Nunca a palavra “Republiqueta” fez tanto sentido
Segunda-feira, 18 de abril de 2016

Nunca a palavra “Republiqueta” fez tanto sentido

Assistir pela tarde e noite parlamentares invocando a seus netos, seus bairros ou até mesmo a Jerusalém, para aprovar um processo de impeachment que trata de um assunto completamente diferente, nos deveria fazer refletir sobre qual país nós queremos.

Refletir sobre, também, qual o nível de democracia que exigimos. Ao fim da sessão, para quem tinha dúvidas se a palavra “republiqueta” se encaixava no Brasil, nação de dimensões continentais, nesta segunda está seguro dizer que sim, a palavra se encaixa. Numa republiqueta, Eduardo Cunha passa um processo de impeachment em face de alguém que não é acusada de se locupletar de um centavo, mas sim de assinar uma manobra contábil que uma série de chefes de executivo realizam. 

Aliás, isso é o máximo que se pode avançar no sentido de debate jurídico sobre o domingo. Prepare-se para uma análise político-emocional, pois de jurídico ontem não teve nada e a tristeza me domina enquanto escrevo. Se deputados passaram um processo desse em nome dos corretores de seguro, é porque perdemos a racionalidade no debate há algum tempo. Fico pensando o tanto de material que foi produzido, o tanto de juristas que se posicionaram sobre pedaladas fiscais, para, no fim das contas, o julgamento ser "pela minha neta", "pelo aniversário da minha cidade" e coisas desse sentido. Até Miguel Reale e Janaína Paschoal devem estar com indigestão com o baixo nível republicano.

Em uma republiqueta, é normal, durante a sessão do impeachment, um parlamentar subir à tribuna para homenagear e saudar um torturador. Brilhante Ustra é uma figura incontestável, um torturador confesso. Sob seu comando, a Presidente da República teve todos seus dentes quebrados, além de ter sido submetida a abusos sexuais inimagináveis. Mas isso não impede Jair Bolsonaro de saudá-lo enquanto algoz da então jovem Dilma Rousseff. Desse boçal parlamentar do Rio de Janeiro tudo se espera, mas espanta como é ovacionado por seus pares enquanto fala esses absurdos. 

Espanta, aliás, que o espanto é dirigido a um parlamentar que, como forma de resposta a ofensas homofóbicas e à saudação de um torturador, cuspiu em Bolsonaro. Não cabe a mim avaliar o ato de Jean Wyllis, uma vez que gozo do privilégio de nunca ter sido ofendido por minha sexualidade. Mas é curioso como no imaginário da população e da mídia de massa a cuspida a um parlamentar se sobreponha ao elogio público a um torturador da Chefe do Executivo. 

Enfim, esse episódio foi um pequeno intervalo entre vários discursos contra a corrupção. Essa narrativa está em alta hoje em dia, e, em nome dela, tudo posso nesse discurso que me fortalece. Não são raras as críticas de que a Lava Jato, o julgamento pelo Congresso e todo o aparato montado para combater a corrupção seja para mirar em um específico partido. Em algum momento, combate ao PT virou combate à corrupção, e vice-versa – a prova disso é que Cunha pôde presidir a sessão livremente, com poucos pingados contestando sua legitimidade. 

Nada mais cínico do que o combate à corrupção. Como sempre, republiquetas são viradas de cabeça para baixo em nome dessa cruzada contra algo que faz parte do povo. Para perseguir o corrupto, esse ser que pode ser cada um de nós, aplaudimos leis que endurecem ainda mais o sistema repressivo brasileiro, um dos mais encarceradores do mundo. Em nome desse combate, muitos deputados e deputadas se sentem de peito inflado para dizer que estão pela moralidade, enquanto no seu mundinho particular são muito mais corruptos do que a corrupção que dizem combater. Aliás, golpe não deixa de ser uma corrupção e quem o apoia, bom, não deixa de ser corrupto.

No parlamento, quem aceitou o golpe ontem, é bom que se diga, cumpre um estereótipo bem específico: na média, trata-se de um homem branco, heterossexual, rico e acima dos quarenta anos. Justamente quem na República Velha tinha o exclusivo direito ao voto. Naquela época, as eleições eram censitárias e excluíam as mulheres, os pobres e os negros. Em uma republiqueta, resgatamos a cultura de cem anos atrás e privilegiamos o voto censitário ao voto universal. Em especial na Republiqueta, a narrativa da grande mídia é feita por esse viés estereotipado, em uma espécie pós moderna do complexo de vira-lata.

Cínicos passaram, torturadores foram aplaudidos e a segunda-feira chegou aparentemente como outra qualquer. As pessoas foram à padaria, tomaram uma média e se dirigiram ao trabalho. Os bêbados do centro da cidade continuam bêbados, e, na paulista, hippies continuam a vender suas miçangas. Acima da rotina de cada um de nós, no entanto, algo se quebrou. Estamos vivendo em um país menos democrático que ontem. Estamos vivendo em uma Republiqueta.

Brenno Tardelli é diretor de redação no Justificando.
Segunda-feira, 18 de abril de 2016
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