O pai de mil medos
Quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O pai de mil medos

De um lado, um escritor. No seu sobrenome, Mãe. Na sua história de ficção “O filho de mil homens”[1], um personagem cujo sonho é viver a maternidade. Vive numa pequena aldeia e, incansável, persegue seu sonho, buscando ali, “uma criança que estivesse perdida ou invisível aos olhos dos outros”.

Crisóstomo, o pescador de filhos, sabia muito. Um homem feminino, sem preconceitos. Um macho, sensível.

Para ele “o homem estava condenado a uma tristeza maior, como se fosse o corpo fraco da humanidade, o corpo menor.” Porque ao homem não era permitido gerar outro corpo. Nas suas palavras, as mulheres eram perfeitas, por escolhidas para a maternidade.

“Somente as mulheres assinavam a pele de cada filho, nunca repetindo entre elas os códigos com que para sempre distinguiam, uma a uma, as pessoas que criavam”.

Numa escrita lúdica, o escritor português, cria um personagem masculino que consegue exercer em sua plenitude a maternidade. Um personagem que chama atenção no lugarejo onde vive. “Crisóstomo delicado, feito de uma virilidade equilibrada pelos sentimentos mais humanos”.

Chamaria atenção se aqui vivesse também o Crisóstomo, pela consciência da importância do que é gerar filhos, ser mãe, ser pai. Pela responsabilidade e beleza de exercer essas funções.

“Aos quarenta anos, o Crisóstomo, com seu inusitado entusiasmo, mudou o mundo”. Tornou-o um lugar melhor.

Do outro lado do Oceano Atlântico, um presidente. No seu sobrenome, Medo.

Na sua história real, de apenas seis meses, tenta mudar um País. Seus alvos: mães, pais e filhos. E também seus sonhos.

Em uma grande nação, age como se invisível fosse seu povo. Ignora suas vontades e necessidades, o despreza. O Medo não sabe muito de sua gente. E não quer saber. Não tem olhos de ver, nem ouvidos de escutar. Não dialoga. Não teme. Não tem nada a temer.

Ao contrário do Crisóstomo, não caminha pelas pequenas aldeias, mas decide qual será o futuro dos que ali vivem. Desvaloriza as mães, que geram a vida. Não as distingue.

Nossa Constituição, como Crisóstomo, o pescador de filhos, enxergou que as mulheres “construíam as pessoas meticulosamente, sem sequer olharem ou se preocuparem demasiado com isso. Construíam-lhes cada osso, cada veia e cada fio de cabelo”. Nossa Constituição pensou nas crianças que nasceriam sob a sua vigência.

Em seu art. 1º, II e III, a Constituição estabeleceu como fundamentos a cidadania e a dignidade da pessoa humana.

No art. 5º, I, a igualdade entre homens e mulheres.

O artigo 6º garantiu como direitos sociais a educação, a saúde, a previdência social e a proteção à infância.

Crisóstomo certamente acharia pouco, porque sempre há mais para garantir e doar. Mas Crisóstomo é personagem de ficção. Voltemos.

O Medo, figura da nossa realidade, acha muito. Acha custoso. E na sua Ponte para o Futuro ameaça as mulheres e as crianças, tira-lhes a perspectiva de mudança para melhor.

Por sua iniciativa, foi aprovada a PEC 55, que congela por 20 anos os gastos com saúde e educação, impedindo investimentos no nosso tão precário sistema de saúde e de ensino. Nega-se às mulheres e às crianças a esperança de um futuro com mais qualidade de vida. Isenta o Estado de cumprir o seu papel constitucional de proteger a infância e assistir aos desamparados (art. 6º).

Mas o golpe de misericórdia, como presente de Natal para fechar 2016 e desejar um feliz Ano Novo, vem através da PEC 287 apresentada no Congresso Nacional pelo Executivo, através da qual são condenados os trabalhadores a mais 15 anos de trabalho, se homens, e 20 anos, se mulheres, para obterem acesso à aposentadoria. Para a aposentadoria integral, passa-se a exigir 50 anos de contribuição.

Com isso cria-se o fim da aposentadoria dos trabalhadores e trabalhadoras braçais, pois não há força, não há saúde que resista a tanto peso e descaso.

Nem nos nossos piores pesadelos poderíamos imaginar uma situação como essa.

A reforma da previdência prevê, ironicamente, igualdade entre homens e mulheres, mesma idade mínima para se aposentar, mesmo tempo de contribuição, provavelmente fundamentado no art. 5º, I da CF/88.

A igualdade que é diuturnamente negada às mulheres, a começar pela nomeação dos integrantes do primeiro escalão deste (des) governo, vem da forma mais hipócrita, mais cruel e machista:

– Mulher, antes de ter seus direitos, trate de cumprir suas obrigações.

Como sempre foi.

E assim segue o tempo real. Triste. O tempo em retrocesso, mas tempo em andamento.

Durante a sua busca incessante, Crisóstomo se deparou com uma mulher que lhe disse: “quem tanto pede o que lhe pertence assim o mundo convence”.

Conclamo as mulheres para que sigamos, pois, em sororidade, com Crisóstomo e Valter Hugo Mãe, nessa luta que não tem dia para acabar. E superaremos o Medo.

Juliana Castello Branco é mulher, mãe, foi juíza do trabalho da 12ª Região (Santa Catarina) e atualmente é juíza do trabalho da 53ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro. Associada à AMATRA1 (Associação dos Magistrados da 1ª Região), à ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho)  e  membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Adora programar e fazer viagens, ler poesias e ouvir MPB. Entusiasta do pensar e fazer coletivos, acredita que a sororidade não vai mais sair de pauta.

Participa da coluna semanal Sororidade em Pauta, em conjunto com as magistradas Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Célia Bernardes, Laura Rodrigues Benda, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega e Sofia Lima Dutra. E se você quiser saber mais sobre quem somos e sobre o conceito de sororidade.


[1] O Filho de mil homens, Valter Hugo Mãe, Biblioteca Azul, 2016.

Quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
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