Assim falou a inocência
Quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Assim falou a inocência

Aos 32 anos de idade, Ulisses abandonou sua profissão e foi refugiar-se em um ermo, com pouco som, mas muita luz. Ali escutou em silêncio os sons da grande boca do mundo. Gozou de alguma paz enquanto conhecia meticulosamente o fato de que não havia uma natureza intrínseca ou extrínseca, nem dos homens, nem do cosmo, nem do direito, nem das ideologias, nem da linguagem. Deu-se conta que nem mesmo a própria natureza, com seus gorjeios, ondas e ventos tinha uma natureza que se lhe pudesse chamar de própria.

Um dia sua paciência acabou e resolveu mandar aquele ermo à merda. Levantou-se e foi tomar um café forte e sem açúcar com o Sol, que era dono do ermo e, desde 1988, sonhava com um mundo melhor: “Ó grande Sol! Que seria de teu sonho, se não fosse o medo de quem tu iluminas?”

“Há 28 anos vens até todas as janelas sonhar teus sonhos. Durante todos esses anos, tomamos do teu supérfluo e mastigamos tuas nuvens distantes da Terra. Escuta bem! Estou farto da tua ingenuidade mentida. E farto dos teus sonhos – pois toda expectativa é uma frustração antecipada.”

“Quero doar e distribuir tua mentira vestida de paraíso até que os sábios juristas voltem a levar as entranhas do homem a sério, e até que uns pobres presos possam ensinar a liberdade resignada que há em suas entranhas.”

“Para que isso possa, devo remar em direção à profundidade escura do mar. Tal qual tu fazes à noite, quando te escondes depois que o mar acaba no horizonte para levar tua quentura até o frio das escuridões. É a saudade do dia que torna a noite charmosa, assim como é a saudade do sonho que torna o dia desperto.”

“Então me protege, ó olho sonhador, capaz de dar esperança edênica até mesmo a quem a perde – numa desesperança de amor, num desejo contido, numa jogatina perdida ou num coma insuportável.”

“Abençoa a taça de vinho da vida que quer transbordar, para que ele possa manchar as páginas do teu livro juvenil com as marcas de uma vida viciada de vida.”

Ulisses remou sozinho pelo alto mar, e quando ondas já não haviam, sem deparar com homem, ave ou peixe, o mar se abriu até que a terra pudesse, mesmo úmida, ser vista no chão. E da parede imensa de água que se fez, encontrou um jumento marinho gigante que se chamava Leviatã. Assim o bicho falou a Ulisses:

“Não me és estranho remador: passou por esses mares há muitos anos. Chamava-se Ulisses; mas está mudado. Levavas nos olhos a esperança de que um decreto constituído pudesse mudar os medos, e nas mãos a espada enferrujada de uma revolução.”

“Mudado estás Ulisses; tornou-se adulto. E a ciência da vida-como-ela-é fez de ti um desperto: que queres – de novo – entre os sonâmbulos do paraíso?”

Respondeu Ulisses: “eu amo o caos dos homens, e por isso retorno”.

“Por que”, disse o jumento, “fostes ao ermo em solidão, se amas o caos dos homens”?

E respondeu Ulisses: “só se ama grandemente o que se conhece, e só se pode conhecer guardando distância, para que os olhos circundem de todos os lados, e mesmo embaixo e em cima, aquilo que amam”.

“Eu há 28 anos amo uma ideia” , disse Leviatã. “Não amo os homens porque, para mim, são caóticos, incoerentes e sem integridade. E porque não os amo, vendo-lhes papéis de esperança. Mantenho-me não à distância, mas acima deles, para que minha palavra de ordem possa ir direto para suas moringas cheias de cabelos. Não vás junto aos homens Ulisses, e, se fores, fica acima deles. Só assim poderás ser visto. Por que não queres ser como eu: uma estrela acima das estrelas, uma centelha dominante sobre as centelhas?”

“E o que faz o Senhor no fundo do alto mar?”, perguntou Ulisses. Ao que respondeu o jumento: “eu falo, digo, escrevo, professo, repito, repito, repito: assim louvo a Deus. Falando, escrevendo, professando e repetindo, eu louvo ao deus que é o meu Deus. Mas e tu Ulisses, o que trazes de presente?”

Ao ouvir essas palavras, Ulisses bateu continência ao jumento e disse: “Deixai-me partir para que a esperança do teu Deus não me seduza.” – E assim se despediram um do outro, Ulisses e Leviatã, rindo como riem dois idiotas.

Mas quando Ulisses se achou novamente só, assim falou para o seu coração: “Como será possível? Esse velho jumento, em seu barco portentoso, ainda não soube que Deus está morto!”

Paulo Ferrareze Filho é Doutorando em Direito (UFSC). Mestre em Direito (UNISINOS/RS). Professor de Psicologia Jurídica (AVANTIS). Advogado.

Quinta-feira, 6 de outubro de 2016
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