A empatia como remédio para a banalização do mal
Quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A empatia como remédio para a banalização do mal

– “Déjame entrar, déjame ver algún día como me ven tus ojos”

Julio Cortázar (Rayuela)

 

O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. A frase, da escritora Simone de Beauvoir, expressa com exatidão os tempos que atravessamos. Afinal, somente nos debruçando detidamente sobre tal fenômeno para compreender os motivos pelos quais, cada vez mais, especialmente nas redes sociais, pessoas que sabidamente pertencem à classe dos oprimidos vociferam impropriedades e até injúrias aos seus iguais – pobres, LGBTTs, mulheres, negros, índios, trabalhadores, assediados e explorados -, numa tentativa inconsciente de negar o passado ou o presente, reconhecendo na figura do opressor aquilo que são ou gostariam de ser, como o autoritarismo e o poder econômico que deles emanam.

Nesse contexto, não impressiona o incômodo que a luta das minorias causa àqueles que se encontram no topo da pirâmide. Ao serem convidadas à reflexão acerca de suas vantagens e regalias, pessoas efetivamente privilegiadas se sentem altamente ofendidas e atacadas. Não lhes interessa a mudança do status quo; homens brancos, cis, héteros e de classe média ou alta sempre foram voz não silenciada, sendo que qualquer contradiscurso que questione essa hegemonia é logo deslegitimado e taxado de radical ou extremista[1].

A questão, todavia, ganha contornos mais delicados quando quem se recusa a refletir e indagar é justamente o oprimido, ou aquele que um dia esteve na base da pirâmide e, agora, do alto de seus privilégios, reproduz de maneira automática a lógica do opressor[2]. O fato é que, infelizmente, a ideologia se encontra a serviço das classes dominantes e, em razão disso, há um intenso processo de reprodução, naturalização e sustentação da marginalização dos dominados.

A partir dessas reflexões, e tomando como base nosso tema central, a Sororidade[3], pergunta-se: como enfrentar esse cenário de desconstrução da ideologia que segrega, cala, estereotipa e criminaliza indivíduos, num tempo que, como bem conceituou Zygmunt Bauman [4], chamamos de modernidade líquida?

Assim, tomamos a liberdade de sugerir um antídoto para tudo isso: a empatia. Roman Krznaric, na obra “O poder da empatia: a arte de se colocar no lugar do outro para mudar o mundo”, destaca que muitos historiadores e pensadores sociais consideram a empatia uma das maneiras mais eficazes de expandir as fronteiras de nossos universos morais, e que, a partir do hábito de empatizar, somos capazes de desenvolver laços que nos ajudam a dar um melhor sentido à própria existência, abandonando cada vez mais nossos egos para experimentar o olhar sincero à vida do outro. Há um verdadeiro despertar de nossa humanidade por meio da paulatina conscientização de que somos animais sociais, numa corrente de solidariedade que se espalha ao redor de todos aqueles que conhecemos – e em seguida àqueles que não conhecemos -, em contraponto ao individualismo tão presente nos dias atuais [5].

Empatia não se confunde com simpatia. Enquanto esta tem por característica a identificação de sentimentos e pensamentos comuns entre indivíduos, com a superação de eventuais divergências, aquela consiste justamente no reconhecimento e na consideração da individualidade do outro, sem condicionamentos ou pré-julgamentos. É o ato de mergulhar no universo alheio, de despojamento dos nossos padrões morais e comportamentais, a fim de respirar a perspectiva do próximo e vivenciar sua realidade.

É importante notar, ainda, que a empatia não promove a anulação da pessoa em relação às suas particularidades, mas sim a reflexão de que o nosso “eu” não é absoluto ou referência a ser seguida. Afinal, sabemos que toda tentativa de padronização faz parte do perverso processo de dominação e exploração das minorias, responsável por relegá-las sistematicamente à invisibilidade e marginalização.

Todavia, percebe-se que, atualmente, pessoas encaram pessoas com armas e escudos nas mãos, prontas a destilar ódio e intolerância quando o outro não reflete suas crenças e valores. Nas palavras de Jelson Oliveira, “o eu, como referência absoluta, torna tudo ao redor feio e odioso: ‘porque Narciso acha feio o que não é espelho’ (…) O feio é o outro, o que não é o mesmo, o que não se revela como espelho e, portanto, como repetição” [6].

