Filha da Índia e a cultura do estupro: porque os homens ainda são ensinados a estuprar?
Terça-feira, 8 de março de 2016

Filha da Índia e a cultura do estupro: porque os homens ainda são ensinados a estuprar?

 

"educar a mente sem educar o coração não é educação"

– Aristóteles

 

Estreou no Brasil o comovente documentário dirigido e produzido pela diretora britânica Leslie Udwin, que destrincha o caso assombroso do estupro coletivo cometido contra uma jovem estudante de medicina de apenas 23 anos em dezembro de 2012. Esse ocorrido chocou toda a população indiana e deixou o mundo estarrecido frente a crueldade e frieza com que foi praticado. O fato inaugurou um novo capítulo no tocante a discussão sobre violência sexual em um dos países do mundo onde o machismo é mais naturalizado e menos questionado. Lá, se praticam esses atos com total consentimento das autoridades e de grande parte da população, que mantém costumes e tradições que colocam a mulher em situação de vida extremamente limitada, muito diferente do que o Brasil assistiu no folhetim global.

– Texto originalmente publicado na Imprensa Feminista, em 28.09.2015

Jyoti Singh voltava do cinema com um amigo por volta das 20h30min em Nova Délhi, quando foram abordados por um grupo de 6 homens (incluindo um menor de idade, todos amigos) e coagidos a entrar em um ônibus. A partir daí, o rapaz foi brutalmente espancado e a moça vítima de uma barbárie que a levaria a morte, já no hospital, duas semanas após ser socorrida.

A repercussão e comoção foram proporcionais ao caso e desencadearam uma série protestos em todos os lugares da Índia, exigindo, historicamente, revisão das leis que condenam violência sexual no país e o fim da desigualdade entre homens e mulheres. O documentário é o resultado da reprodução fictícia de alguns fatos, cenas dos protestos violentos que se formaram, somados a entrevistas e depoimentos de todos os envolvidos, desde os pais da vítima, até os advogados que trabalharam no caso, incluindo os profissionais que a atenderam e a família dos criminosos, que também historicamente foram todos condenados.

A diretora, sensível e assertiva, em um trabalho corajoso onde teve que enfrentar, entre outras coisas, o seu próprio envolvimento emocional com o caso, pois também foi vítima de estupro, esteve no Brasil para o lançamento. Em conversas articuladas entre uma exibição e outra, contou que teve medo de perder o controle em alguns momentos, especialmente quando esteve diante de um dos estupradores.

Ao longo do documentário, uma mistura de dor, comoção e revolta toma conta de quem assiste. Dor pelos pais da vítima e seu sofrimento gritante, que se deixa flagrar pelo depoimento anestesiado de quem perdeu algo dentro de si mesmo, algo que nunca mais será substituído. Comoção pela frieza dos assassinos e a ausência total de sentimento pela vítima ou arrependimento por terem cometido tamanha brutalidade. Revolta por tudo isso e por saber que esse não foi o primeiro e nem será ainda o último caso.

Mas o objetivo desta obra tão provocativa, tão questionadora, é inaugurar uma campanha no mínimo necessária. Sabemos que se o estupro é uma árvore e sua raiz é o machismo atuante que sustenta a ideia de que mulheres são inferiores, incapazes e destinadas a viver sob as regras criadas por e para homens, ou seja, a ideia de coisificação do ser feminino que o transforma em corpo público. 

E os galhos são os vários efeitos que esse pensamento alimenta, como agressão física, agressão psicológica, apagamento social, limitações criadas baseadas nessa ideia falsa (sexo frágil), feminicídio, pobreza feminina, objetificação, humilhações, misoginia, etc.

É importante discutir que todos aqueles homens que cometeram esse ato de extrema violência contra essa moça cresceram e se formaram numa sociedade que cultua essa ideia e se mantém a partir dela. Muitos homens, ao assistirem esse documentário, certamente vão sentir as mesmas sensações que nós mulheres sentimos. Vão imaginar que as atrocidades poderiam ser cometidas com suas mães, esposas, irmãs, etc. Vão sentir ódio, nojo, medo, vergonha e todos os sentimentos que os depoimentos provocam.

Mas quantos desses homens, ao saírem da frente da telona, vão abrir mão dos comentários típicos das rodas masculinas, desses que julgam as mulheres pelas roupas, pelo palavreado, pelo número de parceiros sexuais?

