Carmen Lúcia: “Sou juíza da causa do retirante tanto quanto do empresário de helicóptero”
Quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Carmen Lúcia: “Sou juíza da causa do retirante tanto quanto do empresário de helicóptero”

“A grandeza desses homens brilhantes… digo, homens e mulheres”, corrigiu-se imediatamente o orador ao perceber o incômodo da vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia, que aproveitou o adendo para falar: “Ah bom! Já estava indo embora”, arrancando risos e aplausos da plateia no Colóquio realizado na Associação dos Advogados de São Paulo, localizada no palacete reformado nas calçadas do Centro antigo paulistano.

A ministra, que raramente fala à imprensa, não perde a oportunidade de defender e lutar pela efetivação dos direitos das mulheres nas vezes que fala ao público. Não foi diferente nesta semana. Ela foi a primeira a palestrar no evento e tratou sobre pluralismo político e inclusão no cenário político de todas as vozes, inclusive as minorias discriminadas. Ao tratar do assunto, declamou um trecho de um poema “Mulher ao Espelho" de Cecília Meireles, que trata justamente da emancipação feminina:

"Já fui loura, já fui morena,

já fui Margarida e Beatriz.

Já fui Maria e Madalena.

Só não pude ser como quis”.

Na primeira vez que o Justificando presenciou uma palestra de Carmen Lúcia, a ministra já havia tratado de efetivação dos direitos das mulhres. Naquela oportunidade, na cidade de Santos, a ministra falou sobre o feminicídio – "mulheres morrem todos os dias apenas por serem mulheres. Homens não". 

Deus protegem os loucos, os bêbados, os cachorros… e os juízes

Carmen tratou também de reconhecer a deficiência do Poder Judiciário em responder a população que o procura, com base em dados que comprovam que não há como dar conta da medida: "Somos um povo que temos quase 100 milhões de processos e 18 mil juízes”.  Nas proporções brasileiras, o ministro do Supremo lida tanto com o retirante que entra em um caminhão para ficar sete dias na estrada atrás de maior oportunidade financeira, quanto do empresário que demora quinze minutos de sua casa até o trabalho em seu helicóptero – "Sou juíza da causa do retirante tanto quanto do empresário de helicóptero"

Apesar desse número, a ministra ressaltou que as pessoas querem e esperam que o ministro leia o processo com calma e de capa a capa. Não fica nada fácil dar conta dessa matemática –  Deus protegem os loucos os bêbados os cachorros e os juízes  – brincou.

Ao final, a ministra mineira que estava inspirada na literatura, falou sobre seu ideal de justiça e leu para a plateia o conto “O Mineirinho”, de Clarice Lispector, que conta a história da execução de um criminoso e a reflexão da autora acerca dos direitos humanos. 

O conto finaliza com uma reflexão: uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado.

Foto: Nelson Jr./STF

Quarta-feira, 21 de outubro de 2015
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