A integridade e o diabo: a etimologia da punição
Sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A integridade e o diabo: a etimologia da punição

I. A integridade

O conceito de integridade é essencial para a compreensão do ser humano. A ideia, em suma, é de que o ser humano nasceu para ser inteiro, para desenvolver toda a beleza que, em potência, mora dentro de si.

A ideia de integridade está na essência de qualquer discurso moral. Há muitos políticos que proclamam aos ventos a própria integridade. Nós gostamos de pensar em nós mesmos como pessoas muito íntegras. O problema é que às vezes não sabemos ao certo o que queremos dizer com isso.

Íntegro é, evidentemente, qualidade daquilo que é inteiro, todo. Daquilo que não apresenta rupturas. A religião deveria levar à integridade: re-ligio, a matriz em latim da palavra, remete à noção de união daquilo que estava separado. A missão essencial da religião deveria ser ligar: ligar o ser humano a si mesmo, integralmente. Yoga, da raiz em sânscrito yuj, também quer dizer união, junção, ligação. Em terrenos religiosos, não deveria haver espaço para a fragmentação.

No mesmo sentido, sugere a língua inglesa que a verdadeira santidade (“holiness”) está na inteireza (“wholeness”), e, em alemão, santo (“heilig”) tem o mesmo radical de inteiro (“heil”). Prossegue a lição Rohden: “Também existe estreita afinidade etimológica entre as palavras ‘santo’ e ‘são’, denotando aquela integridade espiritual e esta, integridade física. Ser ‘são’ é possuir inteireza material. Ser ‘santo’ é possuir inteireza espiritual. ‘Santificar’, pois, quer dizer reconhecer como inteiro, total, universal”. [1]

Cristo, para Jung, também simboliza a integridade. Cristo une o mundo divino ao mundo humano, a vida e a morte. Estende os braços a criminosos, meretrizes e doentes. Cristo junta o separado, e não é à toa que tanto fala em perdão.

A palavra perdão vem do latim per-donare, que significa dar-se ou doar-se por inteiro: eis, novamente, a inteireza, a integridade. A generosidade, que tantas vezes se fundamenta na capacidade de perdoar, está intimamente ligada à nossa integridade. Provavelmente apenas podemos conhecer o amor se conseguirmos juntar cada pedacinho nosso, espalhado por aí, aos retalhos, pelos campos da vida. É preciso religar, unir, juntar. Assim estaremos novamente sãos: íntegros, prontos para o amor e para o perdão.

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II. O diabo e seus fragmentos

Se estamos fragmentados, estamos doentes – porque não estamos sãos. Estamos em desequilíbrio, voltados uns contra os outros. Incapazes de perdoar, condenamos: a condenação é, afinal, o perfeito oposto do perdão. Não estamos no terreno religioso, nem no terreno de Cristo. Estamos no perfeito oposto. Estamos no terreno do diabo.

 

Este não é um jogo de palavras! É conclusão lógica e etimológica.

 

A palavra diabo vem do grego diabolos, que por sua vez tem origem em dia-ballein. A ideia é literalmente oposta à de integridade. O diabo é, etimologicamente, o que cinde, separa, atira para longe, rasga, condena. Analisemos com base nisso o Gênesis bíblico: Adão e Eva viviam no Paraíso, em absoluta unidade com Deus. Surge, então, o diabo, oferecendo o fruto do conhecimento do bem e do mal: eis a separação primordial. Eva e Adão provam o fruto. Experimentam a separação. São expulsos, jogados para fora, separados do Paraíso. Sentem vergonha, medo, dor.

Com o diabo, todas as separações vêm à tona: eu e o outro, o bem e o mal, o inocente e o criminoso, a esquerda e a direita, a situação e a oposição, e por aí podemos seguir infinitamente. A integridade é simples. A fragmentação é imensamente complexa e multifacetada.

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III. A escolha diária

De um lado, a integridade: a religião (como deveria ser, e não necessariamente como é), a santidade, a saúde, o perdão, a simplicidade, a generosidade, o amor e o próprio Cristo nos chamam. A integridade clama para que deixemos de lado tudo aquilo que fragmenta. Clama para que estendamos a mão, saibamos escutar, saibamos dialogar, saibamos compreender, saibamos recuar antes de julgar, saibamos abraçar, construir pontes e estender mãos.

De outro lado, os retalhos: o diabo nos chama. Os retalhos clamam para que sejam sempre alimentados. Clamam por uma multiplicidade cada vez maior de fragmentos que giram de modo insano. Clamam por condenação, por teimosia, por unilateralidade, por egoísmo, por narcisismo, por fechamento em torno de si, por orgulho. Clamam por mais punição, por mais severidade, por mais direito penal, por mais nós contra eles. Clamam por semblantes sisudos, burocracias, muros e grades.

A queda bíblica é agora. É hoje. É todo dia. São todos os dias em que, com as costas viradas para a Árvore da Vida, abocanhamos o fruto da serpente diabólica e com ele nos deliciamos. Qualquer pensamento que condena é, etimologicamente, diabólico. Qualquer discurso que condena é, etimologicamente, diabólico. Qualquer postura que condena é, etimologicamente, diabólica. Isso não é opinião. Não é ideologia. É apenas etimologia.

A escolha por qual caminho iremos seguir sempre esteve aqui.

A escolha sempre estará aqui.

Bruno Amábile Bracco é Mestre e Doutorando em Criminologia pela USP, Defensor Público do Estado de SP, autor do livro “Carl Jung e o Direito Penal”.


[1] Rohden, Huberto. Metafísica do Cristianismo, p. 35.
Sexta-feira, 23 de setembro de 2016
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