Amor, um contentamento descontente
Quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Amor, um contentamento descontente

Parece que o Justificando entrou em um período de confissões. Vamos lá. Tudo tem a sua hora. A sorte é que isso passa.

Faz tempo que ando encafifado com um Soneto de Camões, ou melhor, especialmente com um verso.

Na verdade esse soneto de Camões sempre me intrigou muito. Como pode alguma coisa ser e ser também o contrário do que é ao mesmo tempo?

Cito, para relembrar quem já esqueceu esse Soneto de Luís Vaz de Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver

É ferida que dói e não se sente

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

 

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade;

 

Mas como causar pode ser favor;

Nos corações humanos amizade;

Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Eis a questão. Marque a resposta correta:

Por que seria o amor um contentamento descontente?

a) Porque o amor é sempre uma contradição;

b) Porque o amor se assemelha ao infinito;

c) Porque o amor é Eros, uma pulsão erótica de vida, que se opõe a Thanatos – pulsão de morte – como ensinou Freud;

d) Porque a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa;

e) Porque o amor não cabe em nenhuma pergunta de resposta simples, nem vai cair na prova do ENEM.

Se você marcou a letra E, parabéns! Ponto para você. Na prova, é claro, não na vida, pois a vida não é uma questão de escolha simples.

A resposta da letra A está errada. Há muitas coisas na vida em contradição que estão longe de ser amor.

A resposta da letra B também está incorreta. E os amores, a maioria deles, que são finitos e passageiros? O céu também é infinito… e não é um contentamento descontente.

A resposta da letra C, embora, com aparência de sabedoria (…), convenhamos, também não nada tem a ver com um contentamento descontente.

A resposta da letra D até está correta, mas aí o papo é outro, bem diferente.

Então vamos divagar devagar. Amor vem de a-mors, que significa não-à-morte. É o real. Algo que está no registro do impossível. Quando nós chegamos lá, ele (o amor) está mais adiante. Por isso avançamos e, quando novamente chegamos, o amor está em outro lugar. O amor está sempre em um lugar outro. Como quem anda à procura do arco-íris. Em baixo do arco-íris há um pote de ouro, diz a lenda.   

Na mitologia, Eros era filho de Poros e Pénia, sendo Poros a abundância, a fartura e a riqueza, e Pénia a pobreza personificada, aquela que não tem recursos, a penúria. Então, o amor seria, nesse contexto, a união da fartura com a carência, da riqueza com a falta?

Ah… união de contrários… os opostos se atraem…. Que nada, apenas uma aporia, um beco epistemológico. Um sentimento bipolar. Bipolar? Lembrei de um antipoeta amigo que me disse que um amor descontente não é amor. Para ele, especialista em futebol, mais exatamente em GRENAL, que entende muito do assunto e é tão concreto como um cerveja na mesa do bar da esquina, “o cara é do Grêmio ou é do Inter, fora daí é traíra.” Quando referi o nome poeta português Luís de Camões, que escrevera Os Lusíadas, primeiro queria saber qual era o time do “portuga”, e logo depois concluiu: “o cara que escreveu isso era bipolar mesmo”. E, como todo entendido em futebol, foi logo dizendo: “me bota fora dessa, mermão”.  

Essa é a prova mais contundente de que mitos e poetas andam sempre na frente, inclusive do futebol. O amor é da ordem do ficcional. Implica tocar a verdade. Mas, pelo menos pela via da psicologia, a pergunta é sempre “qual a verdade”. A falha básica ou a falta básica empurra indelevelmente para o desejo. Sou onde não estou e estou lá onde não sou. Penso onde não existo (no consciente) e existo lá onde não sou (no inconsciente). O paradoxo ilumina o pensamento e conduz o pensamento a pensar sobre o pensamento. O conhecimento, assim como o amor, só existe se for poético. O amor tem sempre uma dimensão poética, mas trágica também: a possibilidade da perda. Por isso, não poderia haver um amor contente. Aliás, se houvesse, morreria ao nascer. Seria um ato de acontecimento. Terminaria sempre no primeiro beijo. Seria “uma pegada”, quanto muito “uma ficada”. Com certeza não é disso que fala Camões.

Mas felizmente o amor é um contentamento descontente e por isso não acaba nunca. O poeta, o psicanalista e o jurista se opõem à esfinge da ignorância e pela função transformadora da palavra arremessam o sujeito ao conhece-te a ti mesmo, pressuposto indispensável para a criação, para a verdade e para o amor. Amar, portanto, é poder tocar a eternidade. Só aí viver é não estar mais só. É aí que ficam as coisas e as palavras. Como diz o poeta Carlos Nejar, amar é a mais alta constelação.

Jorge Trindade é Pós-doutorado em Psicologia Forense. Livre docente em Psicologia Jurídica. Doutor em Psicologia Clínica. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Lisboa. Mestre em Psicologia. Especialista em Psicologia Clínica e Jurídica. Professor Titular na Universidade Luterana do Brasil. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica. Vice-Presidente da Asociación Latinoamericana de Magistrados, Funcionarios, Profesionales, Operadores e Niñez, Adolescencia y Familia.  Diretor do Instituto Brasileiro de Direito de Família/RS.
Quinta-feira, 3 de setembro de 2015
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