Helena Hirata: “a situação da trabalhadora não é nem será fácil nos próximos anos”
Quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Helena Hirata: “a situação da trabalhadora não é nem será fácil nos próximos anos”

Socióloga do trabalho, nascida no Japão, brasileira por opção, residente na França há 45 anos. Diretora emérita de pesquisas no Centro Nacional da Pesquisa Científica na França – CNRS, membra do comitê diretor da Rede Internacional MAGE – Mercado do Trabalho e Gênero, do comitê de estudos dos Cadernos do Gênero e do Coletivo Nacional pelos Direitos das Mulheres (CNDE). Revolucionária desde jovem e feminista para sempre. Esta é Helena Hirata, que concedeu entrevista diretamente de sua residência em Paris via Skype a Patrícia Maeda, colunista da Sororidade em pauta.

Patrícia: Helena, obrigada por nos conceder esta entrevista. Para começar, você poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória pessoal?

Helena Hirata: Bom, o que posso dizer é que sou duplamente imigrante. Nasci no Japão e com 5, 6 anos fui morar no Brasil, pois meu pai conseguiu um posto de consultor jurídico no consulado do Japão em São Paulo. Ele tinha estudado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e foi da primeira leva de filhos de imigrantes japoneses a se graduarem no Largo de São Francisco, tendo sido um dos sete. Então, o governo do Japão concedeu-lhes bolsa de estudos para cursarem especialização de direito na Universidade de Tóquio. Foi quando meu pai conheceu minha mãe, uma japonesa, eles se casaram, eu nasci. Aí ele resolveu voltar para o Brasil e conseguiu o posto de consultor jurídico no consulado do Japão em São Paulo e nós pegamos o navio e levamos cem dias para chegar no Brasil. Essa foi minha primeira imigração com menos de seis anos. Havia feito o jardim da infância no Japão e comecei o pré-primário em São Paulo, num colégio de freiras. Sobre minha segunda imigração, mais tarde, eu fiz parte do movimento estudantil em 1968. Esse movimento se chamava “Universidade Crítica” e participei do Congresso de Ibiúna, onde fomos mil estudantes presos, todos juntos. Ficamos presos por dez dias, primeiro no presídio Tiradentes e depois no Carandiru, onde ficamos por uma semana. Acabei conseguindo fugir da repressão, depois que fui solta da prisão. Fui procurada pela segunda vez por participar de uma organização clandestina, pois todas as organizações eram clandestinas, exceto a Arena e a UDN. Cheguei com documentos falsos em Paris em janeiro de 1971. Essa foi minha segunda imigração.

P: É correto dizer que você optou por ser brasileira?

H: Na realidade, aos 18 anos, tive que optar entre a nacionalidade brasileira e a japonesa e escolhi a brasileira, então posso dizer que foi uma opção. Agora, como já estou há 45 anos na França, o normal teria sido requerer a cidadania francesa, mas como já havia exercido a opção anos atrás, não quis recomeçar o processo. Embora de uns anos para cá seja possível ter a dupla nacionalidade brasileira/francesa, isso não acontecia quando me mudei para cá. Assim, apesar de morar aqui há 45 anos, não posso votar aqui na França, mas posso votar no Brasil, se estou no Brasil.

P: Mas que interessante você ter mantido esse vínculo com o Brasil…

H: Sim, pois dos três países onde morei, onde mais fiquei é na França. Morei muito pouco no Brasil dos 5, 6 anos até os 23, 24 anos e na França a partir de então, há 45 anos… Assim, moro na França há mais tempo do que no Brasil e morei no Brasil por mais tempo do que no Japão, onde morei os primeiros anos e depois fui várias vezes para fazer pesquisas por períodos de um ano, seis meses etc. Mesmo assim, moro há mais tempo na França, embora mantenha a nacionalidade brasileira.

P: Sua família está no Brasil?

H: Bom, tenho uma parte da família no Brasil. Tenho quatro irmãos: dois que moram no Brasil e duas irmãs que moram no Japão, são casadas com japoneses: uma em Nagasaki e outra em Tóquio. E eu aqui na França.

