Domingo tem OAB. Melhor parar de pensar
Sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Domingo tem OAB. Melhor parar de pensar

Estudo na Unesp. Regularmente, me formaria esse ano, mas por causa de um intercâmbio, termino o ano devendo duas matérias. Hoje fui na Sanfran entregar a papelada pra poder voltar pra casa e fazer essas restantes fora de Franca. Uma e meia da tarde meu pai me deixou em Presidente Altino pra eu tomar o trem pra Sé. Na mureta um pouco antes da escada que dá acesso à passarela, um mano sentado me pede um troco pra comer um hot-dog. Passo o din e ele pede uma intera pro suco. Completo, pergunto o nome dele – Kléber, ‘com K’, fez questão de frisar – e estico a mão pra me despedir. Ele ignora, e me surpreende com um abraço apertado. Se pá fazia tempo que o Kléber não comia um hot-dog. Se pá fazia tempo que o Kléber não comia.

Subo as escadas e atravesso a passarela olhando Osasco do alto. A especulação imobiliária fode a paisagem, sem descanso. Lá longe, o Pico do Jaraguá é um respiro no meio do mar de concreto e fiação exposta.

Entro no trem. Fecham-se as portas. Os ambulantes reiniciam seu corre. Um senhor de cabelos brancos vende balas Fini por 1 real. No vagão de lá, um menino de uns 10 anos vende pipoca doce. Nos 15 minutos que separam Altino da Barra Funda, nenhum dos dois conseguiu vender nada.

A reação imediata é agradecer pela vida que tenho e parar de reclamar dos meus problemas, que comparados aos do menino que trabalha desde os 10, são pura futilidade. Penso mais um pouco. Percebo que meu raciocínio está invertido. A classe trabalhadora se contenta com as migalhas pela lógica do “podia ser pior”. Mas não. Podia ser melhor. Muito melhor. Pra mim, pro Kléber, e pro menino da pipoca doce. Por um momento, caí na prestidigitação capitalista: a crueldade do sistema exposta no cotidiano nos anestesia tão violentamente, que a única coisa que conseguimos enxergar como possibilidade de mudança social é a tragédia dos de baixo, e assim nos esquecemos por completo da farra dos de cima. Estratégia de alienação das mais perversas.

Faço a baldeação, pego o metrô e desço na Sé. Subo as escadas, saio na Praça. Dezenas de pessoas deitadas no chão. Deitadas em seus quartos. Sigo pela Benjamin Constant. Uma livraria expõe na vitrine a promoção de “A Arte de Roubar”. Provocado pelo título, escapo do êxtase e percebo que minha carteira está no bolso de trás. Moscando no centro de São Paulo. Passo pro bolso da frente e sigo a caminhada apressada cruzando os moradores das calçadas.

Chego no Largo de São Francisco. Não conhecia o prédio. Tudo muito bonito. Piso de mármore e tal. Os alunos ocupam os bancos do pátio. Pretos? Só os seguranças, é claro. Peço informação, chego no setor de graduação, protocolo a papelada, e tomo meu rumo de volta.

Já na Praça da Sé, olho pra Catedral. Paulistano há 23 anos, me dou conta que não conheço quase nada dos marcos históricos da minha terra natal. Sigo pra lá. Nas escadarias, o pessoal da Pastoral da Criança vende trufas pra financiar o trampo lindo que fazem. Compro duas pra ajudar e facilitar o troco. Subindo pra entrar na igreja, outro mano me pede uma força pra comprar uma trufa. Dou uma das que eu comprei, ele agradece. Entro na igreja.

O sol das três da tarde rachando em São Paulo faz os vitrais coloridos brilharem com mais força. Fico um tempo admirando, bobo com a beleza do lugar. Sento num banco e faço minha oração, ao lado de mais um tanto de gente refugiada no silêncio. Minutos de paz pra quem vive com a cabeça a milhão.

Saindo, um grupo de crianças chega para uma visita guiada. Educação da melhor qualidade: tirar a molecada da bolha da sala de aula e deixar que elas ganhem o mundo com os próprios olhos. Assim como na Sanfran, os alunos eram todos brancos. Coincidência? Evidente que não. O privilégio da educação é contínuo e intergeracional. Naquele grupo estavam os possíveis pequenos irmãos dos alunos das Arcadas. Já os possíveis filhos dos seguranças, estão nas salas de aula superlotadas da educação pública. Em 2026, os alunos do grupo passarão no vestibular da USP. Já os filhos dos seguranças, não.

Volto ao metrô. Sentido Barra Funda, um rapaz que devia ter a minha idade vende fones com microfones da Samsung no vagão. Preço lá fora? 25~30 reais. Ali na promoção, quem chega com R$ 5,00 leva. Esse fone provavelmente foi fabricado no sudeste da Ásia. Somados os custos de produção/transporte com a margem de lucro do fabricante e dos vários distribuidores do percurso, me pergunto, como um produto que envolve uma tecnologia até que considerável chega aqui nesse valor? É quase de graça. A resposta, concluo, é o “milagre” da economia capitalista globalizada: matéria prima extraída por via de assalto e, principalmente, emprego de mão de obra análoga à escravidão. Escravidão. Em 2016.

Chego em casa. No Brasil, a cada dois passos dados a realidade te oferece um gancho na boca do estômago. Começo a escrever pra tentar digerir tudo isso. Já no início do processo, me lembro do exame de ordem que se aproxima. Se eu quiser passar, melhor voltar aos “estudos” no meu livro de 5.500 questões. Nada disso que vi e pensei hoje vai cair na prova. Vou focar no que é “importante”. Domingo tem OAB. Melhor parar de pensar.

Vinicius de Almeida é estudante de Direito da Unesp.

Sexta-feira, 25 de novembro de 2016
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