Quantos irão questionar as propagandas sexistas de cerveja e a sexualização precoce de meninas, as piadinhas preconceituosas sobre padrões de beleza que torturam tantas mulheres, as distribuições das tarefas domésticas e seus inúmeros privilégios trabalhistas?

Quantos irão repensar e reconstruir seus pensamentos impregnados pelas ideias de superioridade que o machismo plantou e regou em suas mentalidades?

É extremamente importante, para que o mundo comece a trilhar o caminho árduo para a erradicação de crimes de violência contra as mulheres, que as pessoas percebam que a atitude daqueles homens é o ápice de um processo que começa com coisas aparentemente inofensivas. Esses crimes não são praticados do nada, como um insight de maldade que toma conta e os leva a esses extremos. NÃO! Essa atitude começa com um simples ‘fiu fiu’ na rua, porque é justamente esse assédio que indica que o homem acha que o corpo da mulher é público e está disponível para ele, para a igreja, para o Estado e para a sociedade.

Precisamos ter a lucidez de ver o estupro como o fim de uma estrada pavimentada com todos esses conceitos que segregam e oprimem mulheres há séculos. O machismo não é inofensivo. O machismo mata. É preciso entender que feminismo é sobretudo político, pois o machismo é um instrumento de poder, uma estratégia de controle mantenedora de privilégios para que as riquezas se concentrem em mãos específicas, não importando quantas vidas inocentes deverão ser sacrificadas para que isso se mantenha.

Todo homem pode reproduzir a atitude monstruosa desses assassinos. Todo homem é um estuprador em potencial simplesmente porque acha que tem direitos sobre toda e qualquer mulher, porque enxerga a mulher como incapaz e inferior a ele. Mulher-coisa portadora de um corpo-público.

Os acusados são a maior prova disso. E toda a sociedade indiana também. Pois as leis, as famílias, a educação e tudo que compõe o sistema relacional daquelas pessoas está impregnado da ideia de inferioridade, animalização e submissão da mulher. A própria diretora afirma que, em um primeiro momento, estava convicta de que essa atitude partiu de pessoas desprovidas de informação; mas, depois, entrevistando pessoas graduadas e que ocupavam postos sociais importantes, observou o mesmo discurso. Nossos esquerdomachos estão aí para comprovar isso. É impressionante o número de homens com intelecto abastado, acesso a informação e formação acadêmica que se mostram verdadeiros vermes, com seus cérebros poluídos pelo ideário de supremacia masculina.

E é essa a mudança de mentalidade, que nem será fácil e muito menos rápida, que propõe a campanha "Por ser menina", da Ong Plan Internacional que cujo tema desse ano é “Quanto Custa a violência sexual contra meninas”, mostrando que a cultura do estupro atinge 70% de meninas e adolescentes só no Brasil, e traz, principalmente, perdas sociais irreversíveis. Essa campanha, entre outras ações, incentiva a denúncia dos casos, pois apenas 10% são notificados. 

Mas temos que ter em mente, enquanto cidadãos, que uma atitude fundamental nesses casos é NÃO CULPAR A VÍTIMA. Não é a roupa, o horário em que uma mulher sai a rua, os lugares ou as companhias com quem ela anda, a bebida, a maneira de sentar, falar, sorrir, etc. que faz com que um estupro ocorra. É a convicção de impunidade somada a arrogância da supremacia machista que situa o homem como centro de poder social que leva ao estupro, além da naturalização dessas duas atitudes por toda uma sociedade.

Pudesse passar um raio-x no pensamento dos homens e observaríamos o quanto a mentalidade do homem indiano é comum em várias partes do mundo.

A Ong Plan Internacional é especialista em ações de empoderamento de crianças e adolescentes pelo mundo todo. O documentário Filha da Índia foi proibido pelas autoridades indianas. Mesmo com a proibição, foi hackeado e teve cerca de 1.5 milhão de acessos no Youtube em apenas 1 hora depois da estreia. O caso da estudante de medicina, seguido dos protestos e manifestações, fez com que as denúncias de violência sexual crescessem 35% na Índia.

Você, homem ou mulher que lê esse texto, não seja cúmplice de violência sexual culpando a vítima. Acolha, proteja, apoie, incentive a denúncia e cobre posicionamento e condenação dos agressores, para que casos como esses sejam dizimados do mundo. Valorize nossas meninas, estimulando todo seu potencial e eliminando da educação os estereótipos de gênero que tanto limitam e oprimem, fazendo com que se perca talentos que seriam muito úteis para a sociedade se fossem cultivados desde cedo.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.
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