Ministra que reconhece seu erro e pede desculpa é um exemplo importante
Quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ministra que reconhece seu erro e pede desculpa é um exemplo importante

Em seu discurso de posse como a segunda mulher a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia afirmou que é responsabilidade e obrigação da justiça garantir direitos do cidadão brasileiro, que não estaria satisfeito com o Poder Judiciário. Dias depois, cidadãs insatisfeitas questionaram uma declaração da ministra em uma entrevista de televisão. Ao tentar defender a atuação do tribunal na Operação Lava Jato, Cármen Lúcia disse ter certeza de que “os ministros não são autistas. São todos eles cidadãos, que querem a jurisdição prestada e prestada com rapidez”. Para a ministra, pareceria haver uma oposição entre ser cidadão e ser uma pessoa diagnosticada com autismo, uma singularidade neurológica que altera formas de interação social, comunicação verbal e não verbal e comportamentos.

A oposição não existe: pessoas autistas são cidadãs, frequentemente insatisfeitas com as barreiras de acesso a saúde, educação e participação social e com o tratamento discriminatório que sofrem. Ativistas de direitos de pessoas com deficiência lembraram a ministra disso. Carmén Lúcia ouviu e lançou uma nota pública em resposta: “Recebi manifestações – justas e motivadas – de que o uso [da palavra autistas] era indevido e poderia ser interpretado como ofensivo. Vivo o cuidado com uma linda e querida pessoa em família que tem esta qualidade, pelo que jamais poderia me passar ser assim interpretada. Diante da repercussão, sei agora que não poderia ter feito uso da palavra, pois poderia ensejar má interpretação”.

Para a justiça cidadã almejada pela nova presidenta do STF, juízes que reconhecem seus erros e pedem desculpas são um exemplo importante. Mas não só para o Poder Judiciário: a atenção da ministra Cármen Lúcia à pedagogia do aprendizado com a escuta atenta é um convite a todas nós. Ela foi infeliz na alegoria que fez do autismo, mas se desculpou pelo deslize de linguagem. Como ela, todas nós precisamos aprender a ouvir e identificar o capacitismo em nossa voz cotidiana. Falamos frequentemente em surdez, cegueira, esquizofrenia – não para de escrever formas de viver o corpo e estar no mundo, mas para depreciar posições ou pessoas, e assim reproduzimos o estigma imposto a quem está fora do ideal biomédico de normalidade para o corpo ou a convivência. Mas felizmente, assim como a ministra Cármen Lúcia, todas nós podemos ser interpeladas, podemos pedir desculpas, podemos aprender.

Sinara Gumieri é advogada e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética. Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga https://www.facebook.com/AnisBioetica

Quarta-feira, 21 de setembro de 2016
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