P: Quando surgiu seu interesse pela questão social?

H: Acho que foi na faculdade mesmo. Meus pais eram católicos e eu tive uma formação católica forte até 12, 13 anos. Na adolescência li vários autores franceses como Simone de Beauvoir, Sartre etc. Depois passei a me interessar por política quando ingressei na USP no curso de filosofia, onde lemos Marx, comentadores de Marx. Daí o que me interessou foi o pensamento social de Marx, Engels, Lênin etc. Nessa época, era 1968, havia uma efervescência política do movimento estudantil. Na faculdade de ciências sociais, havia o Eder Sader, e na de filosofia, havia o Emir e a Angela Mendes de Almeida, toda uma militância que estava recrutando jovens estudantes da USP. Foi assim que entrei no movimento estudantil, no movimento “Universidade Crítica” e num grupo chamado POC [Partido Operário Comunista], que na época era a fusão da dissidência leninista do PCB [Partido Comunista Brasileiro] do RS e a POLOP [Organização Revolucionária Marxista Política Operária] de Minas. Era uma organização pequena com um grupo pequeno de trabalho de base com panfletagem em porta de fábrica. Então, comecei tarde na política, pois dentro do POC encontrei vários estudantes secundaristas que militavam. Eu quando fui secundarista não tinha nenhum interesse pelas questões sociais nem me via fazendo política, o que só ocorreu no fim da faculdade.

P: E sua família, Helena? Quero dizer uma família que veio do Japão, seu pai cursou faculdade de direito, em tese, uma instituição conservadora…

H: Meu pai era bem de direita. Ele foi da UDN e depois da Arena.

P: Então, não deve ter sido fácil para você em termos familiares… Como sua opção pelo movimento estudantil repercutiu na sua família?

H: Bom, havia um fato interessante. Meu pai era deputado federal pela UDN e depois foi da Arena. Minha casa era frequentada por pessoas como Abreu Sodré e toda a nata da UDN. Meu pai dizia, por exemplo, que não havia tortura, que era uma invenção naquela época. Até que meu primo Luiz Hirata, filho do irmão de meu pai, foi preso um pouco antes do Natal. Ele era muito jovem e militava na Esalq, escola de agronomia da USP. No dia de Natal ligaram do DOPS para meu tio para dizer que meu primo havia morrido e não seria possível entregar o corpo, provavelmente porque estava muito machucado.

P: Mesmo sendo um sobrinho de deputado aconteceu tudo isso, ou seja, era muito complicado…

H: Sim. E eu era filha dele e fui presa. Assim, eu, depois da primeira prisão, tive que fugir para França.

P: Quando você se mudou para França, você mudou também de área de estudo, não é?

H: Sim, eu era da filosofia e mudei para as ciências sociais. Quando cheguei na França não tinha documento nenhum, nem diploma. A única faculdade na época que aceitava fazer matrículas sem documentos era a Vincennes, atual Universidade Paris 8 – Vincennes – Saint-Denis. O curso de filosofia estava sendo implantado com filósofos importantes como Deleuze, Cixous, Foucault, mas não tinha ainda a possibilidade de dar diploma. Um problema é que eu não tinha meu diploma e precisava de um curso que fornecesse diploma. E o curso de ciências sociais dava diploma, pois era mais antigo.

P: Podemos dizer, então, que razões de ordem prática te levaram a trocar de área? E você se adaptou à nova área de estudo?

H: Sim, hoje não vejo como voltar a atuar na filosofia, pois faltaria a leitura filosófica. Mas consegui realizar pesquisas na área da sociologia, embora não tivesse a formação necessária em estatística, toda uma série de leituras como Durkheim, Weber, enfim, os sociólogos clássicos, porque havia estudado os filósofos na graduação. Apesar de tudo isso, trabalhando com sociólogos que tinham essa formação, consegui fazer as pesquisas nessa área da sociologia.

