Cenas paulistanas
Quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Cenas paulistanas

Cena 1: uma sala fechada, pequena e de iluminação precária. Duas mesas comuns e um cano ferro apoiado nas extremidades sobre elas. Três homens suados e suarentos, de compleição medida, absolutamente medíocres e normais, vestem camisa de manga curta e calça jeans, podem usar botas ou tênis. Amarrada e pendurada no cano, que atravessa as pernas e os braços, uma jovem nua. Está ali já algumas horas e ultrapassou os limites da exaustão. Os joelhos estão inchados, as costas estão inchadas e de sua boca escorre baba e sangue. No chão, manipulada por um dos homens, uma bateria, ligada a um dínamo, produz corrente elétrica. Os pinos estão conectados na vagina da jovem, que cujo copo produz espasmos a cada choque recebido. O terceiro dos homens, provavelmente, o mais importante deles em alguma escala hierárquica, desfere murros na altura dos rins da jovem. Urina e fezes e todas as secreções correm por seu corpo e gotejam no chão da sala, exalando um odor fétido insuportável. Os homens tiram a jovem do cano, que conhecemos como “pau de arara”, jogam-no no chão, onde ela se debate mais um pouco até desfalecer completamente. É arrastada para fora da sala, levada para outro lugar, provavelmente uma cela. Antes de sair, gritam que “amanhã, tem mais”.

Cena 2: (muitos anos depois) Manifestação na Avenida Paulista. Jovens vestindo uniformes militares carregam faixas pedindo a volta da ditadura, marcham. Têm os cabelos cortados ao estilo militar, são brancos, a roupa está alinhadíssima e não sorriem. À frente deles, três homens bem mais velhos puxam o cordão. Sim, são os três torturadores, quarenta anos mais envelhecidos. Um deles está com um cartaz “naquele tempo havia honestidade”. Outros dois, carregam um pôster, em que está a foto de uma senhora. Sim, é a jovem que eles torturaram, quarenta anos depois. Eles se sentem vítimas dela e pedem que ela saia.

Cena 3: Manifestação na Paulista, a menos de cem metros do primeiro grupo. Mulheres elegantes, evidentemente ricas caminham entre outras mulheres, da classe média emergente. Todas são de meia idade, todas vestem a camisa da seleção brasileira, algumas estão acompanhadas de seguranças, discretamente ao lado. Alguém passa por elas e deixa cair um pequeno papel, em que se lê que foi torturada, espancada, estuprada e que os autores estão ali, ao lado delas. Que tenham cuidado, afinal, aqueles homens foram capazes de pendurar uma mulher no pau de arara, dar-lhe choques horrendos, espancá-la e esmurra-la, nua e amarrada, dizia o aviso. Elas saem correndo e se juntam ao grupo, liderado pelos três. Perguntam-lhes quem teria sido o autor daquilo e recebem uma resposta quase orgulhosa. Abraçam-se a eles e, freneticamente, lamentam que eles, que se deram a pendurar uma mulher no pau de arara, dar-lhe choques horrendos, espancá-la e esmurra-la, nua e amarrada, são tratados como heróis.

Cena 4: Periferia distante. No barraco, todos se arrumam rapidamente. O café com pão. Dois meninos negros se vestem, chorando muito. Todos choram, adultos e crianças. A melhor roupa, a que têm. Na estante da sala, o retrato do filho morto pela polícia.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
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