Meninas maravilhas: trilhando a Sororidade do futuro
Quarta-feira, 5 de julho de 2017

Meninas maravilhas: trilhando a Sororidade do futuro

“Eu acho que as meninas vão crescer como a mulher maravilha sendo exemplo pra elas, talvez ela até gostem de princesas, mas que elas prefiram lutar, serem destemidas, aventureiras, guerreiras, (….); eu prefiro que as meninas brinquem do que elas quiserem, se vistam de uma maneira não tão aprincesada e que elas sejam felizes, porque esta é a nossa missão, no mundo todo” (Juliana*, 08 anos, de Belém-PA)

 “Eu gostei muito do filme porque ele foi protagonizado por uma mulher, que é protagonizado por uma heroína e ninguém acreditava que ela iria vencer a guerra, nem a mãe dela acreditava, (…); ela venceu o vilão e ela era uma mulher e isso foi o que foi o melhor, uma mulher que venceu um homem, isso foi importante por isso que eu gostei.” (Mariana*, 10 anos, de Belém-PA)

 “O que ficou de lição pra mim é que a Mulher Maravilha pode ser o que ela quiser, porque comparando a todos os personagens do filme ela é a que luta melhor, de todos os deuses, todos os super-heróis (….). Ter um filme só da Mullher Maravilha foi muito bom, eu sempre gostei dela, sempre achei ela legal, mas eu nunca vi por esse outro lado, ver ela lutando. E quando eu sai do filme eu sai muito feliz, eu ganhei uma blusa e troquei lá mesmo e já vim com a blusa dela pra casa.” (Luciana*, 11 anos, de Brasília-DF)

Em 11 de junho de 2017, Patty Jenkins, Diretora do filme Mulher Maravilha, tuitou sobre a receptividade das crianças (meninas e meninos) de um jardim de infância nos EUA, após o lançamento do filme, notícia que viralizou inclusive no Brasil. A partir disso, fui abordada sobre o assunto por um amigo, que acabou de ter uma filha, e está cada vez mais ligado ao universo feminino e feminista, e discutimos o quanto a representatividade importa para as minorias em geral. Inclusive, citou um diálogo com um amigo intelectual negro, que estava super satisfeito de que em breve será lançado o filme do Pantera Negra e o quanto lhe fez falta na infância se ver representado em personagens, quer nas telas do cinema, televisão e em brinquedos.

Como eu mesma já tinha assistido o filme e ficado bastante impressionada com a força da personagem e de sua história, ao abrir mão de uma vida feliz e harmônica na Ilha de Themyscira para “salvar a humanidade” de Ares, o deus da Guerra. E de quanto, ao longo do filme, emana Sororidade – atenção spoiler -, seja quando era festejada por seus parceiros de jornada pelo protagonismo nas batalhas, relembrando-lhes que as vitórias eram do grupo, quer quando salvou a vida da vilã Dra. Veneno, mesmo sabendo sobre as controvérsias do tema para o movimento feminista, eis que criticam, ente outras coisas, a hipersexualidade das super-heroínas, bem como do próprio filme, quando deixou apenas subentendido o lesbianismo na ilha das amazonas.

Mas, como venho aprendendo com as feministas contemporâneas, como, por exemplo com Djamila Ribeiro, não somos obrigadas a convergir em todas as pautas, mas tão somente em respeitar as lutas de cada uma e de todas as outras, pois “a gente precisa lutar em todos os espaços, entendendo como a gente interliga, como a gente dialoga, (…), porque temos que romper essa visão de que para impor o meu particular eu tenho que aniquilar o outro e não pensar uma forma de coexistir com essas diferenças entre nós.” 

Assim, embarquei nesta ideia e resolvi fazer uma breve pesquisa, entrevistando algumas meninas – de 08 a 11 anos – quando perguntei sobre as cenas mais marcantes do filme para elas, bem como qual a lição que tiraram ao final dele. Algumas das respostas, estão no início deste texto e somente reforçam o que Patty Jenkins disse ao final de seu tuíte: “Considere isso um lembrete amigável de que se esse filme mudou completamente o modo como essas meninas e esses meninos pensam sobre si mesmos e o mundo em uma semana, imaginem o que a próxima geração alcançará se lhe dermos mais filmes como Mulher-Maravilha.”

