A criança na praia
Sábado, 5 de setembro de 2015

A criança na praia

A criança parece dormir como se estivesse no berço, mas as areias da praia turca são sua mortalha.

Em Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky, no célebre diálogo do capítulo Revolta, o cético Ivan diz ao irmão mais novo, o seminarista Aliocha, que quer devolver a Deus o bilhete de entrada no mundo. Essa frase somente é dita após Ivan desenvolver sua estratégica argumentação antimetafísica para o crente Aliocha, narrando episódios em que crianças eram tratadas com extrema crueldade. No mais horrendo deles, uma criança de 8 anos, serva, atinge o cão do senhor feudal com uma pedra. A criança é colocada em uma masmorra e no dia seguinte, em uniforme de gala, perante seus dois mil servos, o proprietário ordena que tragam a mãe e o menino. Manda tirar toda a roupa da criança, faz com que a ponham para correr e incita a matilha. O menino é despedaçado pelos cães diante da mãe.

Ivan explica que devolve o bilhete de entrada a Deus, caso ele exista, porque nenhuma harmonia futura, nenhum paraíso vindouro poderia compensar essa criança estraçalhada, e de nada adiantariam os tormentos do inferno para o culpado se a criança inocente já teve seu inferno.

O interlocutor de Ivan na ficção é Aliocha, mas filosoficamente poderia ser Leibniz. Pensadores dos séculos XVII e XVIII discutiram angustiadamente a chamada teodiceia, palavra criada por Leibniz para designar a justificativa dos males do mundo diante da bondade de Deus, que, sendo perfeito e absoluto, permite um mundo miserável e cruel. Para Leibniz, há um projeto divino que não nos é dado alcançar e tudo está bem e de acordo com esse plano.

Ironicamente, foi na defesa de Leibniz que Rousseau apareceu como um dos inventores do futuro, descortinando a linguagem da modernidade. No Poema sobre o terremoto de Lisboa, desastre que no dia de todos os santos, 1º. de novembro de 1755, destruiu a mais humilde e piedosa cidade da Europa,  graças também aos incêndios provocados pelas velas que tradicionalmente eram acesas nesse dia santo nos altares, Voltaire zomba de Leibniz e de todos os filósofos que dizem aos infelizes homens que tudo vai bem e temos o melhor dos mundos que podemos ter. Nas orgíacas Paris e Londres se dançava e Deus houve por bem destruir a humilde e católica Lisboa.

O deísta Rousseau respondeu a Voltaire na Carta sobre a Providência. As causas do terremoto estavam dadas desde sempre nas leis divinas da natureza, que não são revogadas porque os homens decidiram construir uma cidade em certo lugar. Deus não é nosso estafeta, não está encarregado de nossas maletas:

“A maior parte dos nossos males é obra nossa; não foi a natureza que reuniu em Lisboa vinte mil casas de seis a sete pavimentos; se os habitantes de Lisboa estivessem melhor distribuídos e vivessem mais modestamente o dano teria sido muito menor, ou, talvez, nenhum; em vez de fugir ao primeiro abalo, obstinaram-se para recolher seus pertences, roupas, papéis e dinheiro”.

Rousseau, na defesa de uma certa concepção de Deus, excluiu da esfera pública a questão metafísica-teológica e a colocou no lugar em que deve estar, no plano da subjetividade.  No discurso racional da modernidade, os fatos humanos têm causas humanas; não são como são porque a vida é assim mesmo, são coisas que acontecem mesmo, ora, que se vai fazer… A desgraça, a dor e a miséria de nossas vidas são construções humanas.

O homem da história de Dostoievsky mandou despedaçar uma criança. Não há controle e não há como interferir em sua alma perversa. Se o interlocutor de Ivan fosse um homem moderno, daria a resposta de Rousseau: não foi Deus quem estraçalhou a criança, foi um senhor feudal. Ou seja, foi um proprietário, e a propriedade é obra humana.

Tampouco foram Deus ou a má sorte que fizeram das areias turcas a mortalha da criança. Na cadeia de causalidade das relações sociais e políticas essa morte estava decretada há muito tempo.

Estava decretada pelo colonialismo europeu, gênese remota de desequilíbrios econômicos e sociais que geram os fundamentalismos que assolam as regiões de onde vem os refugiados.

Para Arsene Bolouvi, da Anistia Internacional, vendas de armas, controle de recursos, tramas multinacionais e os governos autoritários apoiados pela França interferem diretamente nas condições de vida dos migrantes forçados, fazendo-os fugir da guerra e da fome:  “… mais uma das armadilhas da geopolítica, uma vez que o mesmo Estado que patrocina as guerras promove intervenções ‘humanitárias’ e enrijece fronteiras e políticas para refrear um êxodo descontrolado (…) A própria política exterior e comercial dos países do Norte acarreta a emigração dos países do Sul”

Enfim, o que se trata é de injustiça e desigualdade. A estrutura das relações de poder e das relações econômicas e sociais decreta a miséria perpétua desses povos assolados pelo medo e pela necessidade. O capitalismo, pela sua natureza intrínseca, não pode garantir bem-estar e atender os interesses da totalidade dos seres humanos. Ele precisa, necessariamente, oprimir uma parte da humanidade e excluir outra para funcionar. Precisa de guerras e precisa da miséria de uma parte da humanidade.

A foto da criança atormentou nossas últimas noites. Muitos choraram, muitos se emocionaram, muitos lembraram as noites em que acomodaram seus filhos em seus berços e os contemplaram tantas vezes naquela exata posição em que morreu o pequenino sírio, porque ele parecia dormir em um berço.

Mas as emoções são como rios. Fluem, passam. O que as retém na consciência é a razão. Que Rousseau, e depois Marx, nos ensinaram que deve ser movida pela luta social.  Platão dizia que os seres humanos são constituídos por três partes: a apetitiva, a irascível (as emoções) e a racional. E que a justiça é o controle da razão sobre as outras. É ela que nos fará, um dia, devolver o bilhete de entrada, não a Deus, mas ao capitalismo, para pegar o bilhete de entrada no mundo da solidariedade e da fraternidade.  E então nenhuma criança, em nenhum lugar do mundo, será amortalhada pelas areias de uma praia.

Marcio Sotelo Felippe é pós-graduado em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo. Procurador do Estado, exerceu o cargo de Procurador-Geral do Estado de 1995 a 2000. Membro da Comissão da Verdade da OAB Federal.
Junto a Rubens Casara, Marcelo Semer, Patrick Mariano e Giane Ambrósio Álvares participa da coluna Contra Correntes, que escreve todo sábado para o Justificando.


REFERÊNCIAS
[1] Raissa Leite Zoccal, em  http://outraspalavras.net/posts/refugiados-drama-global-e-ignorado/
Sábado, 5 de setembro de 2015
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