“Assim como na Ditadura, imprensa de hoje tem parte no que aconteceu”, diz especialista
Sexta-feira, 13 de maio de 2016

“Assim como na Ditadura, imprensa de hoje tem parte no que aconteceu”, diz especialista

Na tarde de ontem (12), o jornalista residente em Londres Maurício Moraes e o professor da Fundação Getúlio Vargas Yuri Carajelescov analisaram a cobertura midiática sobre o processo de impeachment, em conversa mediada pelo diretor de redação Brenno Tardelli. Para Maurício, no exterior o clima "é de assombro" após a abertura do processo no Senado.

Moraes conta que, no início da crise política, a narrativa dos jornais ainda "não era muito fiel aos fatos, porque reproduzia o que via na mídia brasileira". No entanto, logo após a votação do processo na Câmara dos Deputados, a tônica mudou.

"Aí o Brasil caiu no descrédito. Hoje, após a votação no Senado, a imagem é de uma República das Bananas, dada a série de episódios. A imagem é péssima e essa é inclusive uma das novas missões do presidente interino", explicou ao Justificando.

Para Carajelescov, talvez a própria mídia nacional dê cabo dessa imagem ruim. Segundo o jurista Professor da FGV, agora as revistas e jornais construirão uma imagem tão heróica de Temer que, em questão de semanas, ecoará a pergunta: "Como é que a gente não tinha descoberto esse homem antes para resolver todos os nossos males?"

Influência da mídia na imagem política do país não é de hoje

Sob as vestes da "imparcialidade", as mídias tradicionais continuam produzindo notícias que se passam como "neutras", quando, na verdade, são filtradas pela ideologia das empresas. Segundo Maurício, esse processo talvez faça parte de nossa tradição hipócrita em agir de maneira velada, para "não pegar mal". Como no Verão, em que se faz "topless no Carnaval, mas o mesmo topless é mal visto nas praias".

Dessa maneira, o jornalista acredita que "imprensa tem sido parte daquilo que está acontecendo, como aconteceu na ditadura". A diferença, explica, é que, atualmente, o golpe não é mais de generais, mas um "golpe institucional" com participação midiática.

É, de fato, notável a semelhança entre a cobertura midiática dos anos 60, quando se iniciou a Ditadura Militar brasileira, com a que se faz hoje. Carajelescov conta que, na época, os jornais "brindavam a volta da democracia", propositadadamente ou não. Por isso, acredita que há hoje um "golpe cínico, mais sofisticado", fruto "da péssima transição que fizemos da ditadura para a democracia".

Regulamentar é fomentar a democracia

Atualmente, tramita no STF a ADO 10 do PSOL, que questiona a regulamentação da mídia. O tema é a caixa de marimbondos da qual ninguém deseja mexer, muito embora se faça necessário em tempos em que o Brasil vive sob o oligopólio da informação.

Na Inglaterra e em outros países desenvolvidos, Maurício conta que há um processo de regulamentação econômica da mídia que é, basicamente, uma empresa não poder obter o monopólio de uma atividade comercial. "A Argentina", lembra, "mudou esse monopólio".

No Brasil, no entanto, o tema caminha a passos lentos. Ainda que os dois especialistas considerem a pauta de extrema importância, acreditam também que dificilmente cairá aos gostos da opinião pública, vez que "fere o interesse dessas próprias pessoas que comandam as comunicações no país".

Assista ao programa completo:

Sexta-feira, 13 de maio de 2016
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