A insustentável leveza da branquitude
Segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A insustentável leveza da branquitude

Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é. Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e seus movimentos tão livres quanto insignificantes. Que escolher, então? O peso ou a leveza?”.

– Milan Kundera

 

No seu famoso romance “a insustentável leveza do ser”, Milan Kundera, utilizando o pensamento de Parmênides em compreender o universo em pares contrários (como luz-sombra, quente-frio, ser-não ser), deslocou a dualidade do peso/leveza para uma perspectiva existencial.

Ocorre que a leveza de vida, o descompromisso do seu personagem principal, causava em outro o fardo pela quebra do vínculo afetivo e de fidelidade.

Essa ótica binomial do peso/leveza também pode ser utilizada metaforicamente para compreender o racismo, sob a perspectiva da branquitude.

De fato, é bastante comum a análise do racismo sob a ótica da vítima – os negros -; contudo, não se pode tentar substituir o “lugar de fala” do negro, o seu lugar social e subjetivo, motivo pelo qual o investigador social branco tem que reconhecer que a questão racial não lhe impõe as marcas e as consequências sociais, econômicas e culturais das populações oprimidas.

Ademais, a compreensão da branquitude faz-se necessária para identificação dos privilégios dos brancos em detrimento da marginalização em que se encontram ainda os não-brancos.

Com a criação das ações afirmativas para a população negra brasileira, reacenderam-se ainda mais os debates e questionamentos sobre nossa formação étnica e sobre a diferenciação entre brancos e negros. Nesse sentido, ser branco “no Brasil está ligado à aparência, ao status e ao fenótipo” [1], resultando daí distinções e privilégios em relação aos não-brancos.

Dessa maneira, a branquitude é entendida como uma posição em que sujeitos foram sistematicamente privilegiados, no que diz respeito ao acesso a recursos materiais, econômicos, sociais, gerados pelos efeitos nefastos do colonialismo e da escravidão. Entender a branquitude é compreender a desigualdade racial pela ótica das inúmeras prerrogativas brancas, individuais ou estruturais, que parte da população brasileira tende a se cegar. Por outro lado, representa olhar o racismo diante das formas de estruturas de poder sociais.

Assim, ao se verificar a exclusão e a marginalidade dos negros persistentes na sociedade brasileira, pode-se efetuar uma leitura direcionada às inúmeras facilidades corriqueiras dos brancos, vantagens que são consideradas “naturais”.

A “leveza” de ser branco – da maior facilidade de acesso à moradia, educação, saúde, da valorização dos seus traços étnicos -, resulta no “peso” da posição subalterna que ocupam os não-brancos na sociedade brasileira. A título de exemplo, no seu excelente trabalho sobre branquitude, a Lia Vainer levantou o fato de que o Relatório Anual das Desigualdades Racional no Brasil (2007, 2008) constatou que os brasileiros brancos vivem em um país com IDH médio equivalente à 44º posição do mundo, ao passo que os negros viveriam em um equivalente ao 104º lugar.

Assim, o mito da democracia racial e o racismo existentes no Brasil colaboram para a perpetuação da rede de privilégios dos brancos, que permanece ignorada.

No caso das cotas, por exemplo, a leitura dos brancos é que a referida ação afirmativa revela um privilégio infundado aos negros, inclusive de negros ricos em detrimento de brancos pobres.

Contudo, parte da sociedade não visualiza que as cotas não constituem um privilégio negro, mas sim não-privilégio branco, parafraseando Parmênides.

É entender que dentro das inúmeras situações de vantagens cotidianas, neutraliza-se a regalia estrutural branca no acesso às universidades, para que a leveza alterne de pólo.

Há a sensação de injustiça ou de privilégio por partes dos não alcançados pelas cotas pelo incomum sentimento de não estarem em um espaço que não os favorece. Não visualizam o abismo e toda a estrutura que os privilegiam, razão que quando o negro se aproxima do seu patamar, causa a sensação que essa elevação é descabida, pois não enxergam o gap social, mas tão somente a ascensão negra. Supõe-se equivocadamente que estão no mesmo nível horizontal, e que afirmação afirmativa concede uma vantagem que não possuem.

Deve-se ter em mente que nascer branco ou ser “lido” como branco na sociedade brasileira é receber atributos positivos, como da concepção estética, educação, progresso, dentre outros recursos materiais ou simbólicos. É saber que não será parado em blitz da polícia por sua cor. É saber que não precisa proteger seu filho contra o racismo sistêmico. É saber que não precisa exercitar diariamente a sua autoestima em relação aos seus traços étnicos. É saber que poderá transitar livremente em lugares públicos sem olhares desconfiados de seguranças e/ou polícia. É saber que não terá sua inteligência desafiada por conta da sua classificação étnica. É saber que os melhores empregos e posições alto poder aquisitivo ou status são ocupados por pessoas da sua mesma cor.

Tem-se que perceber os privilégios vivenciados pela branquitude, como o descompromisso diário com a identidade étnica, a leveza de não se preocupar com a autoafirmação ou cerceamento dos direitos pela cor de pele, contrapõe-se ao fardo constante da população negra. Não obstante, continuamente os sujeitos brancos no Brasil não costumam notar as condições cotidianas de vida que lhe outorgam regalias, ignorando os diversos níveis do racismo que perpassa em nossa sociedade.

Enxergar-se como privilegiado significa receber o peso pela compreensão do favorecimento, ainda que involuntário, do racismo estrutural que se formou na sociedade brasileira. É o passo imprescindível para que se possa efetivamente enxergar o racismo pulverizado que nos assola e que constantemente nos negamos em admitir.

É perceber, por exemplo, que a divisão racial do trabalho e dos espaços sociais tão naturalizada trará grande desconforto. É desiludir-se da utopia da igualdade racial brasileira e refletir sobre a realidade de um país segregado e desigual racialmente.

É, por fim, deixar de lado a insustentável leveza de gozar privilégios pela branquitude.

Sueine Souza é Mestre em Direito pela Universidade Federal em Pernambuco. Procuradora do Estado de São Paulo. Membro do Grupo Olhares Humanos.


[1] Em relação ao conceito da branquitude e prolongamentos sociais, recomendamos o excelente trabalho da: SCHUMAN, Lia Vainer. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistada. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 2012.

[2] SCHUCMAN, Lia Vainer. Op. cit.

Segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
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