Sim, devemos acreditar firmemente que a mudança de modelos previamente estabelecidos pelo patriarcado, ao longo dos séculos, nos permitirá avanços significativos para as futuras gerações de meninas e meninos. Afinal, não é razoável que, em pleno século XXI, mesmo existindo 101,8 homens para cada 100 mulheres no planeta ainda não tenhamos a mesma paridade em cargos, salários, espaços públicos, bem como a devida representatividade nas artes em geral, seja atrás ou dentro das telas, seja criando roteiros ou desenhando HQ´s (histórias em quadrinhos).

O que é bastante intrigante, na medida em que, mulheres não só representam quase 50% da população do planeta, mas são fração considerável do mercado de consumo, como entretenimento e literário, sendo o público dominante em muitos deles. Ou seja, o que queremos (e merecemos) é suplantar o “Princípio da Smurffet” – tendência da indústria do entretenimento em incluir apenas uma mulher em um conjunto de personagens masculinas -, termo criado, em 1991, pela autora feminista Katha Pollitt, mencionada por Laura Benda, em texto da coluna que tratou de representatividade das mulheres nas telas.

Afinal, essa disparidade contribui negativamente para milhões de telespectadoras, inclusive mirins, na medida em que a construção de personagens estereotipadas dissonam da realidade e não fazem jus à pluralidade do universo feminino, passando a falsa ideia de que a humanidade [1] é composta apenas por sujeitos homens, de preferência brancos e “cis”. E assim finaliza: “Em uma sociedade patriarcal, homens tornam-se sinônimos de seres humanos em geral. Em outras palavras, homens tendem a ser vistos como o padrão da espécie inteira. As mulheres, no entanto, não obstante sejam tratadas como não-sujeitos, atuam permanentemente como sujeitos, seja ratificando o ordenamento social machista, seja solapando-o. As mulheres também fazem, portanto, a história. Já passou da hora dessa história estar encravada também nas telas de cinema.”

Nessa mesma linha, a escritora Dayse Dantas, ao falar de representatividade nas telas diz:

A questão principal é que isso acontece com uma frequência assustadora, em filmes, livros e séries. Um mar de homens de personalidades variadas, histórias próprias e basicamente uma vida independente dentro da obra, sendo ele um personagem principal ou secundário. E aí temos umas duas ou três mulheres, sempre com a mesma descrição, a mesma personalidade e o mesmo objetivo: interagir com os homens!” E prossegue: “Existem vários problemas envolvendo representatividade de mulheres em ficção. O primeiro deles sendo o fato de às vezes elas nem estarem presente. Daí, quando algumas finalmente conseguem seu espaço, são normalmente escritas de maneira superficial, baseadas fortemente em estereótipos e coisas loucas que, francamente, eu só vi mulheres fazerem em ficção mesmo. São sempre meigas, desengonçadas, estabanadas e inteligentes só quando convém. Mesmo você conhecendo uma mulher assim, não se pode generalizar. Isso cria uma imagem errada de como os homens vêem e tratam as mulheres que conhecem – além das próprias mulheres não possuírem boas referências de heroínas e protagonistas para se identificarem. (…) “Precisamos exigir mais que as mulheres da ficção sejam descritas com o mesmo cuidado que os homens, não se baseando em estereótipos ou gêneros para explicar personalidades e ações, e sim em contexto, background e coisas mais sólidas desse tipo.”

Partindo dessa reflexão, acredito que um dos motivos do sucesso do filme da Mulher Maravilha consiste no fato de que, além da excelente construção da personagem pela atriz israelense Gal Gadot, foi dirigido por uma mulher. Deve ser por isso, que a representatividade se fez presente na narrativa das três meninas que entrevistei, que foram unânimes em destacar várias cenas em comum. Mais spoiler: Seja quando as amazonas, em menor número, e armadas apenas com arcos e flexas, derrotam o exército alemão, que invadiu sua ilha. Ou quando a Mulher Maravilha deixa o Front primeiro que os demais soldados, e, indo na frente, fez-se de isca com seu escudo e braceletes para os tiros dos inimigos e assim venceram a batalha, salvando uma cidade ocupada.

