Um lugar para ninguém
Terça-feira, 16 de maio de 2017

Um lugar para ninguém

Foto: Reprodução/Agência Brasil

Nesta semana, eu fui pela primeira vez a um presídio: o Instituto Penal Plácido Sá Carvalho, em Bangu, que abriga presos do regime semiaberto e que não pertence a nenhuma facção criminosa. A capacidade é para 1.699 pessoas, mas hoje conta com mais de 3,5 mil. Muitos falaram que estão com o processo vencido, que já cumpriram toda a pena e que poderiam estar em liberdade há meses ou anos. Estão mofando em um lugar onde nenhuma pessoa deveria passar um dia. 

Um “miolo”, que é uma área comum, aberta, com um espaço grande para tantos homens. Uns jogavam futebol, outros treinavam luta, uns cortavam o cabelo do outro, outros trabalhavam organizando o lixo da quentinha. Uma igreja evangélica lotada berrando o dia todo, outra igreja católica vazia, celas com gatos, ratos, baratas, lacraias, moscas e insetos. A caixa d’água com urubu, as celas superlotadas e sujas. Uma biblioteca super arrumadinha com apenas três presos lendo, outra sala pequena lotada com 30 homens tendo uma aula sobre o mito da democracia racial no Brasil. Tema foda, professor negro, olhos e ouvidos atentos. Mas apenas 30 em um universo de 3,5 mil. Vários, do lado de fora, contaram que queriam estudar, mas não tem vaga.

Alguns reclamaram que não têm visita. “Mas como, se no Plácido tem visita todos os dias, exceto terça-feira, e se todos os outros presos falaram que as visitas estão acontecendo de boa e sem mais a revista vexatória?”, perguntei sem entender o motivo. “Eu não tenho ninguém, senhora, família, amigos, ninguém. E nem para onde ir.” 

No isolamento, ficam os presos que foram ameaçados de morte por outros presos. São três celas minúsculas, sem cama e sem nada. Pediam pelo amor de Deus para serem retirados daquele cubículo e levados de volta para as celas comuns. Um chorou ao contar que seu processo já venceu há dois anos. Outro mostrava o laudo médico que atesta a pneumonia já há 15 dias, mas ele continua sem tratamento algum. 

Um navio negreiro de homens feridos. Uns com carinha de 16 anos, outros com 83. E eu pensando qual é o risco que um senhor de 83 anos que não consegue andar sozinho apresenta para a sociedade? Mas se eles não têm o direito de ter uma morte digna, quem dirá uma vida.

O maior problema do Plácido é a saúde: todos doentes, com sarna, micose, doenças de pele e respiratórias, tuberculose, pneumonia, muitas feridas, por todos os cantos, por dentro e por fora. A água que eles bebem é a mesma que usam para tomar banho e usar no banheiro. Fica em um tonel de plástico azul, com uma mangueira que é aberta três vezes por dia. Essa água, aberta e suja, é a que bebem. A enfermaria não tem remédios. Os que conseguem ser levados para a UPA contam que tomam benzetacil e são mandados de volta. E assim seguem morrendo. Só no ano passado, foram 32. Que o Estado matou por não garantir o direito à saúde básica. 

O estado do Rio tem 51 mil presos, onde cerca de 42% (ou 21.450) são provisórios e aguardam pelo julgamento. Há um excedente de 23.871 apenas no Rio. E essas 51 mil pessoas seguem esquecidas.

No “miolo”, um grupo de homens se juntou perto de mim para contar os problemas da unidade. Em determinado momento, um deles olhou dentro do meu olho e perguntou: “senhora, as autoridades lá fora, os juízes, promotores, secretários, o governador… Eles sabem que a gente está aqui nesta situação? Algum deles já veio aqui? Ou eles sabem e é isso mesmo?” Engoli seco e sigo com essa pergunta martelando minha cabeça. Porque é tão óbvio que ninguém deveria estar nestas condições que não é possível que as autoridades saibam e não façam nada.

Thathiana Gurgel é jornalista e assessora de comunicação da Defensoria Pública do Rio de Janeiro

Terça-feira, 16 de maio de 2017
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