Nós, humanos, somos pequenos demais
Terça-feira, 10 de novembro de 2015

Nós, humanos, somos pequenos demais

Que o leitor perdoe esta ousadia. Ou, talvez, que aproveite. Neste texto, deixarei o direito um pouco de lado, ou totalmente de lado. Às vezes, uma viagem é necessária. Às vezes, só a visão panorâmica que a viagem proporciona nos faz ver melhor o que antes estava aqui do lado.

A cidade mais sagrada da Índia, que talvez seja o mais sagrado dos países do mundo, é uma cidade dedicada a Shiva. Shiva é o deus da dança. É também o deus da destruição, da morte e da renovação.

Em Varanasi, corpos são cremados e atirados ao Ganges. Dizem que há piras queimando há milênios. Corpos de crianças podem ser atirados ao rio. Pessoas vão a Varanasi para morrer nos braços de Shiva e, assim, evitar uma nova vida – e uma nova morte.

A sorte é perseguida. Rituais inúmeros são feitos em busca da boa sorte. É um reconhecimento, feito por milhões de indianos, de que o próprio destino está muito pouco em suas mãos. Há milhares de divindades na Índia. Nós, humanos, somos pequenos demais. A parte que nos cabe, aos olhos indianos, é muito menos o poder de decisão, o caminhar com os próprios pés, as conquistas individuais tão caras ao homem ocidental muito senhor de si e da própria vida. A parte que nos cabe, aos olhos indianos, é plantar humildemente as sementes da boa sorte e do bom carma.

O ocidental caminha atento. Calcula. Segue faixas e filas. Sua linha é reta. As prescrições médicas são conhecidas. Há ordem e hospitais. Sejamos atentos, responsáveis e precavidos, e assim viveremos uma longa e bem-aventurada vida.

Em Varanasi, a mais sagrada cidade da Índia, o motorista não respeita qualquer faixa. Não há semáforos. Um caos de pedestres, cachorros, cabritos, ciclistas, búfalos, doentes e muitas vacas cruza seu caminho. O motorista parece fechar os olhos. Mergulha no caos com uma forte buzina: estou chegando. Estou aqui. Mergulhando de olhos fechados, a cada instante, num misterioso e caótico universo em que as coisas podem dar errado. Onde o ocidental recuaria, o indiano acelera. Se a buzina do ocidental é de desespero e raiva, a buzina do indiano é de uma estranha confiança. Ele sabe que, de alguma forma, o caos haverá de arrumar algum espacinho para a sua chegada. Os deuses colhem, a cada instante, as sementes tão semeadas de boa sorte e bom carma.

Mas, claro, as coisas podem dar errado. Vi mais de uma vez o motorista buzinar e acelerar tendo, diante de si, criancinhas que pareciam pouco saber andar, e ainda menos poderiam conhecer as complexas dinâmicas do trânsito. De alguma forma, elas desviaram, talvez guiadas pelas mãos de Shiva. Mas Shiva, deus de destruição que é, talvez possa, vez ou outra, preferir a morte à vida.

Varanasi, a mais sagrada cidade indiana, é a cidade de Shiva, o deus da destruição e da morte. E isso parece dizer algo estranho e sublime sobre esse povo. O caótico trânsito, indefensável para nossos olhares ocidentais, reflete uma cosmovisão radicalmente diferente da nossa. O motorista que, veloz, mergulha no caos de carros, ciclistas, vacas e crianças confia na boa sorte, mas sabe que, no fundo, a vida gira e a morte pode, sim, vir. E, se vier, foi feita a vontade dos deuses. Shiva, o mais reverenciado deus da mais sagrada cidade da Índia, é o deus da destruição e da dança.

Na vida, toda unilateralidade muito senhora de si é extremamente perigosa. Nós, ocidentais, tendemos a olhar para esse povo que de forma aparentemente tão indiferente aceita a morte com fortes marcas de julgamento e condenação. Somos peritos em cálculos. Planejamos os próximos anos, as próximas décadas. Pagamos seguro do carro, seguro de vida, plano de saúde. Agarramo-nos a nós mesmos e muito raramente falamos sobre a morte.

Varanasi traz o outro lado. Aqui, o véu com que tentamos ocultar a morte foi erguido há milênios, se é que algum dia chegou a existir. O motorista indiano repete, a cada instante, o movimento que cada um de nós fez logo ao entrar nesta vida insana. Abandonamos a sublime ordem do útero para desbravarmos o caos de um mundo em que, a cada segundo, tudo pode dar errado.

Mas o que é errado?, perguntará o indiano. O que é certo? Quer-se a boa sorte, mas se louva a Shiva. Shiva cria, mas, para criar, deve antes destruir. Essa é a dança de Shiva. E cada passo da vida na Índia parece ser um movimento desta dança. Cada passo é esperançoso, dado com a certeza da boa sorte e do bom carma. E, em cada passo, a morte parece vir, sussurrar e retornar. Quase sempre retorna. Por anos, vem, sussurra e volta. Até que, um dia, não volta. Vem e fica. Chega e leva consigo. O fogo da pira funerária lança aos ares o corpo que já precisava perecer para que uma nova maravilha pudesse ser criada.

Varanasi parece ser, enfim, um convite para que o visitante faça o que, ao longo da vida, evitou reiteradamente fazer. Varanasi convida a todo instante: aceitemos e admiremos a morte – que, desde nosso primeiro choro, jamais deixou de dançar conosco.

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro "Carl Jung e o Direito Penal".
Terça-feira, 10 de novembro de 2015
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