Isso não é racismo, senhor governador?
Sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Isso não é racismo, senhor governador?

 

“Não envolve racismo. É erro e erro a gente combate como eu falei aqui.

A gente vai combater. Não é racismo.”

Luiz Fernando Pezão, governador do Rio de Janeiro

 

Será que alguém nesse clube genocida que chamamos de Estado brasileiro sabe definir o que é racismo?

O governador do Rio de Janeiro não. Não tem moral nem intelecto para definir o que é ou não racismo.

E não vai definir.

A ele cabe apenas ser honesto e direcionar a sua gestão precária ao esvaziamento das ações públicas que favorecem o extermínio de jovens negros nas periferias. Não tem feito isso, o que o torna cúmplice de todas as ações criminosas da polícia que atua em seu Estado, quando não protagonista. Estado que, por sinal, tenta barrar a presença de pessoas negras nos espaços públicos que a cidade comporta, com um verniz inútil pintando discriminação racial de promoção da segurança pública.

Recentemente, vimos a interdição de jovens negros a caminho das praias cariocas, sob o silêncio cínico da elite brasileira da qual o governador pertence. Os espaços de poder estão impregnados de pessoas brancas, bem nascidas e privilegiadas, como ele. Essas pessoas não se dão o trabalho de destrinchar o esquema que segrega e coloca na marginalidade pessoas negras. E porque o fariam, se é justamente esse esquema que os sustenta no poder? Se é justamente às custas da alienação da população que eles mantêm seus privilégios e sua impunidade?

Quem define o que é ou não racismo é a população negra. A intelectualidade negra, pautada na necessidade absoluta de entender o sistema em que está inserida e pelo qual é prejudicada continuamente, se reserva ao direito, ao contrário dos outros grupos intelectuais, de ao menos estudar os mecanismos que limitam todos os caminhos que levariam a população negra a plena autonomia e ao gozo de todos os benefícios dos quais a população branca desfruta desde sempre.

O racismo está em todas as partes da América e, no Brasil, ele está em 90% da população composta por pessoas brancas, que se julgam não racistas embora não percebam, por exemplo, que os espaços de poder e decisão estão montados para excluir negros. Essas pessoas insistem em negar o racismo, ora chamando de preconceito, ora justificando a não representatividade do negro nos espaços sociais predominantemente brancos com o discurso frágil da meritocracia.

O racismo é tão aceito que parece inofensivo, inexpressivo. Ele é tão vulgar, que parece que qualquer um pode dizer do que se trata, sem nunca ter passado por isso, assim como fez o governador do Rio de Janeiro, que expressa sua ignorância sobre o assunto com uma naturalidade espantosa, sem o menor constrangimento, como se ele de fato soubesse do que está falando. Essa arrogância branca e elitizada se repete em todas as camadas sociais. Faz com que as pessoas não se mostrem comovidas diante da barbárie a que a população negra está exposta diariamente, onde a violência é só a ponta do iceberg. Eles ignoram cinicamente que o racismo mata.

Para essa elite, da qual o governador faz parte, é necessário que o racismo exista, porque ele garante privilégios políticos, econômicos e sociais. É legítimo que um governador eleito diga que o racismo não foi o palco do extermínio covarde de 5 jovens negros, porque esse sistema assassino e desigual sustenta, entre outras coisas, o privilégio que ele detém e que o levou ao posto de poder que ocupa.

Ok, senhor governador. Seja cínico e negligente. Lave as mãos como todos os brancos têm feito diante das mazelas da população negra nesse país.

Mas não vai diga o que é racismo. Ou o que não é. Não assim, livremente, numa atitude explícita de silenciamento. A cara da negritude atualmente é outra, senhor governador, e nós falamos por nós, passando por cima do seu cinismo e da conivência da sociedade brasileira que não é afetada diretamente por esse mau.

Toda a população negra brasileira tem um grito preso na garganta, formado por uma mistura de dor, ódio e tristeza, que, mesmo no silenciamento a que é imposta diariamente pela população branca, escapa e responde: É racismo sim, senhor governador Luiz Fernando Pezão.