 

Mentes, corpos e almas encontram-se fechados à divergência e ao diálogo. A empatia cede espaço ao individualismo egoístico e pragmático, incapaz de encarar o próximo como fonte de sabedoria e aprendizado.

 

O indivíduo intolerante não percebe a miopia que o acomete porque se recusa a enxergar o mundo com os olhos do outro; não se dá conta daqueles que andam descalços porque não aceita retirar seus confortáveis sapatos para pisar diretamente no chão; não compreende a realidade que o cerca porque nega ou despreza aquilo que está fora de sua bolha existencial.

E, em um mundo marcado pela falta de empatia, a internet funciona como arma de guerra dos fascistas, os quais, “protegidos” por uma tela de computador, usam a rede mundial para expor, amparados pela ideia de anonimato, todo tipo de ódio e preconceitos. Basta uma rápida pesquisa para nos depararmos com os mais diferentes insultos e agressões, todos eles fundados na premissa de superioridade em relação aos demais. Tal fenômeno, infelizmente, conforme já salientado, é notado tanto no seio das maiorias quanto em relação às minorias.

O triste episódio que culminou no falecimento do ator Domingos Montagner é emblemático. Minutos após o anúncio da tragédia, a grande mídia já publicava uma matéria com a seguinte chamada: “Vídeo mostra desespero de Camila Pitanga minutos após Domingos Montagner desaparecer”. Mais tarde, programas sensacionalistas, comandados por verdadeiros abutres, transmitiam imagens do corpo do artista sendo retirado das águas do Rio São Francisco. E, para completar a barbárie, piadas de cunho sexista começaram a circular nas redes sociais, bem como suposições envolvendo um partido político, absolutamente irresponsáveis e pueris.

Analisando o horror exposto acima, concluímos a total indiferença em relação à dor experimentada pela atriz e pelos familiares de Montagner. Ignorou-se a tragédia, vendeu-se sofrimento em troca de audiência, anulou-se a humanidade de Camila Pitanga e da família do ator, que acabara de perder um ente querido. Houve uma tentativa nefasta de transformar o drama em piada.

Então, como romper este ciclo e praticar a empatia? Simples, colocando-se no lugar de outrem, respeitando seus sentimentos e necessidades, por questão de humanidade. Utilizando o exemplo acima, colocando-se no lugar dos envolvidos, que podem ser a atriz, a esposa e os filhos do ator. Para tanto, basta exercitar-se, inúmeras formas são possíveis. Afinal, atire a primeira pedra quem de nós nunca se viu numa situação delicada e extrema, seja familiar, de saúde ou até financeira.

Nessa linha de raciocínio, a reflexão pode ser transportada para o âmbito das questões sociais, inclusive. Citemos, por exemplo, a discussão trazida por ativistas e movimentos sociais do que se denomina “lugar da fala” – ou lugares de fala – [7] e seus críticos, a partir do argumento de que tal postura afastaria simpatizantes às referidas causas, na medida em que homens, brancos e heterossexuais não teriam legitimidade para defender as bandeiras das mulheres, negros e LGBTT, respectivamente. Tais divergências podem ser abrandadas também pelo critério da empatia, sem prejuízo da intensificação da luta pela ocupação e protagonismo nos espaços sociais e públicos pelxs verdadeirxs oprimidxs, exigindo-se um compromisso cada vez maior da sociedade pela causa do outro, não por favor ou generosidade, mas pelos critério mais equânime que existe: por questão de humanidade.

O exercício de empatia pode, ainda, ser deslocado para o plano político, o que nos ajuda a compreender a polarização que transformou a convivência social entre as mais variadas teias em que estamos inseridos, sejam os núcleos familiares, de amigos, no trabalho ou nas redes sociais. Tudo isso porque o indivíduo é um ser social e, nesta condição, um ser político, fazendo parte desse sistema que assujeita e oprime – o capitalismo – apreender a sua vontade e transformar o seu discurso a partir de seus próprios interesses, num autoritarismo disfarçado de democracia, ou, para ser mais atual, como define Rubens Casara, também colunista do Justificando: num Estado Pós-Democrático [8].