Para isso, a diretora mergulhou no passado e nas primeiras versões da personagem, inspirando-se em William Moulton Marston, criador dos quadrinhos, um homem que, na década de 40, já se intitulava feminista, defendia o amor livre e vivia uma relação de poliamor com duas mulheres fortes, Elizabeth Holloway e Olive Byrne. Em 1911, a primeira estudava na Mount Holyoke College de South Hadley, em Massachusetts, a primeira faculdade para mulheres nos Estados Unidos. Naquela época, universidades como Harvard ainda não aceitavam mulheres. Holloway era uma sufragista e integrava a Liga do Sufrágio Igualitário, que, na virada do século XX, lutava pela igualdade de gênero, especialmente o direito ao voto. Enquanto Olive Byrne, era filha e sobrinha de ativistas, que participavam do comitê Feminino do Partido Socialista, sua tia Margaret Sanger, inclusive, é famosa pelo ativismo para o controle de natalidade americana.

O próprio Marston afirmava, na época, que se inspirou nessas mulheres para criar a personagem. Inclusive, estudos mais recentes, como o livro “A história secreta da Mulher-Maravilha”, de Jill Lepore , recentemente lançado no Brasil, defendem que suas mulheres Holloway contribuíram diretamente – seria elas co-autoras? – na criação da personagem. Tanto que, em certo trecho a autora destaca: “O Superman tem sua dívida com a ficção científica, o Batman, com os detetives particulares. Porém, a dívida da Mulher-Maravilha é com a utopia feminista e com a luta pelos direitos das mulheres. Suas origens estão no passado de William Moulton Marston e na vida das mulheres que ele amou — elas também criaram a Mulher-Maravilha.”

O primeiro capítulo do livro traça a trajetória do jovem William, estudante de Harvard, que, àquela época, sem uma motivação maior para viver, tinha ideias suicidas, mas delas se afastou quando passou a ter contato com os ideais feministas do início do século XX. Para tanto, foi fortemente influenciado por George Herbert Palmer, professor de Filosofia, viúvo de Alice Freeman Palmer, que fora presidente da Wellesley College, ardorosa defensora da educação feminina e sufragista.

Já nas primeiras aulas, William ficou fascinado com o pensamento de Aristóteles e Platão, ocasião em que o professor bem frisava que quando falava que “o homem era um ser racional em corpo físico dos sentidos” referia-se a homens e mulheres, destacando “meninas também são seres humanos.”A igualdade dos sexos estava entre os compromissos políticos e intelectuais do professor, que era padrinho da Liga Masculina de Harvard pelo Sufrágio Feminino. Nesta condição, o estudante William acompanhou a luta daqueles que eram a favor do Sufrágio contra o conservadorismo dos dirigentes de Harvard, quando impediram a palestra da sufragista britânica Emmeline Pankhurst, o que causou grande comoção, com publicações de diversos jornais da época, favoráveis à causa, causando grande constrangimento aos dirigentes contrários ao movimento.

Como sabemos, o mundo era muito diferente do que hoje, as conquistas femininas eram poucas e recentes. As mulheres haviam acabado de obter o direito de voto, nos EUA a partir de 1920 e no Brasil desde 1932, e lentamente começavam a ocupar o mercado de trabalho, mesmo que para suprir a falta de homens, enviados à Europa para lutar na Segunda Guerra Mundial.

E tudo isso lhe serviu de inspiração, para mais tarde, criar sua grande heroína. Tanto que, em 1941, ao apresentar a personagem, no gibi All Star Comics, uma espécie de almanaque de heróis da DC Comics, disse Marston: “Finalmente, em um mundo dominado pelo ódio e pela guerra dos homens, surge uma mulher para quem os problemas e proezas masculinas são meras brincadeiras de criança – uma mulher cuja identidade é desconhecida de todos, mas cujos feitos sensacionais são excepcionais em um mundo em rápida transformação”. E assim a descrevia: “Com força e agilidade cem vezes maiores do que as dos nossos melhores atletas e mais fortes lutadores, ela vem do nada para vingar uma injustiça e consertar as coisas.”