Nas grandes metrópoles do Brasil, a situação se repete cotidianamente. A cada dez quarteirões em que circulamos, pelo menos em cinco iremos encontrar pessoas negras sendo revistadas, num espetáculo de humilhação naturalizada e racismo explícito. A cidade e sua distribuição espacial nos indica, na sua malha urbana segregada, que pessoas negras não são bem-vindas. Estão ocupando as bordas das cidades, num processo contínuo de higienização que estabeleceu-se ao longo do processo de urbanização das cidades. Sim, nenhuma metrópole brasileira é inclusiva. As regiões dotadas de infraestruturas adequadas e completas não aceitam presença da negritude. Pessoas negras são seguidas nos estabelecimentos comerciais, constrangidas e acuadas nos espaços destinados a população de alto padrão, a classe alta. Tudo isso, e muito mais, no silêncio social, na ausência de opiniões corajosas que possam pensar em soluções para uma cidade inclusiva.

Os meios de comunicação atuam na propagação dos estereótipos depreciativos que as pessoas negras carregam, tudo de maneira muito sutil. Perversamente sutil. A população negra televisiva, cinematográfica e midiática é quase inexistente e quando existe é subalterna, marginalizada, bestializada. Os livros de história embranquecem nossas personalidades negras descaradamente, já que não podem desvalorizar a reconhecida genialidade deles. Fizeram isso com Machado de Assis, Lima Barreto e Cruz e Souza.

E a população branca, envolta em uma nuvem de silenciosa e confortável conivência.

Mas essa conivência é assassina. Porque o racismo é assassino. Ele mata de todas as formas possíveis. Mas a pior morte que o racismo vem causando é a morte de sonhos.

Clube da esquina, em uma de suas belíssimas canções, diz que sonhos não envelhecem. Em termos de poesia, o significado é lindo. Sonhos não envelhecem porque são eternos. Mas os sonhos da população negra não envelhecem por outros motivos nada poéticos.

Foram 5 sonhos que se foram debaixo de 111 tiros: Roberto, Carlos, Cleiton, Wesley e Winton.

O 9º Anuário de Segurança Pública, publicado pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) em outubro, informa que as forças policiais do Rio de Janeiro são as mais letais do país. A cada cem mil habitantes, no Estado do Rio, morreram 3,5 pessoas por conta de algum tipo de intervenção policial. Onde os policiais fazem intervenções diárias, senhor governador? Isso também não é racismo?

Uma pesquisa recente feita pelo estudante de geografia Hugo Nicolau Barbosa de Gusmão, de 29 anos, morador da zona Leste de São Paulo, aponta o dado vergonhoso de que existem bairros onde o adensamento é de até 90% de brancos, em um país cuja população negra ultrapassa os 50%. Isso não é racismo, senhor governador?

De acordo com dados fornecidos pela Anistia Internacional, 79% das pessoas mortas por policiais militares entre 2010 e 2013 eram negras, 99,5%, homens, e 75% tinham entre 15 e 29 anos de idade. Esses números se referem apenas ao estado do Rio de Janeiro. As vítimas desse assassinato bárbaro foram tratadas genericamente pela mídia que abriu cobertura especial para os atentados na França, se encaixam nesse perfil. Isso não é racismo, senhor governador?

Foram 5 sonhos que se foram debaixo de 111 tiros: Roberto, Carlos, Cleiton, Wesley e Winton.

Isso é racismo, senhor governador?

A polícia protege a quem?

Não é a população negra.

A polícia obedece a quem? Não é a população negra.

O Mapa da Violência 2015 aponta para o crescimento de 54% no número de feminicídio praticados contra as mulheres negras em uma década. A estatística referente a mulheres brancas caiu 9%.

Isso não é racismo, Sr. Luiz Fernando Pezão?

Racismo não é questão de opinião, senhor governador. É vivência. O senhor não vivencia essa realidade e por isso a ignora, como faz a população branca.

A execução sumária de cinco jovens é racismo sim.

É racismo porque não acontece com jovens brancos. É racismo porque tem a conivência do Estado brasileiro que é silenciosamente genocida. É racismo porque deixa a população branca confortável.

É racismo porque cumpre com o papel que a escravidão deixou em aberto: o extermínio pós-exploração do povo-incômodo que vai fazer o branco lembrar eternamente que todas as suas riquezas foram construídas às custas de sangue, suor e exploração de uma população inteira.

É racismo, porque não se fala sobre isso nas rodas de conversa e não comove ninguém.

É racismo porque deixa claro a mensagem institucional de que vidas de pessoas negras não importam a ninguém.

É racismo porque ninguém muda o avatar na rede social.

É racismo porque o Brasil é racista.

É racismo porque o Brasil é racista.