P: E foi nesse período que você e Danièle Kergoat se conheceram?

H: Sim, foi aqui na França. Conheci primeiro o marido dela, Jacques Kergoat, já falecido e que militava bastante na França naquela época. Ele tinha contato com os brasileiros que haviam se refugiado na França em razão da ditadura militar. Um dia ele me apresentou sua esposa, dizendo que ela trabalhava no CNRS [em francês, Centro Nacional de Pesquisa Científica] e que poderia me ajudar a conseguir trabalho. Isso foi em 1976, 77.

P: Em seguida, você começou a estudar as questões de gênero?

H: Exatamente. Comecei a trabalhar com Danièle, fazendo trabalhos de datilografia, coisas simples de estudante, de “bico” mesmo. Aí, Danièle estava formando um grupo de pesquisas de gênero e eu comecei a participar dele. Ela e as outras pesquisadoras me ajudaram a formular um projeto de pesquisa para ingressar no CNRS. Consegui entrar no CNRS com um projeto que inicialmente não abordava a questão de gênero sobre empresas multinacionais francesas e japonesas no Brasil, mas logo percebi que nessas empresas os trabalhadores eram considerados homens e mulheres pela gerência. A gerência via bem que os trabalhadores tinham sexo. Nessa época, começaram minhas pesquisas de gênero, ou seja, no início de 1980.

Com a anistia em 1979, pude voltar ao Brasil. Na França, eu já possuía o estatuto de refugiada política, de modo que só poderia voltar ao Brasil se houvesse a anistia. Quando retornei ao Brasil, tive contato com pesquisadoras da questão de gênero e trabalho, em especial a Beth Lobo, que faleceu num acidente de carro em 1991, mas que trabalhava numa linha muito próxima do que pesquisávamos na França sobre gênero e trabalho, sobre as operárias, sobre o sexo do trabalho etc. Ela veio várias vezes à França para trabalhar conosco e com Danièle, assim como pessoas de outros lugares do mundo – a Virginia Guzmán, do Chile; a Ruth Milkman, dos Estados Unidos. Tínhamos um grande número de pessoas trabalhando sobre a questão de gênero e trabalho no CNRS.

P: Foi do CNRS que surgiu o conceito de divisão sexual do trabalho?

H: Sim, acho que se pode dizer que foi Danièle Kergoat que elaborou esse conceito, que é a ideia de que há uma repartição do trabalho, entre trabalho doméstico e trabalho profissional, entre homens e mulheres e que essa divisão revela uma hierarquia, uma superioridade do masculino sobre o feminino. Essa hierarquia social entre homens e mulheres faz parte do conceito de divisão sexual do trabalho.

P: Helena, quando você se mudou para França, foi possível comparar a condição da trabalhadora brasileira com a francesa?

H: Sim, eu fiz muitas pesquisas nesse aspecto. Na época, nas indústrias brasileiras, só eram empregadas mulheres jovens, solteiras e sem filhos. Muito raramente se empregavam mulheres casadas ou com filhos. Enquanto isso, na França, logo vi que muitas operárias eram casadas e tinham filhos, de modo que não havia tanta discriminação quanto às mulheres casadas como nas fábricas brasileiras. Essa era uma grande diferença.

A outra diferença estava nas condições de trabalho. Aqui na França, grande parte do processo já estava automatizado. Por exemplo, numa fábrica de biscoitos francesa, toda a parte de embalagem – papel, papelão etc. – era realizada por máquinas, totalmente automatizada. No Brasil, toda a embalagem era realizada por trabalho manual feminino, ou seja, as mulheres colocavam os biscoitos em sacos e fechavam, tudo isso com certa rapidez, repetitividade, o que gerava consequências importantes para a saúde da trabalhadora. Muitos casos de LER – lesão por esforço repetitivo – estavam relacionados a este tipo de trabalho manual repetitivo e sob pressão de tempo, com ciclos muito rápidos de realização da tarefa.

