Anna, esposa de Euclides da Cunha: (mais uma) história calada das mulheres
Sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Anna, esposa de Euclides da Cunha: (mais uma) história calada das mulheres

Antes de mais nada, quero desejar um esplêndido 2016 para todas as leitoras e leitores desta coluna aqui no Justificando. Que continuemos a fazer deste espaço um lugar de debates e da riqueza da troca de ideias!

Nesta primeira coluna do ano, quero fazer um convite a juntos pensarmos sobre os muitos prismas sob os quais são feitos os registros históricos. Diferentemente do que se costuma imaginar, não é possível simplesmente relatar fatos de forma “neutra”: os acontecimentos que se escolhem registrar, e os outros postos à sombra já indicam pontos de vista e discursos adotados. Há posicionamentos e opiniões manifestadas a depender de a quem se dá voz, de quem fala por si e de quem tem seu relato contado por terceiros.

Não por acaso, quando se estuda História ao longo de nossa vida escolar, parece-nos absolutamente normal que em sua esmagadora maioria os protagonistas sejam homens. Reis, generais, ditadores, revolucionários, são eles que protagonizam narrativas, por vezes enfeitadas com uma coadjuvante não raro adjetivada como “a primeira mulher a (…)”, “a única rainha a (…)”, “a guerrilheira que lutou ao lado de (…)”. Com honrosas exceções, em geral, a História da Humanidade (termo que já traz em si um monte de implicações por excluir as Histórias de várias partes do globo terrestre) corresponde à História dos Homens. Alguém poderá argumentar que “os fatos históricos importantes” foram, de fato, protagonizados por homens, e daí o desequilíbrio de gênero. Mas, provoco com a seguinte pergunta: qual o critério para definir que fatos são digno de nota? E com isso, retomamos a proposta de reflexão inicial: quais as implicações de se registrarem alguns fatos (que correspondem, portanto, a alguns pontos de vista) em detrimento de outros?

O que me fez pensar nesta pergunta foi o sesquicentenário de nascimento do escritor Euclides da Cunha, cujo nascimento completa 150 anos em 20 de janeiro de 2016. Novas edições comemorativas de “Os Sertões”, reportagens sobre sua biografia, entre outros, voltam a ser assunto, bem como a chamada “Tragédia de Piedade” (em alusão ao bairro onde se deu o ocorrido): Euclides morreu vitimado por disparos de arma de fogo disferidos por Dilermando de Assis, que mantinha um romance com a mulher do escritor, Anna.

O episódio se consagrou e costuma até hoje ser narrado como “o trágico fim do célebre escritor, traído por sua mulher com um rapaz mais novo e assassinado por este amante”.

Há verdades neste ponto de vista sobre os fatos: realmente Dilermando de Assis tinha um relacionamento com Anna, casada com Euclides, e sim, Dilermando atirou em Euclides, causando-lhe a morte.

Todavia, registros sobre a difícil vida de Anna com Euclides já não são tão facilmente encontrados. Os relatos escritos a partir das narrativas de Anna mostram uma mulher cuja vida conjugal variava entre a completa solidão por períodos superiores a um ano durante as viagens de Euclides, e uma convivência turbulenta com um marido agressivo (comportamento este atribuído, segundo alguns biógrafos a uma inflamação da meninge desenvolvida por conta de uma parasitose adquirida em viagem à Amazônia, que teria comprometido suas faculdades mentais). Em 1905, Anna tinha 30 anos e três filhos, e, durante uma das longas ausências de Euclides envolveu-se com Dilermando, que tinha então 17 anos.

Quando Euclides retorna e tem conhecimento do adultério, o casamento vai se tornando cada vez mais insustentável. Anna chega a ter dois filhos de Dilermando ainda casada com Euclides. Uma das crianças, segundo certos relatos, foi morta por inanição por Euclides da Cunha poucos dias após o nascimento, quando ele teria trancafiado sua mulher em um quarto impedindo-a de amamentar o recém-nascido.

Em 1909, Anna decide-se, enfim, separar-se dele, mudando-se para a casa de Dilermando, no bairro de Piedade. Inconformado, Euclides da Cunha vai atrás da mulher, armado com um revólver e lá se dá a carnificina: Euclides tenta matar Dilermando, e, em socorro deste último, vem seu irmão mais novo, Dinorah, alvejado na coluna vertebral e tornado irreversivelmente paraplégico antes de completar 20 anos de idade. Dilermando também estava gravemente ferido, mas consegue reagir e se defender, disparando contra Euclides, que acaba falecendo. Dilermando é julgado, e, apesar de pesado linchamento moral feito pelos meios de comunicação da época, é absolvido pelo Tribunal do Júri, que reconhece a legítima defesa. Ele e Anna se casam em seguida. Anos depois, em 1916, Euclides da Cunha Filho intenta vingar a morte do pai tentando assassinar Dilermando. Nova tragédia: mesmo novamente alvejado, Dilermando consegue sacar seu próprio revólver e acaba por matar seu agressor, filho de sua esposa.

Não pretendo aqui relativizar a gravidade de todos os assassinatos (consumados ou tentados) dessa história tão triste. Nem muito menos reduzir a importância histórica e literária de Euclides da Cunha. Porém, atribuir todas essas mortes trágicas meramente a uma “mulher adúltera” parece-me injusto, quando se excluem da análise fatores tais como a dificuldade de uma mulher casada conseguir separar-se (em uma época na qual a legislação vigente não autorizava o divórcio) e assumir um romance com um rapaz mais novo. Ou, ainda, deixar de fora do jogo os muitos episódios de violência sofridos por Anna de acordo com relatos que procuram registrar sua voz.

Aqueles que acompanham esta coluna, certamente já leram por diversas vezes o quanto eu insisto na mudança de mentalidades e de valores culturais como forma de combater preconceitos, discriminações e violências. Registrar o máximo possível de  vozes das muitas narrativas históricas contribui para construirmos novos pontos de vista – e assim mudarmos nossa própria História dali em diante.

Maíra Zapater é graduada em Direito pela PUC-SP e Ciências Sociais pela FFLCH-USP. É especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo e doutoranda em Direitos Humanos pela FADUSP. Professora e pesquisadora, é autora do blog deunatv.

Este artigo utilizou como fonte matérias jornalísticas disponíveis on line e a pesquisa empreendida por Luíza Nagib Eluf no livro A Paixão no Banco dos Réus (Ed. Saraiva, 1ª edição – 2002), a partir do livro Anna de Assis, escrito por Judith Ribeiro de Assis, filha de Anna e Dilermando, em 1987.
Sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
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