Tim Hanley, autor do livro Wonder Woman Unbound: The Curious History of the World’s Most Famous Heroine (editora Paperback, Mulher-Maravilha Desvendada: A Curiosa História da Super-Heroína Mais Famosa do Mundo, em tradução livre), ainda sem tradução no Brasil, descreve bem os preceitos do criador dessa heroína: “William Moulton Marston acreditava que as mulheres eram superiores aos homens e logo iriam dominar o mundo. Ele viu nas revistas em quadrinhos um veículo para levar suas teorias aos mais jovens. Diana foi criada para demonstrar a força, o poder e a compaixão das mulheres. A intenção era, primeiro, acostumar os meninos à ideia de que as mulheres eram mais fortes e poderosas, e assim facilitar a implantação do matriarcado; segundo, inspirar as meninas a se tornarem fortes e poderosas.”

Por todo o seu legado, o sufrágio também está no filme (outro spoiler) em forma de piada, que só consegui perceber na segunda vez que vi o filme – sim eu fui duas vezes. E também foi lembrado por uma das meninas entrevistadas, a menor delas, que disse: “que a Mulher-Maravilha é um ótimo exemplo para todas as mulheres que nunca puderam votar, nunca puderam trabalhar como os homens trabalham, porque antigamente as mulheres nem votar podiam.”

Credito a essa mistura, entre o respeito à essência da personagem e da luta das mulheres ao longo da história, entre as quais o sufrágio, acrescido do novo momento em que passa o movimento feminista, o sucesso de público da película, agradando Hipólitas, Antiópes e Dianas, meninas e mulheres. Meninas de uma nova geração, já acostumadas com protagonistas fortes e distanciadas dos velhos esteriótipos das mocinhas indefesas, retratadas em filmes de animação recentes como Ana e Elza de Frozen, Moana, do filme homônimo, Jude de Zootopia e Riley de Divertidamente. E na produção nacional temos a linda Tainá, uma índia corajosa e guerreira, para mencionando apenas alguns exemplos. E mulheres, da geração X e Y, que se ressentiam de não ver suas heroínas – sim elas, assim como a Mulher-Maravilha, sempre existiram – como: Jean Grey, Tempestade, Mulher-Aranha, Viúva Negra, X-Hulk, Capitã Marvel, Miss Marvel e BatGirl e Super-Girl, para citar apenas algumas, no lugar devido, de verdadeiras protagonistas de suas histórias e lutas. Todas felizes e sentindo-se bem representadas. 

O que nitidamente me chamou a atenção durante as entrevistas, porque também conversei com as mães da meninas e elas tiveram o mesmo sentimento em relação a elas e suas filhas. Uma delas, cinéfila e fã de quadrinhos e super-heroínas assumida, me relatou:

“Eu acho que a existência de filmes como protagonistas mulheres fortes e donas de si, independentes, é que a gente consegue se ver, muito diretamente no exemplo delas. Eu sou muito fã de filmes, eu gosto muito de filmes de super-herói, quando eu era criança eu assistia o filme do Indiana Jones, Superman, eu claro que eu me identificava com a coragem e os valores que eles estavam passando, com as atitudes deles, mas era uma identificação mais distante, (…) eu tinha me imaginar naquela situação, mas eles não eram mulheres, eram homens e a Mulher-Maravilha não, eu não preciso passar por esse filtro, ela está completamente ali, me dando esse exemplo e me representando. Então esse filtro que a gente não precisa passar quando o personagem nos representa diretamente acho que causa um impacto muito maior, o filme realmente me impactou e me emocionou, de ver uma mulher poderosa daquele jeito, como eu via tantos homens poderosos nos filmes deles, esse impacto me fez perceber o quanto pessoas, por exemplo, que são asiáticas, negras, que são minorias representadas nos filmes de Hollywood como eles também têm que fazer esse filtro que a gente faz, por ser mulher e é muito difícil para os homens entenderem isso, para os homens brancos entenderem isso, porque são representados o tempo todo, isso pra eles é muito natural, então eu espero que com mais filmes assim a minha filha, a minha neta e as crianças que estão crescendo hoje possam se ver representadas. E é possível ver que os meninos também gostam muito da Mulher-Maravilha, eles conseguem fazer esse filtro e identificar nela os valores que eles queriam ter, assim como a gente passou a vida inteira fazendo a partir dos heróis masculinos, então porque não mostrar heróis de todos os gêneros e raças. O próximo filme da Marvel vai ser o Pantera Negra, vai ser muito legal porque ele é um super-herói negro e muito poderoso e também os meninos que são negros e que quase não veem os bonecos com a própria cor, sendo representados, vai causar um impacto bem grande neles, espero que o filme seja ótimo.”

