Fala de promotor reflete naturalização do machismo, afirma pesquisadora
Sexta-feira, 24 de junho de 2016

Fala de promotor reflete naturalização do machismo, afirma pesquisadora

 

Foto: Guilherme Rocha/Justificando

 

Em áudio que circula nas redes sociais, o Promotor de Justiça Alexandre Couto Joppert, do Ministério Público do Rio de Janeiro, afirma, durante uma das perguntas em prova oral para ingresso na instituição, que em determinado caso o estuprador ficou "com a melhor parte (no crime), dependendo da vítima".

Na gravação, o membro do MP descreve a atuação de determinado grupo em um caso hipotético de estupro. Diz: "Um segura, outro aponta arma, outro guarnece a porta da casa, outro mantém a conjunção – ficou com a melhor parte, dependendo da vítima – mantém a conjunção carnal, e o outro fica com o carro ligado para assegurar a fuga."

Procurado pela BBC Brasil, o promotor pediu desculpas públicas pela fala. "Quando eu falei aí num tom jocoso, para descontrair o candidato, 'dependendo da vítima', eu quis dizer por exemplo se fosse uma vítima lutadora de MMA nem a melhor parte para seria, pois ele estaria em maus lençóis", afirmou ele a agência de notícias.

Mesmo assim, o Ministério Público do Rio informou que o procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, instaurou procedimento para investigar a conduta do promotor.

Especialista afirma que fala faz parte da naturalização do discurso machista

A frase gerou incômodo, o que para a professora de Direito Penal da Fundação Getúlio Vargas – FGV e colunista do Justificando, Maíra Zapater, é positivo, muito embora seja perigoso analisar a frase descontextualizada. Para Maíra, a fala reflete a naturalização da chamada "cultura do estupro", em que o próprio indivíduo, por muitas vezes, reproduz determinado discurso já encrustado no imaginário popular.

"Nenhum de nós está livre disso, porque nós todos somos socializados em ideologias extremamente discriminatórias – proferimos e reproduzimos padrões, frases, ideias, que a gente sequer sabe como aprendeu. E não quer dizer que, conscientemente, quando a gente pára para refletir sobre o que falou,  a gente concorde com aquilo. Pela forma como o promotor veio se retratar me parece possivelmente que é o caso", afirmou.

Dessa maneira, Maíra acredita que o promotor não deve servir como "bode expiatório" por proferir tal fala, uma vez que seu discurso não se equipara ao do deputado federal Jair Bolsonaro (PSD-RJ), Alexandre Frota e outras figuras midiáticas.

"Não dá para a gente atribuir o mesmo peso de uma fala dessa, numa prova de concurso, em determinado contexto, com uma fala do Bolsonaro, por exemplo, em que todo mundo viu o contexto em que ele dizia que não estupraria a Maria do Rosário porque ela não merece. Ou do Alexandre Frota em um programa de televisão, em que ele fala, em tom de piada, que teria estuprado uma mãe de santo", finaliza.

Sexta-feira, 24 de junho de 2016
Fala de promotor reflete naturalização do machismo, afirma pesquisadora
Sexta-feira, 24 de junho de 2016

Fala de promotor reflete naturalização do machismo, afirma pesquisadora

 

Foto: Guilherme Rocha/Justificando

 

Em áudio que circula nas redes sociais, o Promotor de Justiça Alexandre Couto Joppert, do Ministério Público do Rio de Janeiro, afirma, durante uma das perguntas em prova oral para ingresso na instituição, que em determinado caso o estuprador ficou "com a melhor parte (no crime), dependendo da vítima".

Na gravação, o membro do MP descreve a atuação de determinado grupo em um caso hipotético de estupro. Diz: "Um segura, outro aponta arma, outro guarnece a porta da casa, outro mantém a conjunção – ficou com a melhor parte, dependendo da vítima – mantém a conjunção carnal, e o outro fica com o carro ligado para assegurar a fuga."

Procurado pela BBC Brasil, o promotor pediu desculpas públicas pela fala. "Quando eu falei aí num tom jocoso, para descontrair o candidato, 'dependendo da vítima', eu quis dizer por exemplo se fosse uma vítima lutadora de MMA nem a melhor parte para seria, pois ele estaria em maus lençóis", afirmou ele a agência de notícias.

Mesmo assim, o Ministério Público do Rio informou que o procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, instaurou procedimento para investigar a conduta do promotor.

Especialista afirma que fala faz parte da naturalização do discurso machista

A frase gerou incômodo, o que para a professora de Direito Penal da Fundação Getúlio Vargas – FGV e colunista do Justificando, Maíra Zapater, é positivo, muito embora seja perigoso analisar a frase descontextualizada. Para Maíra, a fala reflete a naturalização da chamada "cultura do estupro", em que o próprio indivíduo, por muitas vezes, reproduz determinado discurso já encrustado no imaginário popular.

"Nenhum de nós está livre disso, porque nós todos somos socializados em ideologias extremamente discriminatórias – proferimos e reproduzimos padrões, frases, ideias, que a gente sequer sabe como aprendeu. E não quer dizer que, conscientemente, quando a gente pára para refletir sobre o que falou,  a gente concorde com aquilo. Pela forma como o promotor veio se retratar me parece possivelmente que é o caso", afirmou.

Dessa maneira, Maíra acredita que o promotor não deve servir como "bode expiatório" por proferir tal fala, uma vez que seu discurso não se equipara ao do deputado federal Jair Bolsonaro (PSD-RJ), Alexandre Frota e outras figuras midiáticas.

"Não dá para a gente atribuir o mesmo peso de uma fala dessa, numa prova de concurso, em determinado contexto, com uma fala do Bolsonaro, por exemplo, em que todo mundo viu o contexto em que ele dizia que não estupraria a Maria do Rosário porque ela não merece. Ou do Alexandre Frota em um programa de televisão, em que ele fala, em tom de piada, que teria estuprado uma mãe de santo", finaliza.

Sexta-feira, 24 de junho de 2016
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