Como fazer para amanhã ser outro dia
Quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Como fazer para amanhã ser outro dia

A Dilma caiu. Escrevo da Cinelândia, Rio de Janeiro, casa dos revoltosos, palco dos indignados. Depois de um cafezinho ruim que custou 5 reais, caminho pela praça. As bandeiras cor de sangue dos vermelhos tremulam. MST, CUT e PT se misturam com o arco-íris dos gays. Você ter que ir a praça pública defender direitos ligados ao próprio cu é uma espécie de santa inquisição medieval, só que filmada com smartphones e com o VLT passando do lado. Aliás, agora que terminaram as Olimpíadas de quem não tem nenhuma deficiência, o VLT passou a ser pago. Além disso, a moto da polícia que vinha na frente dele, pra evitar que algum desatento morresse atropelado caçando pokemóns, também não aparece mais. Resumo: que se danem os deficientes e os brasileiros. A preocupação e o desconto eram só para os estrangeiros com corpo funcionando 100%. 

Gente barbuda, velhos, novos, cigarros, sindicalistas, professores. Me sinto estranho ali, com a gravata enrolada no pescoço. Não é o uniforme adequado. No fundo, não sei se me identifico com o negócio. Não sei se concordo, se discordo, se me resigno ou se acho um lugar com um café melhor. Vejo no alto da escadaria o Salo de Carvalho, professor que admiro, ativista e coisa e tal. Gosto dele, sobretudo, porque conseguiu largar a gravata. Lembro do Amilton, pai do Salo. E Amilton me faz lembrar da conversa do café da manhã com meu amigo Estevan, quando falávamos que Nietzsche e abolicionismo penal não combinam e outros surfes na pororoca. Lembro de amigos tão intelectuais quanto Salo e Amilton que tem bons fundamentos contra os vermelhos. Penso ser inegável o fato de que a intelectualidade brasileira é talhada com o pensamento de esquerda e que, grosso modo, não se fomenta o estudo dos contrapontos. Nesse sentido, pode-se dizer que a ideologia universitária no Brasil tem quê de antidemocrática. 

A Constituição sempre foi um Deus para o direito que nasceu com o fim dos militares filhos da mãe. Eu, como uma espécie de ateu light, nunca confiei em coisas que deveriam ser. O mundo é trágico se tivermos os dois olhos abertos. É preciso lutar? Acho que é, mas me sinto resignado. Houve um Golpe. Há manifestação. Mas amanhã o curso tedioso dos dias seguirá. Suas contas, suas broxadas, sua barriga horrenda, suas rugas, sua felicidade depositada no final de semana, nos filhos, nos vinhos ou no relaxamento de depois do Yoga.

Não sei se queria comprar outra gravata para o dia de trabalho seguinte, ou se queria uma camiseta do Che. Gritei Fora Temer duas vezes. Depois cansei. Contribuí com a luta…Há em mim sempre uma espécie de pasmo bipolar. Lembro – já me afastando da grande massa – que não tomei meu remédio do dia. E talvez minha grande sonolência em relação aos ratos do Congresso se deva à falta de Setralina. 

O Direito é um jogo de xadrez, só que sem peões. Quem joga sabe do que falo. Se você não joga, dane-se. Torres trucidando-se logo no início do jogo. Reis e rainhas em posição de ataque. Cavalos relinchando. Um caos fodido. Dos dois lados desse xadrez jurídico está a morte. Bergman só não foi mais genial porque colocou a morte em apenas um lado do tabuleiro. Uma das mais sábias palavras que li até agora é de um cara anônimo das redes que disse: “dois grupos de pessoas comemoraram o Golpe: os que vão tirar os direitos dos trabalhadores; e os que ainda não se deram conta que vão perder direitos trabalhistas.” Do escritório escuto o coro engrossar. Talvez se esse povo do FORA TEMER fosse ao Beira-Rio, pudessem livrar o Inter do rebaixamento. Talvez faça-se uma revolução, mas provavelmente não se faça.

A coisa seguirá assim – lá de cima, o ouvido do grande silêncio praticamente não escutará o eco dos indignados. De longe, as coisas mais desimportantes é que permanecem: seu bicho de estimação, um vento na cara, um instante de amor, um porre inesquecível. As regras existem para que o nosso afã arcaico por segurança fique minimamente em paz. Quando lembro que Hobbes, o primeiro contratualista, postulou o Estado porque morria de medo (de uma nova Guerra), me dou conta que o fato de termos uma Constituição não serve para além da ficção de um conforto uterino. A política vence o direito. A retórica vence o direito. O dinheiro vence o direito. E, se você sair para as ruas para gritar, apenas, sairá vencido e sem voz para o dia de amanhã. Se as regras democráticas não são respeitadas, que se faça uma manifestação antidemocrática: com violência inteligentemente bem empregada. Talvez assim, amanhã, possa ser outro dia.

Paulo Ferrareze Filho é Doutorando em Direito (UFSC). Mestre em Direito (UNISINOS). Professor universitário. Livre pesquisador. Ainda sente-se estagiário em tudo.

Quarta-feira, 28 de setembro de 2016
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