A comoção seletiva nas situações de violência experimentadas por mulheres
Quinta-feira, 23 de março de 2017

A comoção seletiva nas situações de violência experimentadas por mulheres

Foto: Taciana na Delegacia após prisão/soltura de Advogado (Reprodução)

O dia 21 de março marca internacionalmente a luta pelo fim das injustiças raciais, sendo uma referência histórica ao Massacre de Sharpeville, ocorrido na África do Sul durante a vigência do regime de apartheid[1]. Datas simbólicas impõem uma reflexão maior sobre temas que deveriam ser a principal pauta em discussão nesse país: a sociedade construída e pensada a partir do racismo.

É pela anuência de uma sociedade concebida a partir de uma ideologia de primazia racial e alicerçada na desumanização de pessoas pretas que produz episódios como o relatado pela cabeleireira e ativista social Taciana Cristina Souza Pires. No dia 20, ela foi agredida dentro de um ônibus em Belo Horizonte por um advogado, que a chamou de “macaca’, puxou seu cabelo e lhe deu um tapa no rosto. Tudo isso foi presenciado por dezenas de pessoas que estavam no veículo. O homem foi preso em flagrante por injúria racial mas teve a prisão relaxada após o pagamento de fiança.

Conto a história de Taciana aqui, um relato devidamente comprovado, para demonstrar o quanto o racismo não comove ninguém e o quanto está absolutamente naturalizado na sociedade brasileira. Há algumas semanas, uma mulher branca relatou uma suposta agressão de uma militante negra. Essa moça, que não comprovou absolutamente nada de seu relato, contou com o apoio de muitos indivíduos na rede mundial de computadores. Gerou um sem fim de discussões na internet, pessoas que vociferavam indignadas com a tal da “agressividade” das militantes dos movimentos de mulheres negras.

A moça que relatou que teria sido coagida a retirar um turbante teve direito a viralizar notícias, hashtags e inclusive obteve um contrato de publicidade. Taciana, que foi de fato agredida por um homem branco, levou seu caso as devidas instâncias jurídicas, mas não contou com a comoção e com a indignação de ninguém, exceto de outras mulheres negras. Aliás, o agressor de Taciana disse para ela que de nada adiantaria levar o caso a justiça, exatamente pelo fato de ele ser advogado.

Uma explícita demonstração do quanto a branquitude conhece os seus privilégios e os utiliza em seu próprio favor.

Taciana, por outro lado, relata que sua preocupação era que as pessoas que presenciaram a cena não agredissem o seu algoz, que é um idoso. Essa atitude de Taciana ilustra muito o que as teóricas que se debruçam sobre as vivências interseccionais de classe, raça e gênero têm produzido sobre a constituição do sujeito mulher negra. Deixo essa questão como uma reflexão sobre corpos, linguagens e condutas, sobre o que é socialmente esperado de pessoas em situações de violência e como essas expectativas sociais também informam raça.

É esperado que mulheres negras sejam solidárias a qualquer forma de discriminação, mas quem se solidariza com as mulheres negras? Porque dessas mulheres é esperado uma postura de resignação? Por que somos criadas sabendo que as nossas reações precisam ser ponderadas, justas, retas? Por que somos nós, e sempre nós, aquelas que precisamos dar a outra face? Por que não estamos protegidas das ações de violência como as mulheres brancas (reconhecendo aqui que estas também podem ser alvo de agressões que se dão exclusivamente em razão de seu gênero)?

Parece-me bastante evidente que há “uma diferença dentro da diferença”, apropriando-me aqui das palavras de Kimberle Crenshaw. E essa diferença dentro da diferença fica demonstrada nos dois eventos sobre os quais discorri nesse texto. Basta ter olhos. 24 horas antes do dia dedicado internacionalmente a combater o racismo, Taciana foi violentada por ser mulher e negra.

No dia seguinte, o homem responsável por essa violência, após acessar todos os privilégios que uma sociedade racializada relega a ele, estava impune, mas principalmente a sociedade brasileira seguia sem debater o caso e sem se pensar como construída em cima de violências como essa

Afinal, caras pálidas, o que vocês tem feito para combater o racismo?

Winnie de Campos Bueno é Iyaloríxa do Ile Aiye Orisha Yemanja (Pelotas/RS). Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Pelotas.


[1] O Dia Internacional contra a Discriminação Racial relembra o Massacre de Sharpeville que dizimou 69 pessoas negras desarmadas que compunham um protesto contra a Lei do Passe, uma norma que obrigava as pessoas negras a portar um cartão que determinava os locais onde elas podiam ou não estar. 

Quinta-feira, 23 de março de 2017
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