P: Certamente essas diferenças podem ser relacionadas a uma série de fatores, sobretudo o econômico…

H: Sim. Além disso, o salário das brasileiras era muito inferior ao das francesas nas mesmas empresas multinacionais, que tinham fábricas tanto no Brasil quanto na França, sob a mesma direção e com o mesmo capital, como no exemplo que pesquisei da Danone. Dava para perceber que as trabalhadoras brasileiras recebiam muito menos do que as francesas.

P: Na época, vocês chegaram a comparar legislação dos dois países?

H: Na realidade, comparamos regulamentos internos das empresas. A gente via, por exemplo, que no Brasil os regulamentos internos de empresas multinacionais previam que, na saída da fábrica, as trabalhadoras poderiam ser revistadas para ver se não estavam levando algum produto da empresa consigo. Esse tipo de regulamentação interna da fábrica não existia no caso francês.

Outro exemplo, que não era bem regulamentado, mas que existia, eram as “chapinhas” para a ida ao banheiro. Essas “chapinhas” eram utilizadas para controlar a ordem das operárias para ir ao banheiro, bem como o tempo que gastavam nele. Esse tipo de norma existia apenas para as mulheres no Brasil, mas não na França. Claro que não havia esse tipo de controle para os homens no Brasil, era só para as mulheres.

Essas pesquisas comparativas se deram por vinte anos, entre 1980 e 2000, tanto na indústria quanto nos serviços, no Brasil, na França e no Japão. No Brasil, as pesquisas começaram no início dos anos 1980. Pedi também uma bolsa da Fundação Japão, que era um organismo governamental japonês, e pude também realizar pesquisas no Japão, onde fiquei por seis meses, inicialmente. Essa pesquisa comparativa entre os três países foi realizada até meados de 1992. Nos anos 2000, refiz essas pesquisas em outras empresas, como no caso da Light, que na França se chama EDF. Nessa época, a Light tinha também capital francês. Daí fiz pesquisa comparativa sobre salários e condições de trabalho, vários tipos de diferenças e semelhanças no trabalho no serviço de distribuição de energia.

P: Como está o trabalho feminino na França hoje?

H: Desde 1995, estamos observando o que nós pesquisadoras chamamos de polarização do trabalho feminino. Mulheres de profissões como médicas, advogadas, publicitárias, arquitetas, jornalistas, professoras universitárias, em trabalhos relativamente reconhecidos e bem remunerados, considerados como qualificados e de nível superior, formam um polo. O outro polo majoritário que é formado por 90% das mulheres, que estão nos trabalhos tipicamente femininos, como empregadas domésticas ou no setor de saúde (ajudantes de enfermagem, enfermeiras etc.) e de educação (professoras primárias etc.), no comércio, como vendedoras, secretárias etc. Essa existência de dois polos – um bem pequeno e outro majoritário – é o que estamos chamando de polarização do emprego feminino. É uma mudança muito grande nos últimos anos em termos de divisão sexual do trabalho e ela é um dado muito convergente com o que acontece em outros países, inclusive com o Brasil, onde encontramos um grupo minoritário de mulheres que recebem salários relativamente elevados e cujos trabalhos são considerados interessantes e um grupo grande de mulheres que está nos trabalhos tipicamente femininos.

P: Em termos de legislação, há um movimento de redução dos direitos trabalhistas?

H: Sim, tanto no Brasil quanto na França temos observado um movimento de reformas legislativas para redução de direitos trabalhistas, o que tem provocado vários protestos na França nos últimos meses. A nova legislação do trabalho que entrará em vigor na França permitirá às empresas contratar trabalhadores com menos “rigidez”, ou seja, poderá contratar e dispensar sem tantos formalismos. Há uma, digamos, flexibilidade maior no recrutamento e na demissão. Assim, pode-se dizer sim que há uma diminuição dos direitos das mulheres, no sentido de que há menos proteção social e menos direitos e maior facilidade para as empresas mandar embora sem pagar indenizações etc. Com isso, cria-se uma série de tipos de empregos que são precários e que certamente pioram a condição da trabalhadora, como, por exemplo, o aumento do contrato a tempo parcial, que significa necessariamente também um salário parcial.

