Gritemos!
Quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Gritemos!

Coluna de Renan Quinalha especialmente no #Agoraéquesãoelas

Quando eu entrei na São Francisco em 2006, eu desconhecia completamente o meio jurídico. Não tinha familiares no meio e não sabia como as coisas funcionavam. Talvez por isso que eu achasse tudo lindo. Doce ilusão.

Logo no início da graduação me deparei com alguns fatos interessantes.

A São Francisco é muito heterogênea no campo das ideias, mas é praticamente homogênea no quesito cor da pele, gênero e classe social. Pouquíssimos alunxs são negrxs e pobres. A grande maioria é branca e de classe média/alta.

É possível contar as professoras titulares nos dedos. Atualmente, há 37 professores titulares e apenas 4 são mulheres. E o fenômeno não é recente. Entre os 34 professores titulares aposentados, apenas 6 são mulheres. Ou seja, de um total de 71 professores titulares (ativos e aposentados), apenas 10 são mulheres.

É comum ouvir alunos criticando as aulas, a rigidez dos professores na correção de provas, o fato dos professores serem “durões” e chamarem a atenção dos alunos. Mas apenas com as professoras ouvi argumentos de que elas agiam assim porque estavam na TPM, haviam brigado com os maridos, porque eram solteiras e, pior, porque tinham problemas sexuais.

Mas as desigualdades não ficam restritas à universidade.

Nesses 10 anos, vi pouquíssimas mulheres, pessoas negras ou com deficiência se tornando sócias dos maiores e mais renomados escritórios de advocacia do país. Vi poucas desembargadoras. Vi poucas ministras.

Vi pouquíssimas mulheres, especialmente negras, em cargos diretivos ou de gestão de grandes empresas.

Vi mulheres sendo questionadas sobre casamento e filhos em entrevistas ou conversas “informais”.

Vi pessoas que exercem atividades consideradas de “menos prestígio” serem desrespeitadas por muitos “doutores”.

Ouvi uma infinidade de piadas sobre mulheres, a sensibilidade excessiva, os problemas sexuais e a suposta relação com a qualidade do trabalho.

Vi mulheres terem que trabalhar infinitamente mais do que os homens pra provar que eram capazes e, mesmo assim, ouvir que não era suficiente.

O machismo, o racismo e o preconceito no mundo jurídico pode parecer muito sutil, mas para mim é gritante.

Então, gritemos por mais igualdade e oportunidades.

Anna Carolina Venturini é advogada, mestre em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da USP e doutoranda em Ciência Política pelo IESP-UERJ. 
Foto: Marcelo Pinto/Aplateia
Quarta-feira, 11 de novembro de 2015
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