Nessa linha, Marcia Tiburi [9], em seu livro “Como conversar com um fascista”, sintetiza a utilização do ódio como arma para desconstrução da política a serviço do capital: “O genocídio indígena, o massacre racista e classista contra jovens negros e pobres nas periferias das grandes cidades, a violência doméstica e o assassinato de mulheres, a homofobia, a manipulação das crianças, em palavras simples, o ódio ao outro cresce em uma sociedade em que está em jogo também o extermínio da política.(…). Nesse contexto, a política é destruída sistematicamente em duas linhas: pelos políticos que a transformam em burocracia; pelo povo que a negligencia e se desinteressa dela. Talvez a destruição da política seja a verdade oculta na razão de Estado atual. (…). Não há maneira melhor de destruir a política do que fazendo uso eficiente do ódio. Para destruir o outro é preciso destruir a política. Para destruir a política é preciso destruir o outro. Destruir o outro garante o fim de sujeitos de direitos e o fim do direito dos sujeitos”. [10]

O intrigante é que essas mesmas condições hoje vivenciadas foram levantadas, no pós-Segunda Guerra, por Hanna Arendt [11], ao estudar as consequências do totalitarismo para o espaço público, o que possibilita a compreensão do movimento elíptico imposto pelos fatos históricos e o aprendizado a partir de experiências pretéritas, para que não se repitam os mesmos erros do passado.

Nestes tempos insanos, rememorar o julgamento histórico de Eichmann é urgente para, resgatando o diálogo com o passado, de forma simbólica, conscientizarmo-nos, definitivamente, de que atos aparentemente individuais e isolados podem resultar em consequências e efeitos deletérios a todo uma coletividade. Como bem disse o poeta John Donne, ainda no século XVII: “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Se um torrão é arrastado pelo mar, a Europa fica menor, tal como se fosse um promontório, tal como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio: a morte de qualquer homem me diminui, porque faço parte do gênero humano, e por isso nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

É essencial, assim, tomarmos posse do bálsamo que nos permite enfrentar esses dias sombrios que atravessamos, em contraponto ao discurso de ódio, e que congrega um ingrediente que aqui denominamos de empatia, mas que comporta diversos sinônimos: sororidade (entre mulheres), fraternidade (entre irmãos), solidariedade (de pessoas umas com as outras), ou auto-ética. Esta última, na lição de Edgar Morin, situa-se no centro da sabedoria, significando a ética da compreensão, da aceitação da crítica do outro. Afinal, o importante na vida é o amor, com todos os perigos que ele contém, sendo ele – o amor – e a poesia fins e meios do viver [12].

Fernanda Orsomarzo é juíza de direito no Paraná. Vegetariana há 8 anos. Tem por ideal viver a magistratura fora do gabinete, na busca por uma cultura de alteridade, respeito às minorias e livre da exploração de animais humanos e não-humanos. É pós-graduada em direito penal, pós-graduanda em filosofia e direitos humanos pela PUC-PR e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia).

Elinay Melo é Juíza do Trabalho Substituta no TRT 8ª Região. Especialista em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo CESIT/Unicamp. Diretora Financeira da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região – AMATRA8 (Biênio 2016/2018). Membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD).

Participa da coluna semanal Sororidade em Pauta, em conjunto com as magistradas Daniela Valle da Rocha Müller, Juliana Ribeiro Castello Branco, Gabriela Lenz de Lacerda, Célia Bernardes, Laura Rodrigues Benda, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega e Sofia Lima Dutra. E se você quiser saber mais sobre quem somos e sobre o conceito de sororidade.

 

