Condenado a mais um dia de vida, segue o trabalhador
Quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Condenado a mais um dia de vida, segue o trabalhador

O despertador escandalizou às 04h40min da manhã quando um pedaço de braço hostilizado pela rotina, logo em seguida, o estrangulou. Condenado a mais um dia de vida, seus pés, já automatizados, seguem pelo roteiro insistentemente igual. Veste o uniforme, escova os dentes, encara o reflexo e mira o ponto de ônibus.

De Parelheiros à Barra Funda são três baldeações, alguns momentos de vida, uma fatia do salário e outras doses de mais do mesmo.

Curiosamente, ele percorre seu trajeto de ida como passageiro, mas, quando chega na garagem dos ônibus, será ele o motorista.

Sua marmita já está guardada debaixo do banco quando seus braços e pernas coordenam a rota de outros tantos iguais que só podem ser vistos pelo retrovisor. O comboio da mais-valia segue com exclusividade, agora com faixas e corredores privativos, pois o mercado é imediatista, time is money, e a salutar intransigência da solidão precisa ser alimentada com impressões de privilégios.

Durante o longo período de labor, já incluído às duas horas extras, há por várias vezes uma desconexão entre o que seu corpo empreende na realidade e sua mente cria do outro lado do muro. Algumas lembranças são ventiladas e quaisquer sonhos imaginados, muito embora ele já não saiba mais distinguir o que se vive, o que se passou e se há uma próxima etapa.

O ônibus já está na sua décima primeira, ele já passou onze vezes por aqueles lugares, ainda faltam mais quatro horas de trabalho, as coisas, lá fora, parecem relutar o mesmo brilho de interior fosco que o dia-a-dia o obriga a encarar.

Um estudante de história se levanta do primeiro assento e resolve falar um pouco sobre sua situação de desemprego e proferir algumas palavras mágicas de ciências humanas. Os passageiros não entenderam bem o que era independência, muito menos república, mas foi bonito compreender "às margens do Riacho Ipiranga", mesmo o riacho não existindo mais.

O filósofo, o qual assistia o discurso do último banco, pensou que, pela expressão geral, o tirano pode coibir nossa liberdade total, mas o déspota nos tira a capacidade de pensar a liberdade.

Um acidente à frente, mais uma eventualidade que já estava prevista na agenda dos passageiros.

Não se sabe mais olhar às horas, apenas identificar entre os ponteiros o seu direito à estupidez

Ele, possivelmente, jantaria sozinho naquela noite, já que seus filhos saíam no calar do dia para fazer a segurança de estabelecimentos privados. Segurança essa, por previsível ou ironia, contra tantos outros da mesma classe, do mesmo bairro, às vezes da mesma rotina; a única coisa distinção era a ficção do locus social, o bandido e o segurança. Quem é o que e o que é quem?

Finalmente, após repetições, quentinha, devaneios e algumas elucubrações sobre o nada, ele mudou de papel. Agora, voltava a ser passageiro, no sentido oposto àquele que viveu durante algumas horas de seu dia, voltando para aquilo que chama de casa, mais conhecido por certas classes que editam as leis e o direito, como barraco, que, no plural, vira favela.

A exaustão de um corpo aniquilado pela repetição, uma mente cansada, barulhos inaudíveis e vazia de anseios. O desejo de alguma mudança, mesmo que para pior, ainda lhe resta em migalhas e rasteja pelas abóbodas da ignorância.

Não se sabe mais olhar às horas, apenas identificar entre os ponteiros o seu direito à estupidez, ao escárnio à sua condição humana e todo o moralismo do não pense, apenas trabalhe!

O resto da marmita foi devorado quando ainda lhe restava forças para sucumbir à noite que o foiçava. Sua cabeça estava escorada sobre o ombro esquerdo que era banhado pela saliva do sono. A imagem da televisão, em flashes de efígies, refletia sombras na parede detrás da sua cadeira. Por alguns instantes o mito da caverna esteve sempre presente naquela sala-cozinha-quarto.

Um barulho de tiro lá fora o acordou repentinamente. Não sabia se era uma arma ou o martelo dos juízes que executavam a superestrutura do direito para manter tudo em ordem. Não entendeu, apenas ouviu de um debate na televisão um cientista político que falava sobre meritocracia. Ele pensou que fosse algum termo de engenharia, não compreendeu, e sob o manto do tédio exerceu o único pensar do dia, "melhor dormir, há grandes chances do despertador me sentenciar a mais um dia de vida".

Gabriel C. Stecca é Mestrando em Direito Constitucional e Processual Tributário pela PUC-SP, Graduado pela PUC-SP e Advogado.
Quinta-feira, 1 de setembro de 2016
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