A busca por uma nova Roma dos trópicos
Sábado, 25 de março de 2017

A busca por uma nova Roma dos trópicos

Foto: Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer – 1978

Uma nova Roma dos trópicos. Era assim que Darcy Ribeiro projetava o Brasil no futuro, uma Roma lavada em sangue índio, lavada em sangue negro e que poderia representar um importante papel no mundo. A beleza de um povo se fazendo a si mesmo, apesar da terrível brutalidade, incapacidade e mediocridade da classe dominante.

O entusiasmo de Darcy pelo Brasil não ficou somente em grandes obras teóricas como O Povo Brasileiro, mas deixou exemplos concretos como a Universidade de Brasília e os CIEPs. O desejo de um projeto de país que renasceria das suas nódoas e cinzas, sem esconder ou negar os traumas do passado, não só seria possível, como inevitável.

Darcy pensou um Brasil voltado para “uma gente que ri quando deve chorar/ 
e não vive, apenas aguenta”.

***

Em Pampulha, foi o desprezo deliberado pelo ângulo reto tão louvado pela arquitetura racionalista feita com régua e esquadro que levou ao nascimento de um gênio. A rebeldia de Niemeyer fez com que a arquitetura penetrasse, corajosamente, num mundo de curvas e formas novas que o concreto armado oferece e mostrou para o mundo a genialidade dos trópicos.

Sobre o nascimento da sua arquitetura, disse Oscar que ela “Era o protesto pretendido que o ambiente em que vivia exaltava com suas praias brancas, suas montanhas monumentais, suas velhas igrejas barrocas”.

Foi o próprio Darcy Ribeiro quem disse certa vez: “Oscar Niemeyer (será) o único brasileiro a ser lembrado, no mundo todo, daqui a mil anos”. Ferreira Gular disse que Niemeyer “criou a poética do concreto armado”.

Uma vez, levado a uma delegacia pelo regime militar, Oscar afirmou em depoimento que sua intenção, como a de milhares de outros brasileiros era tornar o mundo melhor, menos injusto, com mais igualdade e solidariedade, ao que teria respondido o escrivão que reduzia a termo suas declarações: ”vai ser difícil”.

O que esses dois notáveis exemplos que o Brasil produziu possuem em comum era justamente essa vontade livre, nobre e ousada de lutar por um pais melhor. Um Brasil que cumprisse sua sina de uma nova Roma dos trópicos.

A impressão que se tem é que sempre ficamos pelo caminho nessas tentativas. O governo de João Goulart, com suas reformas de base, representava a esperança de milhões de brasileiros que sempre foram deixados à própria sorte, mas uma ditadura que durou duas décadas solapou essas esperanças, jogando o Brasil num abismo autoritário.

Embora não se dê para comparar a ousadia de Goulart com a de Dilma Rousseff, outro golpe de Estado destruiu os alicerces democráticos e, agora, novamente, o pais caminha para o abismo aparentemente sem fim da desconstrução e implosão do pouco que se edificou em matéria de direitos sociais.

E a desesperança, com isso, adquire, novamente, ares de perenidade. Entre a apatia e o choque com o que acontece no Brasil, muitas vezes somos levados a agir como o Bispo do conto de Brecht “O Alfaiate de Ulm”. O religioso, diante de uma tentativa fracassada que levou à morte um alfaiate que tentava voar de cima do telhado de uma igreja, decretou: “Mandem tocar os sinos, foi uma mentira deslavada! Isso é para os pássaros, o homem nunca voará”.

Niemeyer poderia ter se rendido ao ângulo reto, unanimidade à sua época, mas preferiu serpentar o concreto pela Casa de Baile e igreja da Pampulha, criando o espanto de uma arquitetura fiel às curvas das montanhas e dos rios do seu País.

Assim como na arquitetura, é a subversão que na política cria o novo. É justamente a não conformidade, a altivez e a própria consciência que libertará a classe trabalhadora desse xeque-mate a que se vê submetida no xadrez da luta de classes.

A maior lição da geração de Darcy é ter, ao menos, tentado. A de Niemeyer é o espanto da criação, de que o homem pode inventar, imaginar e criar o novo, apesar da aparente fatalidade do ângulo reto, da mediocridade reinante e da desesperança que tentam espalhar por aí como destino manifesto.

De certa forma, a triste sina do alfaiate encontra na música de Ednardo uma resposta à altura: “Não temas minha donzela nossa sorte nessa guerra/Eles são muitos mas não podem voar”.

Patrick Mariano é escritor. Junto a Marcelo Semer, Rubens Casara, Márcio Sotelo Felippe e Giane Ambrósio Álvares, assina a coluna ContraCorrentes, publicada todo sábado no Justificando.

Sábado, 25 de março de 2017
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