[1] Como exemplo, citamos os termos: “feminazi”; “racismo reverso”; “heterofobia”; “cristofobia”, “ditadura gay”, etc.
[2] Remetemos à figura do “hospedeiro do opressor”, tratada por Paulo Freire em seu “Pedagogia do Oprimido”. O termo diz respeito ao oprimido que não enxerga a necessidade de libertação. É o indivíduo que busca alcançar os mesmos padrões de vida daquele que o oprime, para, mais tarde, também oprimir.
[3] http://justificando.com/2016/06/02/o-que-e-sororidade-e-por-que-precisamos-falar-sobre/
[4] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004, pg. 46.
[5] O poder da empatia: a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo/Roman Krznaric; tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – .ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 205, pgs. 21 e 22. O mesmo autor cita que antropólogos encontraram o pensamento empático em diversos códigos morais das mais variadas culturas ao redor do mundo. Um provérbio dos indígenas americanos cheyennes aconselha: “Não julgue seu vizinho antes de caminhar com os mocassins dele.” A maior parte das línguas faladas nas ilhas do Pacífico possui expressões que denotam o sentimento de preocupação baseado na capacidade de compreender as emoções de outra pessoa e de olhar o mundo a partir de sua perspectiva, como a expressão te nanoanga, usada pelo povo banabano de Fiji.¹⁵No sul da África, a filosofia humanista do Ubuntu é conhecida por seus elementos empáticos. “Na ética do Ubuntu”, explica Desmond Tutu, “ficamos diminuídos quando outros são humilhados ou diminuídos … Ubuntu tem a ver com nossa interconexão.”
[6] Coleção Sabedoria Prática. 1º volume. 3ª ed. rev. PUCPRESS. p. 100.
[7] “O “lugar de fala” remete, simultaneamente, a um duplo movimento: tomada de um ponto de enunciação que deveria pertencer por legitimidade de experiência ao oprimidx e, ao mesmo tempo, despejo do titular de um lugar ocupado, por força da dominação, por aquelxs que se apossaram das tradições de fala em uma sociedade estratificada.”. Link para o artigo.
[8]  O “pós-democrático” é o Estado compatível com o neoliberalismo, a transformação de tudo (inclusive das mentalidades) em mercadoria. Trata-se de um ultraliberalismo econômico que necessita de um Estado Penal cada vez mais forte, de uma estrutura estatal voltada à consecução dos fins desejados pelos detentores do poder econômico. Fins que levam à exclusão social de grande parcela da sociedade, o aumento da violência (não só da violência física, que aumenta de forma avassaladora em tempos de ultraliberalismo econômico, como também da violência estrutural, produzida pelo próprio funcionamento “normal” do Estado pós-democrático), a inviabilidade do campo, a destruição da natureza e o caos urbano, mas que necessitam do Estado para serem defendidos e legitimados. Veja mais.
[9] Como conversar com um fascista [recurso eletrônico] / Marcia Tiburi. – 1. ed. – Rio de Janeiro : Record, 2015, pgs. 25 e 26.
[10] A autora continua: “Sabemos que é preciso exterminar a política para que o capitalismo no seu estilo selvagem (tendencialmente, sempre selvagem e bárbaro) se mantenha: poucos muito ricos, muitos explorados, outros tantos cada vez mais afundados na via da miserabilidade. O extermínio é calculado: quem não produz e consome segundo os padrões do “capital” não tem lugar. O ódio gera um não lugar, o espaço habitado pelo excluído que não é um lugar político, mas antipolítico. A luta dos excluídos é por saírem desse lugar ganhando voz e chance de sobreviver. Em uma política verdadeiramente democrática deveria haver lugar para todos, para vários modos de produção da existência e de subsistência que não precisassem seguir o ordenamento do capital, voltado a si mesmo, apenas à sua própria manutenção e reprodução a partir da devoração do outro.”
[11] Para Hannah Arendt, a sociedade de massa é impossibilitada de formar um interesse comum, sendo a única coisa compartilhada, e sendo isso que a torna massificada, é a apatia seguida de comodismo político. E uma das principais características do homem pertencente a uma sociedade de massa é o isolamento e a falta de relações sociais. Logo, o surgimento e crescimento de regimes totalitários depende “das condições específicas de uma massa atomizada e individualizada”.O Totalitarismo, enquanto regime político, promove a dominação irrestrita e sem limites de todas as possíveis atividades autônomas por parte dos cidadãos. Consequentemente há uma nítida perda de participação política devido à captação das esferas de convivências autônomas na sociedade pelo regime Totalitário. A filósofa chama atenção para o fato de que a “lealdade só é possível quando a fidelidade é esvaziada de todo o seu conteúdo concreto”. Ou seja, o que faz uma pessoa seguir as diretrizes de um movimento político fundamentado no uso da violência, seria justamente a lealdade em seguir as ordens. A lealdade sem limites, cega o indivíduo, fazendo com que este não enxergue as conseqüências dos seus atos, mas sim, apenas o que ele pode ganhar, dentro do partido em termos de reconhecimento e respeito, resumindo essa questão numa frase comum da época: “minha honra é a minha lealdade”. Essas reflexões, juntamente com o julgamento de Eichmann, originaram a expressão “banalidade do mal”. Link para o texto.
[12] Amor, poesia, sabedoria/Edgar Morin; tradução de Edgar de Assis Carvalho – 7ª ed. – Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2005, pgs. 61 e 63.
Quarta-feira, 28 de setembro de 2016
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