À procura dos derrotados
Terça-feira, 25 de outubro de 2016

À procura dos derrotados

Minha primeira semana como professor na nova faculdade de Direito, fui avisado que na quinta-feira haveria a apresentação do filme “À procura da felicidade”, com debates em sequência. Finda a minha aula, parti para a sala de projeção.

Eu já havia visto o filme. Trata da vida de um norte-americano pobre da San Francisco, que passa uma série de dificuldades financeiras rigorosas, mas que ao fim se torna um multimilionário da bolsa de valores.

Will Smith, ator principal, interpreta a história (baseada em fatos reais) de um adulto que sofre na pele as agruras do início do Neoliberalismo yankee, nos idos de 1981. Chris Gardner, nome do personagem, é vendedor autônomo (trabalho precário) e passa uma série de problemas pela falta de dinheiro. Ele perde a mulher, perde um de seus produtos de venda (o caro aparelho portátil de tomografia óssea), perde o carro (dívida de tickets de estacionamento), perde a casa (atraso no aluguel), perde o pouco dinheiro que tinha em sua conta bancária (confisco direto pela Receita Federal, bem à la USA). Enfim, sofre pesado.

Em meio à toda aflição, vê maravilhado um corretor de ações chegando no trabalho com seu belo carro esportivo, Após impressionar um dos chefes da empresa com a resolução de um cubo mágico (brinquedo que era a febre daquele ano), Gardner consegue ingressar num rigoroso estágio não-remunerado em uma grande corretora, estágio este que representa um processo seletivo para alcançar o emprego. O jogo é o seguinte, ali são 20 candidatos para apenas uma única vaga, vence quem vender mais e conseguir boa nota no exame final. Vinte pessoas durante seis meses de trabalho 100% gratuito para uma gigante da bolsa de valores.

Após muito suor e esforço colossal (e, é claro, com alguma sorte), remando contra todas as incríveis adversidades, Gardner consegue o emprego e passa a viver o sonho americano.

Muito bem, essa foi a história apresentada para cerca de 100 alunos, durante cerca de uma hora e meia. Terminado o filme, iniciaram-se os comentários. Dada voz aos ali presentes, todos exaltaram a bela história de superação do personagem principal. Foi dado destaque ao sucesso alcançado diante de tantas agruras que pareciam intransponíveis. Segundo todos os que se pronunciaram, a moral da história era a seguinte: devemos seguir os nossos sonhos e dar duro para conseguir o objetivo de ter “sucesso na vida”. Todos podemos, basta dar tudo de si.

É claro, aqui “sucesso na vida” é representado por “sucesso financeiro”, aquela chave mestra que supostamente traz tudo que é necessário para a felicidade de uma pessoa no belo mundo pós-moderno ocidental. Horizonte máximo dos nossos dias.

Uma menina da platéia chorou. Disse que se emocionou em todas as 10 vezes que viu o filme. Ela frisou que Gardner narra a história de sua vida dando títulos para cada fase, e achou comovente o fato de que a fase de sucesso é denominada “esta pequena parte da minha vida chamada felicidade”. Segundo ela, era bonito perceber como ele havia sofrido tanto tempo para que em certa altura conseguisse um pequeno tempo de fruição.

Confesso, esse filme já me perturbava desde a primeira vez que vi. Foi então o meu momento de pedir a palavra.

Comecei contextualizando a história do filme com o enredo neoliberal. 1981 foi justamente o ano em que a aventura de Hayek e Friedman tomou corpo nos EUA de maneira mais veemente, primeiro ano de mandato de Ronald Reagan. Lembrei que o emprego que Gardner conquista (corretor de ações) é também um ícone da mudança ocorrida na derrocada da Guerra Fria, quando então o capital especulativo e a desregulação econômica foram vendidos como solução norte-americana para o mundo.

Por outro lado, lembrei também aos alunos que o sofrimento do protagonista não é uma história isolada, pois a realidade do Neoliberalismo fez estender a pobreza e as desigualdades econômicas não só naquele país, mas em todos que aderiram posteriormente ao pacote estadunidense para “combater” a recessão anunciada desde a década de 1970. Que o diga a América Latina sob a batuta do “Consenso” de Washington (1989).

Prosseguindo, abri o jogo sobre o que penso do filme. Tirando o belo exemplo de persistência pessoal e criatividade que, é lógico, merece nossos aplausos, creio que a grande mensagem do filme figura como mais um desses inúmeros contos da triste saga da mitologia meritocrática, jogada ao limite com o homem “empreendedor de si” neoliberal.

Contrariamente à aluna emotiva, não consigo sentir-me feliz por viver num sistema que quer exigir de mim um esforço alucinante durante a vida toda para que eu possa gozar das benesses no final.

Aquela aposentadoria numa casa de praia na Flórida (ou em Angra), remediando a hipertensão e a obesidade quase inevitáveis. Essa aí é bem a mensagem que o sistema adora.

Trabalhem, dêem duro a vida inteirinha na empresa, fortaleçam os lucros alheios, pois no final virá a recompensa.

Ouso desejar um sistema em que possamos fazer das nossas vidas um labor com prazer, sem exploração e sem esforços excessivos. Em que o tempo seja gasto mais com fraternidade e desenvolvimento das virtudes, com mais lazer, com mais liberdade, criatividade, vida.

No fim, supliquei aos presentes que não se esquecessem dos concorrentes de Gardner na disputa pelo emprego. O filme se esqueceu deles, nada mais se conta sobre os rumos que eles tomaram, o que a vida fez com eles. Pois, enquanto a vitória do protagonista possa parecer um caso de sucesso numa visão individualista, a análise coletiva informa uma derrota geral, pois os outros 95% dos candidatos trabalharam duríssimo durante meses, sem remuneração, para ao fim serem simplesmente dispensados. Continuam na fila aflita dos desempregados.

A porcentagem talvez seja mais ilustrativa do que se espera, representando os 5% da população que realmente vive na abundância, o seleto grupo dos incluídos, consumidores plenos. Um modelo social assim só pode ser taxado de “desastre”, é impensável suportar uma organização que queira beneficiar de forma permanente tão pequena parcela, em detrimento da imensa maioria. O defeito é intrínseco.

Não tenho dúvidas de que Hollywood é uma das armas mais potentes da subjetividade das metrópoles dos tempos atuais. A mensagem é forte, a simbologia é marcante em nossas mentes. Os filmes do “work hard” norte-americano conduzem os pensamentos e forjam aquele fio de confiança de que o “sucesso” só depende de você, amaciando as frustrações cotidianas e te mantendo nas casas produtivas. É como aquela cenoura pendurada na frente do cavalo.

É preciso recobrar o aspecto coletivo. É preciso perceber que nosso sistema simplesmente não permite, não comporta, o sucesso individual de todo mundo. Ele é feito para ser assim, essa seletividade está em seu âmago. Banco Imobiliário, Jogo da Vida, até nos brinquedos só existe um vencedor, é assim que nos ensinaram.

O individualismo não quer que as pessoas pensem numa solução geral. Logo, toda a culpa das inúmeras carências deve recair sobre os ombros do próprio indivíduo. Mas o objetivo de satisfação de todos é estruturalmente impossível num sistema assim. Gastamos muito tempo pensando em como ter sucesso individual e nos esquecemos de pensar como arquitetar uma forma de organização social que possa viabilizar o sucesso de todos.

Portanto, se há algo que o filme pode gerar de positivo em nossas mentes, é a lembrança dos 19 derrotados. Não se esqueçam que podemos fazer algo diferente. Não se esqueçam de que a sociedade pode ser muito mais. Não se esqueçam que a política e a economia são feitas por homens como eu e você. Por favor, não se esqueçam dos 19.

Clécio Lemos é doutorando em Direito pela PUC-Rio. Mestre em Direito pela UERJ. Coordenador do IBCCRIM no Espírito Santo. Correspondente do Instituto Carioca de Criminologia no ES. Professor de Ciências Criminais.

Terça-feira, 25 de outubro de 2016
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