Foram 5 sonhos que se foram debaixo de 111 tiros: Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wesley e Winton.

Luiz Fernando Pezão, governador do Rio de Janeiro, é racista e cínico. Da mesma forma que a população brasileira branca também tem sido. Tem sido porque não acha estranho as estatísticas terem cor e classe social permanente (qual?). Tem sido porque julga como vitimismo a comoção expressa pelos negros que ousam não se calar. Tem sido porque admite que a população negra continue em subempregos, apagada pela mídia e confinada pelos estereótipos racistas propagados como piada.

Tem sido racista porque aplaude racistas como Danilo Gentilli e Luciano Huck.

Franceses mortos em ataques terroristas merecem comoção sim. Toda vida importa. Mas, e os negros que morrem diariamente nas grandes metrópoles, vítimas do plano velado de extermínio racista, não merecem a mesma comoção?

Aparentemente não. Não merece sequer discussão. A sociedade brasileira branca tem sido racista porque prioriza o seu conforto, hierarquiza vidas e utiliza-se de métodos racistas para manter seus privilégios.

Nessa pátria mãe gentil, que não é mãe, nem madrasta e não tem sido nada gentil com pessoas que não compõem a classe branca – sim, porque a branquitude é uma classe socioeconômica que se fortalece enquanto exclui e segrega para manter essa posição. A palavra que sintetiza o (mau) caráter nacional é o cinismo.

Cinismo das hashtags hipócritas e seletivas, cinismo do falso conceito da democracia racial, cinismo no debate político sobre cotas mesmo após uma década de implantação, cinismo na discussão sobre demarcação das terras indígenas e quilombolas, cinismo nas discussões pela legalização do aborto, etc. Cinismo.

Somos todos cínicos em terras tupiniquins.

O Brasil precisa assumir a responsabilidade frente à luta contra o que mais mata em nosso território: o racismo. Precisa deixar de ser covarde. Precisa se comover com esses sonhos que são impedidos de se eternizarem. Esses sonhos exterminados violentamente. Esses sonhos que não envelhecem por ausência de poesia e excesso de estatísticas.

Faz 26 anos que a lei antirracismo foi sancionada. Por que a lei não é revisada? Quem está na cadeia por ser racista? O governador do Rio de Janeiro, o chefe de segurança pública e os policiais que executaram esses sonhos deveriam estar. Sabemos que a Lei é inútil, porque nós negros continuamos sendo exterminados pelo Estado genocida sob o silêncio sorridente da sociedade que não desconstruiu sua alma escravagista. Se a Lei Aurea fosse revogada hoje, grande parte da população negra seria confinada novamente em senzalas oficiais, porque as senzalas modernas, vulgo periferias, estão adensadas prioritariamente pela população negra.

E a sociedade brasileira homenageia os mortos europeus.  

Por aqui foram 5 sonhos exterminados que se foram debaixo de 111 tiros: Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wesley e Winton.

A massa de pessoas que afirma que racismo não existe, que reclama das vozes denominadas pela branquitude como vitimista, entre outras ações descaradamente racistas, precisa saber que está de mãos dadas com a polícia que mata pessoas negras. A sua negligência, o seu silêncio, também são assassinos.

São assassinos porque não questionam. Porque mantém a hierarquização das vidas humanas. São assassinos porque calam, disfarçam e não se dispõem a desconstruir as falhas de caráter onde o racismo habita. São assassinos porque acham natural que jovens negros sejam alvo recorrente da polícia. A população brasileira é cúmplice do extermínio de jovens negros.

Foram 5 sonhos que se foram debaixo de 111 tiros: Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, Wesley e Winton.

Pezão e toda a sociedade brasileira é culpada pela morte dos cinco jovens. Cada um com seu quinhão, cada um à sua maneira. São todos culpados. Pelas mortes de todos os jovens negros nas periferias. Pelas péssimas condições de vida que o racismo impõe a população negra. São culpados.

E é por isso e só por isso, que o avatar do perfil de quem chora pela França não vai mudar pelos 05 sonhos que não envelhecem. Infelizmente, não pelos motivos poéticos que levaram os compositores do Clube da Esquina a escrever a canção. Nesse país, muitos sonhos não envelhecem porque são negros.

O Brasil é um Clube Genocida onde sonhos não envelhecem, não pela possibilidade poética de ser eternizado. Não envelhecem porque são assassinados.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.
Sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
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