P: As mulheres são a maioria nesses empregos precários, não?

H: Sim, as mulheres são nitidamente majoritárias nos contratos desse tipo precário. Os homens são majoritários apenas nos contratos temporários, tipo Manpower, e nos contratos do tipo aprendizagem, como o modelo do SENAI no Brasil, de formação profissional continuada. Todos os outros setores flexíveis e precários, a mulher é majoritária.

P: Helena, você poderia dar uma ideia sobre o significado do trabalho de cuidado?

H: Existem muitas definições sobre o cuidado, mas a primeira ideia é sempre a de que o cuidado é uma relação entre quem cuida e quem está sendo cuidado, duas pessoas, para a pessoa que cuida implica em responsabilidades como a manutenção em vida de outro ser humano – idoso, criança, doente, deficiente físico ou mental, isto é, alguém que seja dependente. Assim, de um lado, temos uma relação de dependência entre quem não tem condições de cuidar de si mesmo, pois já não tem mais autonomia, no caso do idoso, ou ainda não a tem, no caso do bebê, e a cuidadora. As cuidadoras são majoritariamente mulheres, imigrantes – internas (do mesmo país) ou externas (vindas de outro país) –, em geral, pobres. Atualmente há uma mercantilização de um trabalho que no passado era gratuito, realizado pela dona da casa, pela mãe da família etc.

Esse trabalho se profissionalizou e se mercantilizou por duas razões: primeiramente, porque aumentou muito a quantidade de pessoas que precisam ser cuidadas com o aumento da expectativa de vida; em segundo lugar, porque as mulheres cada vez mais estão saindo de casa para fazer parte do mercado de trabalho e, portanto, elas não têm mais condições de cuidar dia e noite de uma pessoa que está em casa e que não tem mais condições de cuidar de si mesma. Assim, o trabalho de cuidado é absolutamente necessário para a sociedade e ao mesmo tempo bastante difícil de ser realizado.

Apesar disso, ele é pouquíssimo valorizado. Basta pensar que se não fossem as cuidadoras, os velhinhos iriam morrer, pois muitos não conseguem se alimentar, se vestir, se limpar etc. A cuidadora tem a responsabilidade de manter em vida aquele que não tem condições de se manter sozinho, que é dependente.No entanto, como costumava ser um trabalho gratuito, em geral as famílias reclamam sobre sua remuneração. O emprego doméstico no Brasil sempre foi muito mal remunerado, com pagamento de cerca de um salário mínimo por uma empregada de segunda-feira a sábado até o meio-dia. As cuidadoras exigem salários superiores.

P: O Brasil tem a especificidade de ser um país que foi colonizado e escravocrata e isso deve ter relação com a maneira como tratamos o trabalho de cuidado. No entanto, a França tem uma história bem diversa. Isso altera a forma como o trabalho de cuidado é visto na sociedade francesa?

H: Na França o cuidado também é pouco valorizado, mas acho que isso está relacionado ao fato de que se trata de um trabalho que ainda hoje pode ser realizado gratuitamente. Assim, qualquer salário comparado à possibilidade de ser gratuito é considerado muito pela sociedade. No entanto, trata-se de um trabalho muito importante de manter o ser humano em vida.

P: Há estudos que afirmar que o trabalho de cuidado tem relação com o trabalho migrante, colocando a trabalhadora numa situação ainda mais vulnerável. É isso que vocês constatam?

H: Sim, essas mulheres estão mais vulneráveis mesmo, pois têm dificuldades para se inserir, para arrumar um alojamento, para conseguir documentos. Aqui na França, muitas cuidadoras não possuem documentos, o que é muito difícil de conseguir mesmo.

