A saga de Pedro, o pedreiro
Segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A saga de Pedro, o pedreiro

Olá, meu nome é Pedro. Estou com uma sensação estranha. Ouço pessoas gritando ao meu redor, mas não consigo entender o que elas dizem. Que som será este? Parece um gemido bem distante, como se uma criança estivesse chorando. Não, eu acho que é uma sirene. Não sei, está tudo tão confuso. Por que as pessoas parecem estar correndo em minha direção e eu não consigo vê-las? O que está acontecendo? Por favor, alguém está me ouvindo? Ei, falem comigo, pelo amor de Deus, eu estou aqui.

Tem alguém aí? Será que conseguem ouvir o que estou dizendo? Eu não consigo me mexer. Não estou sentindo o meu corpo. Que lugar é esse? Eu só estou vendo algumas sombras, imagens borradas que me lembram figuras humanas. Mas não conheço essas pessoas. Não sei por que estão tão agitadas. Por que ninguém fala comigo? Você consegue me ouvir?

Era uma sensação estranha. Um nó na garganta, como se eu estivesse esperando a morte

Eu não sei como vim parar aqui. Aliás, nem sei que lugar é este. Eu só me lembro de ter beijado minha mulher hoje de manhã. Todo dia é sempre igual, ela me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã. Ela sempre diz para eu me cuidar. Ah, minha mulher…ela sempre me espera para o jantar e me beija com a boca de café. Tem dia que eu penso em poder parar; em outros penso dizer não. Mas depois me lembro na vida para levar e me calo com a boca de feijão. Porque, no final da tarde ela vai me esperar, com aquele sorriso no portão. Diz que está muito louca para me beijar e me beija com a boca de paixão [1]. Será que ela ainda está me esperando? Alguém precisa avisá-la que vou chegar mais tarde.

E meu filho, será que alguém foi buscar o moleque na escola? Ah, meu guri, como eu te amo, menino. Desde o dia em que você nasceu minha vida mudou e eu nunca tive tempo de poder brincar com você. Porque quando nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar. Já foi nascendo com cara de fome, e eu não tinha nem nome para lhe dar. Ah, meu guri, olha aí. Como fui levando não sei lhe explicar, fui levando a vida e ela a me levar [2]. Será que um dia você vai perdoar o seu pai ? Se eu sair daqui, vou correndo te abraçar. Vamos jogar bola, soltar pipa, rolar no chão. Quero ficar mais tempo ao seu lado. Eu sei que pego no seu pé para ir à escola, mas é para o seu bem, para você ser doutor. Vida de peão é muito difícil, meu filho.

Agora estou começando a me lembrar. Depois de beijar minha mulher, eu fui esperar o trem. Era uma sensação estranha. Um nó na garganta, como se eu estivesse esperando a morte. Ou esperando o dia de voltar pro norte. Eu não sabia, mas, talvez, no fundo, eu esperava alguma coisa mais linda do que este mundo. E me bateu um desespero por esperar demais. Eu sempre seria um pedreiro pobre, e nada mais. Esperando, esperando, esperando… esperando a sorte, esperando a morte, sem nenhum vintém, esperando o dia de esperar ninguém, esperando, enfim, nada mais além [3].

“Quem espera sempre alcança”, dizia meu pai. Então por que eu, que esperava tanto, nunca alcançava nada ? Eu chegava a pedir: Pai, afaste de mim esse cálice. Mas Ele nunca respondia, com se dissesse: cale-se, Pedro. Você é um pedreiro e sua missão é carregar pedras. Você não foi feito para pensar. E foi, assim, calando meus pensamentos, que cheguei na obra às 07 horas da manhã e fui logo pegando no batente.

Eu já tinha trabalhado para aquela construtora há muitos anos, mas, depois, eles disseram que não teriam mais empregados. Eles repassariam todo o serviço para os empreiteiros e, se nós quiséssemos continuar trabalhando, teríamos que ser terceirizados. O problema é que em cada obra eu trabalhava para um empreiteiro diferente. Passei a trabalhar mais e a receber menos. As horas extras não eram pagas. Nem fundo de garantia eles recolhiam e, quando eu ia reclamar com o encarregado, ele dizia que isso não era problema da construtora porque ela não tinha empregados. Até que eu desisti de reclamar porque quem se queixava muito era mandado embora. A porta da rua é serventia da casa – eles diziam. Eu pensava sempre na minha mulher, no meu guri e me calava. Era o cálice nosso de cada dia.

Você é um pedreiro e sua missão é carregar pedras. Você não foi feito para pensar.

Ah, sim. Você deve estar querendo saber como eu fui parar aqui. Foi logo depois do almoço que tudo aconteceu. O chefe mandou eu subir na última laje para fazer um serviço. Eu perguntei sobre o cinto, mas ele disse para eu não ficar enrolando e parar com bobagem porque não tinha perigo nenhum. Eu obedeci. Eu sempre obedecia. Ninguém gosta de pedreiro desobediente. Quem estiver insatisfeito pede para sair – eles diziam. E eu tinha uma família para sustentar. Subi até o topo do edifício e comecei a fazer o que me mandaram. Lá do alto, eu parei um instante para contemplar a cidade que se prostrava aos meus pés. Naquele momento mágico, eu me senti um príncipe, flutuando no ar como se fosse um pássaro. Foi então que eu tropecei na máquina como se estivesse bêbado e desabei como um pacote flácido. Pela última vez, fechei os olhos e beijei minha mulher como se fosse lógico. E me espatifei no chão, atrapalhando o tráfego [4].

Você ainda está aí? Obrigado por me ouvir. Deus lhe pague. Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir. A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir. Por me deixar respirar, por me deixar existir. E pela paz derradeira que, enfim, vai nos redimir [5].

Por fim, tenho um último pedido a lhe fazer: quando eu morrer, que me enterrem na beira do chapadão; contente com minha terra, cansado de tanta guerra, mas crescido de coração [6]. Deus lhe pague.

Nota: O setor da Construção Civil lidera as estatísticas de acidentes de trabalho no Brasil, sendo que, em cada dez acidentados, oito são terceirizados [7]. O PL 4330, ao liberar a terceirização de forma irresponsável, inclusive na atividade-fim, fará aumentar o número de acidentes de trabalho com os trabalhadores terceirizados. Qual o custo de um trabalhador mutilado ou qual o preço da vida de um ser humano? São essas as perguntas que a sociedade precisa se fazer ao debater as propostas que pretendem liberar a terceirização irrestrita.

Renato da Fonseca Janon é Juiz Titular da 2ª Vara do Trabalho de São Carlos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] Cotidiano, Chico Buarque.
[2] Meu Guri, Chico Buarque.
[3] Pedro Pedreiro, Chico Buarque
[4] Construção, Chico Buarque
[5] Deus Lhe Pague, Chico Buarque.
[6] Assentamento
[7] Fonte: https://economia.terra.com.br/projeto-da-terceirizacao-pl-4330-acidentes-e-mortes-sao-temores,16ec5bddb5e58caffce55f433930b78avr45RCRD.html
Segunda-feira, 8 de agosto de 2016
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