“Eu classifico esse lugar como um campo nazista dos tempos modernos”
Segunda-feira, 11 de abril de 2016

“Eu classifico esse lugar como um campo nazista dos tempos modernos”

Olá, minha mãe. Que bom que se lembram de mim. Já estava crente que não tinha mais família pela ausência de cartas e notícias. A senhora não sabe o quanto fiquei feliz quando recebi sua carta e as das minhas irmãs. Isso me fez sentir lembrado, lembrar que faço parte de uma família e que não sou filho de chocadeira.

Espero que continuem me escrevendo e me mantenham informado sobre o que está sendo feito para me ajudar a voltar para o Brasil.

Gostei das cartas das minhas irmãs, mas sinto informar a J. que não posso receber nada (roupas, cds, comida, etc) além de livros e revistas. A propósito, obrigado pelo livro de italiano, vai ser muito útil em meus estudos.

Peço a vocês que continuem tentando, em Brasília, que aprovem um acordo urgente com o Japão para que os presos daqui possam voltar para o Brasil. Gostaria que usassem a internet para reunir parentes e amigos de presos brasileiros que estão aqui para pressionar as autoridades brasileiras em assinarem logo este acordo.

Seria interessante também procurar uma maneira de fazer uma matéria sobre o assunto com a revista Veja, que é lida por grande parte da população brasileira, assim como os jornais O Globo, Folha de São Paulo e o Estadão. Escrevam para esses veículos de comunicação revelando os maus tratos que os brasileiros recebem aqui neste presídio de Nagoya, no Japão.

Quero informá-las que tenho meus direitos violados. Sou réu primário e teria que estar em um presídio internacional com as adaptações para estrangeiros, com chuveiros, camas, alimentação, tradutores, etc. Isso consta no estatuto dos presídios. Entretanto, eu vim para este presídio que não tem nenhuma das adaptações, nem sequer um tradutor.

Durmo no chão como um mendigo. O café da manhã não é pão com café, mas sim uma tigela com um arroz de terceira qualidade, horrível. Já emagreci 30 kg desde que cheguei aqui. Às vezes acordo com formigas ou traças passeando sobre meu corpo. Minhas crises alérgicas são constantes por causa dos ácaros do tatame de palha que reveste o chão da cela.

O café da manhã não é pão com café, mas sim uma tigela com um arroz de terceira qualidade, horrível. Já emagreci 30 kg desde que cheguei aqui. Às vezes acordo com formigas ou traças passeando sobre meu corpo.

Já os banhos são um capítulo a parte, uma visão do inferno. São dois enormes ofurôs: banheiras enormes para umas trintas pessoas cada um. Todos entram e compartilham uma água fétida. Você vê pessoas com as mais variadas doenças dermatológicas, feridas abertas, hemorróidas a mostra, todas juntas na mesma água.

Quando termina o banho, a água tem um aspecto oleoso e sobre ela fica uma nata de pêlos e gordura. Depois se completa o volume de água gasta no banho anterior e está pronto para o banho da turma seguinte. Você acredita que nem se troca a água de uma turma para outra? Além do mais, são somente dois banhos semanais no inverno e três no verão. Meu banho se resume a duas bacias e uma toalha de rosto.

Desde que cheguei aqui, nunca entrei nessas banheiras imundas porque não me considero um cachorro para fazer parte dessa imundice. Prefiro meus banhos de bacia com água fria, mesmo no inverno, do que compartilhar água dos outros.

Outra coisa: meu aparelho de barba tem a lâmina trocada a cada três meses. Vocês acreditam nisso?

O tratamento dos carcereiros com os presos é péssimo e ultrajante. Eles usam megafones portáteis a tira colo e vivem gritando em nossos ouvidos. Temos que marchar como no exército e, se errarmos o passo, ouvimos dos carcereiros, através dos megafones, uma série de impropérios. Como não existe nenhum órgão que fiscalize suas ações, é normal e até incentivado os abusos de autoridade por parte dos carcereiros para com os presos.

Outra coisa que fere meus direitos é que este presídio é destinado a presos reincidentes e eu, sendo réu primário, não deveria estar aqui. Um simples olhar para o lado é motivo para você ir para o castigo em uma solitária.

Sem dúvidas uma das piores coisas que existe aqui é o preconceito tanto por parte dos presos como por parte dos carcereiros. Eu classifico esse lugar como um campo nazista dos tempos modernos, uma Auschwitz do século XXI.

