Cada bala que tira uma vida é um disparo coletivo
Quarta-feira, 20 de julho de 2016

Cada bala que tira uma vida é um disparo coletivo

Exceto para aqueles que fecham os olhos para as desgraças do mundo ou para os que acreditam não terem responsabilidade alguma pelas vidas perdidas, infelizmente não é novidade para ninguém que a polícia, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, mata jovens, negros e de classe baixa, seja por um tiro de uma bala perdida da polícia militar, pelo não atendimento do hospital público, pela bala disparada num assalto ou por uma overdose de uma droga qualquer.

Nos EUA, impulsionados pelo recente assassinato de dois jovens na última semana, cantores negros renomados manifestaram suas indignações com as frequentes mortes de jovens negros norte-americanos. Beyoncé, por exemplo, em seu último álbum, fez uma faixa em homenagem às famílias e aos mortos pela polícia do país. Mais recentemente manifestou, novamente, sua revolta ao publicar uma carta com os dizeres “parem de nos matar”.

Aqui, no Brasil, os homicídios policiais de jovens, especialmente os oriundos da comunidade negra periférica, são registrados como “lesão corporal decorrente de oposição à intervenção policial”, conhecido antigamente como “auto de resistência”. Choramos, no último mês de junho, a morte de duas crianças, uma com 10 e a outra com 11 anos de idade, envolvidas em perseguição e vítimas do disparo da polícia.

Uma recente pesquisa da Defensoria Pública divulgada pelo Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos apontou que 90% das ocorrências registradas como “lesão corporal decorrente de oposição à intervenção policial” são arquivadas pelo Ministério Público, ou seja, o Judiciário não está responsabilizando ou inocentando a polícia, pois sequer são feitas as investigações mínimas e necessárias, não sendo de fato esclarecido que o jovem morto estava envolvido numa ação ilícita, ainda que essa afirmativa jamais justificasse sua morte.

Soma-se a isso o relatório “Violência Letal contra as Crianças e Adolescentes do Brasil”, elaborado em 2013 pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), que apontou que 29 jovens são mortos por dia no país.

O poeta periférico contemporâneo, Paulo D’Auria, tem uma poesia curta que diz: "Toda bala que tira uma vida é uma bala perdida". Corroboro e afirmo que cada bala que tira uma vida, além de ser uma bala perdida, é uma bala disparada por todos nós. É fundamental transmitir um olhar mais sensível para nossas crianças e jovens, para que estas possam ser conscientes de que o destino de cada um também é responsabilidade de todos nós.

Cada pessoa que falece com menos de 21 anos de idade é de nossa responsabilidade – principalmente se for resultado de uma falha na segurança pública. Precisamos criar meios e espaços para essa temática, para, assim como disse Beyoncé, nós brasileiros também suplicarmos: PAREM DE NOS MATAR.

Mayara Silva de Souza é uma mulher negra de 23 anos, bacharel em Direito pela Universidade São Judas Tadeu, ativista social, poeta, membro do Coletivo Poetas do Tietê onde desenvolvem os projetos Poesia na Faixa (distribuição de poesias e livros pelas faixas de pedestres da cidade de São Paulo) e o Asas Abertas (Sarau com poesias marginais e clássicas dentro das unidades da Fundação CASA e presídios do Estado de São Paulo), Conselheira do tema Direito e Gestora do Projeto Plano de Menina, convid​ad​a pela jornalista Viviane Duarte.
Quarta-feira, 20 de julho de 2016
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