É preciso desnaturalizar a exploração de outras espécies
Quarta-feira, 22 de março de 2017

É preciso desnaturalizar a exploração de outras espécies

Foto: Reprodução/Chimpanzee Sanctuary Northwest

Tommy e Kiko têm cerca de 30 anos e não conhecem a vida fora da clausura. Vivem enjaulados em cidades do estado de Nova York, nos Estados Unidos, um deles em um estacionamento de trailers e o outro em uma espécie de parque. 

Na semana passada, o advogado deles, Steven Wise, apresentou pedidos de habeas corpus à justiça estadunidense para tentar livrá-los do cárcere privado e garantir sua liberdade de ir e vir. Mas Wise sabe ter poucas chances de uma decisão favorável: já tentou uma estratégia legal parecida em sete outros casos semelhantes, todos sem sucesso, porque como Tommy e Kiko, os clientes eram chimpanzés.

O advogado trabalha para uma organização não-governamental de defesa de direitos dos animais. Há vários anos vem tentando libertar chimpanzés aprisionados em circos ou parques, para que possam viver em santuários onde, embora já não consigam voltar à vida selvagem, podem ao menos ficar fora de jaulas e livres de maus-tratos. 

Nas cortes, afirma que que os animais não deveriam ser tratados como coisas, mas como pessoas. Usa como argumento provas científicas das capacidades emocionais, culturais e intelectuais dos chimpanzés, e sua semelhança genética com humanos.

O pedido de direitos humanos para animais pode causar estranhamento: seria uma contradição? A verdade é que a pergunta sobre direitos dos animais é uma pergunta sobre deveres dos humanos. Em um cenário de dominação de animais não humanos por animais humanos, seja para alimentação, pesquisas científicas, moda ou entretenimento, que responsabilidades temos não só com a preservação do meio ambiente, mas com o bem-estar de outros seres? 

É fácil pensar que não temos nenhuma, e isso tem nome: especismo, ou seja, a discriminação contra outras espécies de animais. A palavra ainda soa estranha para a maioria de nós, que preferíamos não ter que pensar em cuidar de animal nenhum que não fosse um gato ou cachorro de estimação.  

A luta por justiça para animais exige um longo processo de aprendizado para desnaturalizar a exploração de outras espécies em nome de nossos bifes, cosméticos e passeios em zoológicos. O advogado Steven Wise sabe disso, é persistente e até esperançoso: “os juízes precisam ser educados. E eles serão”.

A estratégia deu certo na Argentina há poucos meses: depois de viver anos sozinha em um zoológico, a chimpanzé Cecília ganhou o direito, por um habeas corpus, de viver em um santuário no Brasil.

Sinara Gumieri é advogada e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética. Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas.

Quarta-feira, 22 de março de 2017
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