Não tenho dúvidas que a longo prazo eu morra nesse lugar. Minha carga de estresse é muito grande. E diga para a Fabiana que não tenho a paciência de um Nelson Mandela para esperar muito tempo. É muito mais fácil eu ir fazer companhia ao padrinho e ao tio dela do que esperar o tempo passar. Tenho a mesma impaciência que o pai tinha, ou seja, não sei esperar, não consigo manter a sanidade mental por muito tempo.  

Aqui vivo sozinho sob os olhares daqueles que não entendem o porquê de eu não me enturmar. É um ambiente pesado, negativo e que só nos inspira coisas ruins, por isso prefiro viver na solidão.

Só recebo cartas da N. e ela também me manda todas as semanas revistas e livros, mas espero que vocês passem a me escrever constantemente e também me mandem algumas fotografias para ver como vocês estão.

Mãe, me sinto muito inseguro neste lugar. Esses dias aconteceu um terremoto às 6h da manhã e tremeu todo o prédio. Pensei na minha situação sem poder correr para lugar nenhum caso o prédio começasse a cair. Além do mais, o Japão também vive em conflito com a Coréia do Norte, que tem um presidente ditador e louco. Imagina se esse país entra em guerra… O que será de mim neste lugar?

J., você me perguntou como é meu dia, então vou te dar uma ideia geral:

–  Levanto às 6h40 da manhã todos os dias. Tomamos nosso café da manhã (tigela de arroz) na cela mesmo. Por volta das 7h30, vamos para a fábrica onde trabalhamos de graça (o salário é simbólico). Minha fábrica é de costura e eu trabalho com um ferro de passar roupa.

– O almoço é ao meio dia, na fábrica mesmo. Mais uma vez uma tigela de arroz acompanhada de um maldito peixe, que eu odeio.

–  O jantar é na cela às 17h. Mais uma vez, arroz com alguma sopa de alga, de bambu ou coisa pior. Como a última refeição é as 17h, muito cedo pro meu gosto, vou dormir todos os dias com muita fome. Tem dia que engano a fome comendo papel higiênico com água da torneira para conseguir dormir.

–  Tomo remédio para dormir todas as noites desde que fiquei sabendo da morte do pai. Não sei o que é, mas chega a noite, e, mesmo com sono, não consigo dormir sem tomar remédio. Acho que é trauma ou nervoso, pois mesmo com remédio eu acordo várias vezes à noite e estou desperto ainda no escuro. As luzes se apagam às 21h todos os dias.

–  Eu moro em uma cela individual com TV por causa do meu bom comportamento. Tenho uma prateleira cheia de livros e revistas. Quando estou na cela, estou lendo revista ou estudando italiano. Até porque a tv japonesa é uma grande merda (risos).

Queria que vocês continuassem lutando por mim e levando a verdade a todos do Brasil para que saibam que os brasileiros presos aqui são muito maltratados, discriminados e que passou da hora dos responsáveis do governo tomarem uma atitude para resolver este quadro.

Gostaria de saber da mãe se ela conseguiu alguma ajuda política como a do Maluf, por exemplo. Gostaria que escrevessem para alguns endereços de direitos humanos pedindo ajuda.

Bom, vou ficando por aqui com o coração cheio de saudades. Peço que me escrevam. Fico por aqui mandando muitos abraços apertados e beijos para vocês. Peço que nunca se esqueçam de mim, pois eu nunca me esqueço de nenhum de vocês.

Um beijão a todos. Mãezinha, não se esqueça que seu filho sofre como um cão. Até carrapatos já peguei aqui, então lute para que as coisas aconteçam para mim. Beijos.

Ass: Fabrício

Sábado, 24 de julho de 2010.

Fabrício é colunista por um dia na coluna Cartas do Cárcere. A coluna mostra relatos semanais de pessoas que vivem (e morrem) no sistema prisional brasileiro e estrangeiro. 
*Todos os nomes desta coluna são fictícios para preservar a identidade dos apenados

Quem se interessar em enviar cartas para a coluna encaminhar para a Redação do Justificando

Av Paulista, 1776, 13º andar, Bloco I, Bela Vista, São Paulo.  CEP: 01310-200 


Confira a carta na integra

 

 

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