Com a globalização, as cuidadoras passaram a sair de seus países para trabalhar em outros, sobretudo na direção do sul para o norte. Esse movimento cresceu tanto que desde os anos 2000, há mais mulheres do que homens que imigram, quando tradicionalmente era o homem que imigrava e a mulher ficava com as crianças no país de origem e só depois o acompanhava. Atualmente é muito comum as mulheres imigrarem sozinhas para trabalharem como domésticas, cuidadoras, auxiliares etc. É um fenômeno muito grande hoje em dia, sendo que muitas deixam marido e filhos em seu país e depois mandam dinheiro para a família.

P: A especificidade do trabalho de cuidado é também que ele é predominantemente exercido dentro dos lares, no ambiente privado. Quais as consequências dessa característica?

H: É muito difícil, por exemplo, a sindicalização das domésticas e das cuidadoras, pois elas estão muito atomizadas nas casas. É difícil organizar quem trabalha nas casas, pois está isolada. É mais fácil organizar as trabalhadoras que atuam em ILPI – instituições de longa permanência de idosos – os conhecidos asilos.

Na pesquisa em São Paulo realizei 40 entrevistas no sindicato das domésticas. Em geral, eram trabalhadoras que haviam sido mandadas embora e estavam lá para a homologação da rescisão contratual. Enquanto elas aguardavam, eu perguntava se elas haviam, como domésticas, cuidado também de idosos. Dessa forma, consegui 40 entrevistas de trabalhadoras que, apesar de contratadas como domésticas, realizavam o trabalho de cuidado.

Atualmente estou fazendo uma pesquisa numa empresa de intermediação de mão de obra, que conectam pessoas que procuram cuidadoras e as trabalhadoras de cuidado. Estou entrevistando pessoas que fazem o curso de cuidadoras nesse lugar e também é uma maneira de ter acesso a essas cuidadoras, pois não é possível fazer a pesquisa domiciliar. Essa abordagem se dá no Brasil, mas também há pesquisa no Japão.

P: Por fim, Helena, quais são as perspectivas para as trabalhadoras na atualidade?

H: Tanto para trabalhadoras quanto para trabalhadores, a situação está muito difícil desde 2015. No mundo capitalista, na Europa, por exemplo, na Grécia, na Espanha, na Itália, em Portugal, na Irlanda, observamos uma crise econômica já há alguns anos. Isso no Brasil ocorreu mais recentemente em 2015, mas em 2016 estamos presenciando demissões em massa e uma situação de retração do mercado de trabalho e parece que a situação de emprego e de trabalho para mulher está complicada. Pessoalmente fico consternada, pois agora há uma legislação um pouco melhor para as empregadas domésticas, depois do que foi conquistado também por meio da OIT em 2013, a legislação de 2015. Agora o que os empregadores têm feito é demitir e contratar por dois dias para não ter que registrar.

Assim, embora a legislação tenha progredido, a situação de crise faz com que as domésticas fiquem novamente bastante vulneráveis. Acho que essa situação se estende às cuidadoras. As famílias tendem a se revezar na esfera não paga do trabalho de cuidado, pois o cuidado passa a ser caro numa família de desempregados ou com salários diminuídos. Certamente o trabalho remunerado de cuidado tende a diminuir. Na própria agência onde estou realizando a pesquisa fui informada de que caiu muito a procura do curso de formação de cuidadora, pois ele tem um custo. Pagar para fazer um curso num cenário de crise é bastante delicado para as mulheres, ainda que essa formação seja necessária para o acesso a empregos bons em São Paulo.

Mesmo sem ter nenhuma bola de cristal, é possível dizer que a situação da trabalhadora não é nem será fácil em 2016, 2017. Uma das possibilidades reais é, num momento como esse, ter uma organização maior para fazer frente a todos os ataques aos direitos trabalhistas por parte do governo. Aparentemente o governo atual não é dos mais simpáticos às causas da classe trabalhadora.

Patrícia Maeda participa da coluna semanal Sororidade em Pauta, em conjunto com as magistradas Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Célia Bernardes, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Gabriela Lenz Lacerda, Renata Nóbrega e Sofia Lima Dutra. Saiba mais sobre quem somos e sobre o conceito de Sororidade.

Quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend