A não tão amarga derrota de Aécio Neves no mar de vitórias do PSDB
Segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A não tão amarga derrota de Aécio Neves no mar de vitórias do PSDB

Durante as eleições de 2014, era comum uma piada entre as pessoas de esquerda em todo o país: não digito 45 nem no micro-ondas. Para muitos belorizontinos a máxima continuou válida durante as eleições para a capital de Minas.

Em uma ojeriza confessa ao PSDB, parte do eleitorado, inclusive de esquerda, preferiu votar no pequeno PHS, que tinha como candidato o polêmico cartola Kalil, ex-dirigente do Atlético Mineiro. Assim como Dória, que se apresentou como eficiente gestor e empresário, a campanha de Kalil foi construída em cima da negação do político em si. Kalil se afirmava como um não político, o que arrastou votos de grande parte da população da capital mineira. Compondo a chapa com a Rede, que indicou como vice-prefeito Paulo Lamac, ex dirigente petista, Kalil conseguiu parte também dos votos de uma relutante esquerda no segundo turno. Perder a prefeitura de Belo Horizonte foi o suficiente para vários veículos de comunicação e de grupos ligados ao espectro político da esquerda, do centro, mas também da direita, decretarem o fim do sonho de Aécio de voltar a se candidatar à presidência da República em 2018.

A meu ver, no entanto, a trama do poder nas “montanhas” e fora delas é muito mais complexa e, mesmo Aécio, está longe de ser um perdedor, seja no contexto mineiro ou até no plano pessoal. Mas como pode ser isso? Afinal, quem não conhece o esquema do Aécio?

Afastamento necessário para os intocáveis

O fato de todo mundo conhecer o esquema do Aécio e mesmo assim ele continuar intocável já é um sinal de que sua força não deve ser desconsiderada. Afinal, o senador mineiro foi citado variadas vezes em delações na Operação Lava-Jato, apareceu na lista de Furnas, em documentos de empreiteiras investigadas, se apropriou de um aeroporto construído com dinheiro público e está ligado a escândalos de helicópteros com meia tonelada de cocaína. Se fosse um político ligado ao PT, Aécio já teria sido intimado, de maneira coercitiva, a prestar depoimentos ou estaria preso. Em se tratando do neto de Tancredo, a justiça brasileira não se envergonha ao escancarar sua seletividade investigativa.

Criado na tradição política mineira de saber a hora de agir pelos bastidores, o fato de Aécio não ter sido uma figura de destaque durante o processo de golpe de 2016 pode ter sido bem planejado. Em meio a tantas denúncias na justiça contra membros do Congresso, incluindo os presidentes da Câmara (na época Eduardo Cunha) e do Senado (Renan Calheiros), se resguardar da visibilidade pública pareceu ser uma boa jogada. Obviamente que fazer parte do PSDB também ajudou a ficar longe da sanha de nossa pseudo implacável justiça brasileira, que tende a poupar a elite política da direita. Algo que não tem ocorrido tão efetivamente com o fisiológico PMDB de Cunha e Renan, que espalhou seus tentáculos por, praticamente, todas as ilicitudes da política nacional desde a redemocratização ao final da década de 1980.

A busca por um perfil low profile neste momento também foi adotada por Geraldo Alckmin, principal rival de Aécio na disputa da candidatura à presidência em 2018 dentro do PSDB. Permanecer longe de escândalos, principalmente em um momento em que a Lava-Jato busca se legitimar ao levantar sua mirada para outros partidos e políticos parece essencial para o dirigente paulista, que também não fica atrás na lista de denúncias, que vão de fraudes nas licitações de metrô até roubo de dinheiro de merenda. O único dirigente tucano que não parece se preocupar em fazer trapalhadas – e que também já foi citado nas investigações da Lava Jato – é José Serra, o desastroso chanceler do governo ilegítimo de Temer. Governo que, inclusive, serve de armadura para um avanço ainda maior do PSDB nas próximas eleições. Ao assumir o poder em meio a uma crise econômica e política avassaladora, o PMDB se coloca como o principal responsável pelos rumos que o país vai tomar durante, no mínimo, os próximos dois anos. As dificuldades e os escândalos na esfera federal, que são muitos e estão conectados à administração petista, podem cobrar sua conta em influência política e votos já em 2018, e eles vão afetar muito menos o PSDB, que não está exatamente na linha de frente do governo. De certa maneira, isto já está sendo mostrado nas eleições deste ano.

Surfando nas ondas da vitória tucana

Apesar do PMDB continuar sendo o partido com o maior número de prefeituras no país, o PSDB foi, entre os partidos grandes, o vitorioso nessas eleições. Aumentou o seu número de prefeituras em mais de 15% (o PMDB em apenas 1,67%, enquanto o PT teve uma queda vertiginosa de mais de 60%), indo de 695 prefeituras nas eleições de 2012 para 803 nas eleições deste ano. Foi o partido que conseguiu mais cidades com mais de 200 mil habitantes – 28 ao todo – incluindo 7 capitais, algumas extremamente relevantes, como São Paulo, Belém, Porto Alegre e Manaus. Foi um crescimento nas grandes cidades de mais de 47% em relação às eleições de 2012. Apenas a título de comparação, o PT teve uma queda de mais de 94% nessas cidades, passando de 17 para apenas um município.

E como Aécio pode se aproveitar disso? Essa impressionante vitória ocorre na sua gestão enquanto presidente nacional do PSDB, e, seu discurso em Belo Horizonte já aponta para a tentativa de colheita desta vitória. Ademais, o PSDB não se saiu mal em Minas Gerais. Ganhou metade das cidades que disputou como cabeça de chapa, levando 132 prefeituras. Entre elas, cidades importantíssimas, como o reduto operário de Contagem, terceira cidade mais rica do estado, que estava nas mãos do PCdoB, Governador Valadares, Ipatinga, Conselheiro Lafaiete, entre outros importantes centros. Sem contar as outras mais de cem prefeituras em que o PSDB figura como vice em Minas.

Cantar como certo um suposto declínio político de Aécio baseado nos resultados das eleições em Belo Horizonte me parece exagerado e ingênuo. Aécio continua como senador, com uma equipe de articuladores hábeis, com Andrea Neves cuidando de sua imagem, e, não que seja nenhuma surpresa, intocado pela justiça, como todo bom tucano. Deve-se considerar também que as eleições de 2016 foram atípicas, levadas a cabo em meio às Olimpíadas, a um processo de golpe e a uma forte crise política e econômica que fortaleceu ainda mais a onda conservadora brasileira, com discursos proto-fascistas sobre o fazer político. Não foi à toa que houve um expressivo número de abstenções e de votos brancos e nulos, que se somou a um favorecimento dos candidatos negacionistas da política em si, tanto nas candidaturas de vereadores, como nas majoritárias.

Na aceleração com que vem se dando os acontecimentos, com a Lava-Jato sendo a principal esperança de uma moralização política do país, mas agindo seletivamente, é difícil fazer prognósticos negativos contra o presidente do partido que mais cresceu durante a crise política que ele mesmo ajudou a criar juntamente com uma mídia tendenciosa, um legislativo apodrecido, um judiciário vendido, grupos de empresários corruptos e uma classe média alienada.

Resta a necessidade de se ter um olhar atento sobre o Aécio, Alckmin e esse novo-velho PSDB que sai desse contexto extremamente fortalecido. O futuro próximo é pessimista para as esquerdas. Provavelmente a influência da direita terá um peso exorbitante no meio institucional político pelos próximos seis anos, no mínimo. Dessa maneira, uma das lições que ficam do resultado de 2014 é que não podemos subestimar os rivais – e muito menos os “aliados fisiológicos” -, por mais derrotados e leais que eles pareçam.

Além disso, urge a necessidade imediata de uma reorganização dos campos progressistas, pois para se manter no poder essa nova-velha direita não vai pensar duas vezes antes de fazer alianças com setores ainda mais fundamentalistas e reacionários da nossa sociedade, como, por exemplo, a família Bolsonaro. No mais, eu só desejo estar equivocado sobre tudo o que foi escrito acima e torço para que consigamos lutar por dias melhores.

Luan Aiuá Vasconcelos Fernandes possui graduação em História UFMG. É  mestre em História pela mesma instituição na linha de História e Culturas Políticas. É militante da Muitas, Cidade Que Queremos BH e membro dos grupos de pesquisas “História Política, Culturas Políticas na História” e “Dimensões culturais e políticas do exílio latino-americano.”

Segunda-feira, 31 de outubro de 2016
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