O Brasil do século XXI está longe de superar seu histórico conservador e genocida
Quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Brasil do século XXI está longe de superar seu histórico conservador e genocida

O Brasil vive momento de efervescência política, algo que não é novidade. Com uma história marcada por golpes e contragolpes desde a grande invasão do século XVI, a população deste gigante da América Latina parece ter uma consciência política voltada a episódios de ápices e declínios, uma série de subidas e descidas que só desperta o interesse geral em alguns instantes críticos.

Jair Bolsonaro é fruto dessa população. A figura emblemática e mítica do herói salvador de um povo abandonado não é algo exclusivo, mas pertinente e persistente na História. É um fato que o parlamentar vem ganhando cada vez mais visibilidade devido aos seus discursos marcantes, frutos de uma ideologia conservadora que está nas raízes do Brasil. Referindo-se aos Estudos de Gênero como kit gay ou ideologia de gênero, afirmando quilombolas e indígenas como a personificação do atraso e do ócio, ameaçando mulheres e propagando o pensamento patriarcal abertamente, o deputado dá à população aquilo que ela foi acostumada a receber. O discurso de ódio foi naturalizado e faz parte do sangue brasileiro.

Mas Bolsonaro não é o grande problema da questão. Deve-se levar em consideração que o parlamentar não ganharia tanto destaque se não tivesse um número cada vez mais crescente de seguidores, um grande grupo de sujeitos que compactuam com a sua ideologia. Depois, é crucial destacar que a História do Brasil é o registro do conservadorismo e da perseguição, genocídios e torturas, invasão e dominação.

Oficialmente, nosso país abraçou a escravidão negra por três séculos, legitimando-a com todos os discursos possíveis. O negro, raça inferior, deveria passar pela exploração, pois “o cativeiro era até um benefício, assumindo aspecto civilizador sobre seres tão abaixo dos brancos na escala humana” [1]. Em 1888, enquanto último país da América a abolir a escravidão, os escravos são libertos sem nenhuma assistência ou políticas públicas voltadas a sua inclusão na sociedade, acarretando numa segregação que já passa de um século e só cresce a cada ano.

Povos indígenas tiveram suas terras invadidas e roubadas, algo que nunca foi corrigido numa reforma agrária eficiente. O sistema de sesmarias, oriundo das antigas capitanias hereditárias, durou até 1822, sendo corrigido por uma lei que ampliava o direito de posse da elite durante o Império (Lei de Terras – n. 601, de 18 de setembro de 1850) e reforçada na República, que foi, até 1930, controlada pelos latifundiários de apenas dois estados do país [2]. A república brasileira foi dominada pelo coronelismo em sua gênese, ditaduras no amadurecimento e sequências de golpes durante sua curta vida.

A história das mulheres é igualmente preocupante, marcada por exclusões e violências. Mulheres negras no Brasil foram duplamente colonizadas, uma vez pelo capitalismo emergente e a segunda pelo patriarcalismo fundamentado na religião cristã. O voto feminino, por exemplo, só foi aberto durante a Era Vargas (1930-1945). Somente a Constituição de 1988 garantiu os direitos iguais a ambos os sexos, mas com déficits que devem ser corrigidos com políticas de ações afirmativas, como o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. A luta feminina, entretanto, não é apenas pela igualdade, mas pela equidade, entendendo-a como a correção de anos de exclusão e subalternização pela sociedade patriarcal. Os avanços legais continuam com discussões acerca do aborto, tipificação do feminicídio e discussão de gênero.

Completando o quadro, os direitos da população LGBT foram negados durante toda a nossa história, sendo assegurados apenas recentemente e sob muita pressão, mas, ainda, com retrocessos significantes, como a retirada recente dos termos orientação sexual e gênero da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) pelo MEC [3]. Além disso, projetos de lei como o da Escola Sem Partido ameaçam a educação livre e igualitária, impossibilitando as discussões de gênero e sexualidade na educação básica e contribuindo para a perpetuação de pensamentos retrógrados e discriminatórios.

Miguel Arroyo entende como os Outros Sujeitos as populações oriundas das lutas e resistência do campo, dos quilombolas e indígenas, dos povos da floresta, do movimento feminista e LGBT, do movimento negro, pró-teto e moradia, pró-escola e universidade. Historicamente subalternizados, esses Outros Sujeitos ganham visibilidade e protagonismo a partir dos movimentos sociais e ideologias comuns [4]. Num país como o Brasil, que durante 322 anos foi uma colônia europeia, e 67 anos um império governado pelos Bragança de Portugal, os Outros Sujeitos são frutos de uma série de ações conservadoras e genocidas que marcaram substancialmente a nossa História.

O Brasil do século XXI deveria ter superado esse passado macabro. Mas, com figuras cada vez mais autoritárias e ultraconservadoras ganhando destaque e poder político, os frutos do colonialismo não estão nem perto de apodrecer e serem substituídos. O resultado de tantos retrocessos e discursos de ódio contra a resistência ao conservadorismo é o genocídio étnico, cultural e político. A perpetuação da negação, perseguição e exclusão desses sujeitos será a marca de que o povo do nosso país falhou na questão mais básica de qualquer nação: ser humano.

William Bradley Tabosa Mendes é Graduando em História pela faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru. Professor da disciplina nas escolas públicas.


[1] QUEIROZ, Suely Robles Reis de. Escravidão negra no Brasil. São Paulo-SP: Editora Ática, 1987.

[2] ANDRADE, Manuel Correia de. Formação Territorial do Brasil. São Paulo-SP: HUCITEC Ltda., 1995.

[3] AGÊNCIA BRASIL. MEC retira termo “orientação sexual” da versão final da Base Curricular

[4] ARROYO, Miguel G. Que Outros Sujeitos? Que Outras Pedagogias? Petrópolis-RJ: Editora Vozes Ltda., 2012.

Quinta-feira, 13 de abril de 2017
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