A Roda Viva da vida política
Sexta-feira, 1 de abril de 2016

A Roda Viva da vida política

 

Esta semana abro meu espaço nesta coluna para junto com o amigo e historiador Rodrigo de la Torre Oliveira refletirmos sobre os últimos acontecimentos que se desenrolam no nosso país.

Sempre me perguntei como as pessoas “das ruas” se comportaram entre agosto de 1961 e 1° de abril de 1964. Queria saber quão forte teria sido a repercussão do fato do João Goulart não ter podido assumir a Presidência em 1961. Também me atiçava saber como foi a reação da população que aguardava a votação do regime parlamentarista no Congresso naquele ano.

Para isso, os convidamos a fazer uma breve recapitulação dos fatos. Jânio Quadros renunciou a Presidência da República Brasileira em 25 de agosto de 1961, estrategicamente no mesmo período em que seu vice – João Goulart, havia sido enviado para a China de Mao Tsé-Tung, em uma viagem diplomática. Jango, assim como ficou conhecido de acordo com o costume tupiniquim de dar apelidos carinhosos para pessoas públicas, teve que voltar às pressas ao Brasil para assumir a liderança do Governo. Os oposicionistas, já aliados com os militares, obstruíram a volta de Jango ao país, acusando-o de Comunista! Jango acabou ficando em Montevideo, onde esperou uma “solução” que viabilizasse sua entrada no país e sua ascensão à Presidência da República.

Em 27 de agosto, Lionel Brizola, até então governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Goulart, iniciou uma campanha pela legalidade, clamando que “as ruas”, os militares e os congressistas fossem fiéis às regras constitucionais. Diante dessa movimentação, a solução encontrada pelos golpistas da época foi mudar a regra do jogo, criando a Emenda Parlamentarista de 2 de setembro que transformou o presidente em uma figura meramente decorativa e colocou o governo sob a batuta de um primeiro-ministro. Nestes termos, no dia 7 de setembro de 1961 Jango tomou posse como Presidente.

Percebam que todo esse enrosco aconteceu em menos de 15 dias. Em 1 ano e 4 meses, o Brasil nomeou três primeiros ministros: Tancredo Neves – o avô do Aécio Neves; Brochado da Rocha e, por fim, Hermes Lima.

Em janeiro de 1963, após um plebiscito popular que pôs fim ao regime parlamentarista, João Goulart pôde, finalmente, gozar de plenos poderes enquanto Presidente da República. Mas, seu mandato também duraria pouco já que acabou sendo afastado em 01 abril de 1964, com o Golpe Militar.

Jango defendia uma agenda progressista que contava com o plano trienal e com as, até hoje necessárias, reformas de base. Por isso, entre setembro de 1963 e abril de 1964, acabou sendo alvo de alegações esdrúxulas que o acusavam de tentar implantar um regime comunista no país. Uma intensa campanha contra a imagem do governo foi plantada e fomentada pela oposição que, desde então, já controlava o congresso e a mídia. Resultado disso foi ver o povo ocupando as ruas, indignado.

Jango não foi, porém, o único que encontrou obstáculos para governar. Anos antes, JK não conseguiu fazer um sucessor em razão dos diversos escândalos de corrupção que apareceram depois das negociatas que moveram a construção de uma cidade no meio do cerrado do país. Jânio Quadros, por sua vez, precisou renunciar por falta de apoio parlamentar, porque na época já era difícil controlar a agenda do Congresso. Mas, o caso mais emblemático ainda é o suicídio de Getúlio Vargas que, intimidado por uma campanha de difamação encabeçada por Carlos Lacerda envolvendo corrupção na Petrobrás, perdeu todo seu apoio e optou por sair da vida e entrar para a história.

Dias antes do golpe militar, em 13 de março de 1964, João Goulart assinou o decreto da Superintendência de Política Agrária. A partir desse marco, o pavor fomentado pela mídia e pela oposição favoreceu um verdadeiro ambiente de guerra fria que serviu de estopim para uma grande mobilização nacional. Assim, em 19 de março, vimos sair às ruas a marcha da família com Deus pela liberdade, aumentando a já imensa tensão instalada entre o governo, a parte mais exaltada da sociedade civil e a fiel oposição. Resultado disso foi que na virada de 31 de março para 1° de abril vimos estourar o Golpe Militar e, em menos de 20 dias, a II República Brasileira chegava ao seu fim.

Identificamos paralelos entre o período retratado acima e o atual, para além da quase coincidência das datas. Vivemos no mundo da informação, mas, também, do excesso de equivocadas interpretações. Assim como no passado, muitos dos que estavam presentes nas “marchas contra a corrupção” agiram por desinformação e por um acúmulo de histeria, resultante de três anos de ação criminosa dos grupos midiáticos e da oposição.

Assim como naquela época, políticos envolvidos com grupos de mídia fazem parte de esquemas de corrupção e, ao mesmo tempo, levantavam a bandeira da ética. Aliás, vivemos praticamente sob o domínio dos mesmos grupos de comunicação, sendo que a maioria deles está nas mãos de famílias que continuam centralizando o poder da informação em um claro reflexo da falta de regulamentação dos meios de comunicação.

Não estamos à beira de uma guerra civil, mas estamos vivendo uma histeria coletiva. Vivemos uma polarização onde todos estão surdos. Chamar aqueles que estão descontentes como o atual governo de coxinhas é ruim, mas também é ruim se exaltar ao afirmar que o seu país não é vermelho. É hipócrita sair às ruas para protestar contra a corrupção usando uma camisa da CBF. É falso cobrar ética de forma seletiva, a depender do partido de pertencimento de cada governante. Quando alcançamos esse nível de discussão, fugimos dos argumentos técnicos e ignoramos a própria inteligência.

Desconfiem de qualquer convocação que se faça de forma apaixonada, pois o apelo emocional é a chave da publicidade. Não é com paixão e sim com a razão que devemos estabelecer um diálogo. A paixão leva milhares de pessoas às ruas, mas não alcança nada, além disso. Hoje, só enxergamos o desejo da oposição em impedir o avanço de um governo democraticamente eleito, independentemente das consequências e dos meios utilizados para tanto.

Essa mesma histeria coletiva foi responsável por criar, propositalmente, uma confusão entre aquilo que a Lava Jato investiga e o conteúdo do pedido de impeachment, este último equivocadamente baseado nas pedaladas fiscais, costumeiramente utilizadas por governantes de todas as esferas de poder, incluindo o vice-presidente Michel Temer.

Será interessante observar a continuidade dos gritos pelo fim da corrupção, caso a Dilma – assim como Jango, tenha seu mandato arbitrariamente encurtado. Essas investigações estão nos içando para um patamar mais elevado de gestão e transparência pública e me pergunto como o PMDB ficará nesta história, vez que é um dos partidos com o maior número de parlamentares citados na operação Lava Jato. Também me pergunto se nossos parlamentares têm maior retidão de caráter do que a atual mandatária e se eles podem, de fato, julgar um processo de Impeachment com isenção e sobriedade.

Assim como em 64, imagino que muitos dos cidadãos “das ruas” não queiram um novo governo militar que ocupe o poder pelos próximos 21 anos, mas o problema reside no fato de não termos controle sobre estes eventos. Enquanto isso, esperamos que a razão (no sentido de raciocinar/entender) chegue, em breve, às ruas…

Gabriela Cunha Ferraz é advogada, militante e Mestre em Direitos Humanos.
Sexta-feira, 1 de abril de 2016
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend