prisionais, desta feita na Penitenciária Industrial de Joinville,  passando pelas galerias, comentei com o diretor da unidade que pelas minhas viagens mundo afora já havia estado em prisões dos EUA, Itália, França e que em apenas uma delas, que ficava nos arredores de Paris, verifiquei estrutura melhor que da unidade joinvilense. Contei que não obstante aquela prisão fosse de segurança máxima, de penas longas, inclusive para pessoas condenadas por terrorismo, as celas eram individuais, com agentes penitenciários em número equivalente ao de presos, com estudo, aulas de boxe, meditação, mais trabalho, de restauração de arquivos históricos à produção manual de candelabros comparáveis aos de Versalhes. Pois o diretor não se deu por satisfeito e enquanto continuava a inspeção passei a ouvir um violino aos fundos. Perguntei do que se tratava e fui lembrado que ali também havia cultura, com um detento violinista. Claro, já o conhecia, tendo assistido às apresentações da banda “acordes para a liberdade”, formada por detentos. O violinista sempre me chamara a atenção, pois aos meus leigos ouvidos parecia um virtuoso.

Tempos depois, essa virtuosidade foi pedagogicamente reconhecida. Promovido pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), no último dia 29, aconteceu em Joinville o TEDx, subdivisão do TED. O TED Talks é uma plataforma de palestras internacionais, da qual já participaram diversas personalidades, como Michele Obama, Bill Clinton e Bono Vox, cuja proposta é espalhar ideias para a transformação do mundo em um lugar melhor. Já o TEDx permite às comunidades de todo o globo organizarem de forma independente e democrática seus eventos. Um dos “speakers” do evento foi a pianista do Bolshoi/Joinville, professora Semitha Cevallos. Ela contou sua história e sua busca pela perfeição musical, os estudos acadêmicos feitos, seu intercâmbio na Polônia e por fim seu desalento com a música.

Contou que parou de tocar piano, não mais vendo razão para aquilo a não ser um sentimento particular e hedonista que não mais desejava cultivar. Retornou ao Brasil, retomando o trabalho na cultura de São José dos Pinhais/PR, quando então, depois de anos, sentiu vontade de voltar a tocar piano. Inscreveu-se para ser professora do Bolshoi do Brasil, em Joinville, sendo aprovada. Passou então a novamente se encantar com a música, tendo-a como algo transformador e dignificante. Porém, disse que ainda buscava mais. Foi então que resolveu entrar em contato comigo, juiz da execução penal, perguntando se haveria algum trabalho que pudesse desenvolver na Penitenciária. Autorizada a assim proceder, na sua primeira visita, como era para acontecer, ao passar na biblioteca perguntou ao detento que ali estava se havia algum livro de música, ao que o detento disse não, mas logo acrescentou que ele próprio tocava violino.

Seguindo o seu caminho, a visitante ouviu a música vinda do instrumento. Foi tocada. Ela, que pretendia levar música a uma penitenciária, acabou a recebendo. Colocou assim um piano dentro da unidade e passou a lecionar ao violinista/detento, iniciando projeto de formação de um coral. Contada sua história no TEDx, após a explanação e ao lado de um lindo piano de cauda colocado no palco, num “gran finale” a pianista anunciou a presença do detento, judicialmente autorizado. Ele entrou vestindo seu terno preto, camisa branca, gravata preta, com sapatos lustrados. Nas mãos o brilhante violino alemão de 1880, restaurado, adquirido com o salário de anos de trabalho dentro do sistema. E lindamente apresentaram em dueto As Bachianas, de Villa-Lobos. O público, emocionado, aplaudiu em pé.

Certamente as pessoas tiveram a curiosidade em saber o motivo pelo qual o violinista estava preso. Sua história era bastante trágica. Estava preso já fazia alguns anos. Mas mais importante do que saber qual crime cometera, era constatar que a música para ele se apresentava como um caminho para a reconstrução de sua vida, em última análise sua dignidade. O passado ficava no passado, claro que sem nunca esquecer, mas agora com o presente e futuro mostrando possibilidades de se fazer o bem pelo belo, pela arte. A pessoa do condenado jamais perde sua condição humana e por isso será sempre merecedora de irrestrito respeito em seus direitos e garantias fundamentais. Essa a única forma de possibilitar o retorno à sociedade livre em comunhão, num mundo não violento. A centena de pessoas que assistiu presencialmente ao dueto e as milhares que o fizeram pela plataforma digital certamente concordarão: o ser humano é uma promessa, jamais uma ameaça.

João Marcos Buch é Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais e Corregedor do Sistema Prisional da Comarca de Joinville/SC
Quarta-feira, 2 de setembro de 2015
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