A outra, mãe da garota que voltou pra casa com a blusa da Mulher-Maravilha, me disse: “Eu mesma notei o quanto ela chegou diferente em casa, ela já chegou com outra roupa, trocou no cinema, era uma blusa da Mulher-Maravilha e falando muito, mãe ela que defendia, o laço, o braço, ela diz espera que eu vou na frente; (…); e pelo relato dela depois da entrevista eu percebi que não era só impressão e a gente fica tão feliz com o avanço da nossa sociedade e avante!”

A partir dessas escutas, vejo que foi bem acertada a conclusão de Adriana Amaral, professora de pós-graduação em Comunicação da Unisinos, pós-doutora em Mídia e Cultura pela University of Surrey e pesquisadora de cultura pop pelo CNPq e declaradamente nerd da geração X, ao falar sobre o filme:

“Mulher-Maravilha é esteticamente o filme que todas as garotas nerds da geração X – a minha – esperavam ver, com bons momentos de ação, toques de humor feminista, um figurino belíssimo, uma trilha sonora marcante e a direção de Patty Jenkins que imprimiu emoção e sensibilidade a um filme de aventura/ação, certamente impactando na forma como as super-heroínas serão retratadas no cinema daqui para frente. Em tempos tão complexos como os nossos, só o impacto cultural que essa representatividade terá para uma série de garotas é importantíssimo. Ele já pode ser percebido nos comentários e nas fotos que começam a circular pela internet, como em uma imagem na qual uma menina usando uma roupa de Mulher-Maravilha olha com admiração para a personagem no cartaz do filme da Liga da Justiça. Foi preciso que a sua filha pródiga, a super-heroína mais importante da editora, retornasse para que o fôlego das produções cinematográficas do universo da DC fosse retomado em uma só laçada. Longa vida à deusa Diana!” 

Que pena que, mesmo diante de tudo isso a Mulher-Maravilha tenha perdido o título de Embaixadora Honorária para o Empoderamento das Mulheres e Meninas em uma campanha pela igualdade de gênero, da ONU, por ter sido considerada super sexualizada, sem que, contudo, tenham respeitado as demais qualidades de sua personalidade.

Mas nem todas as batalhas estão perdidas. Dentro dos novos saberes dos feminimos, ouso acreditar que a indústria do entretenimento – lógico sem se descuidar da combinação do bom momento com o lucro – vem tentando fazer as pazes com o “Princípio da Smurffet”, bem como preeencher diversas lacunas de representatividade, tanto que no filme Smurffs e a Vila Encantada, lançado este ano, Smurffet e seus amigos encontram uma vila repleta de meninas azuis, fortes, bem-humoradas e independentes.

Assim, seguimos empoderadas, sem nos descuidar de outras lutas, ansiosas pelo retorno da Mulher-Maravilha na Liga da Justiça, ainda esse ano, pela estreia do filme do Pantera Negra em 2018 e da Capitã Marvel em 2019. E sonhando, para que, nesta cadeia de empoderamento das minorias, Nubia, a irmã negra da Mulher-Maravilha possa com ela co-protagonizar um filme, escalando-se uma negra como as atrizes americanas Viola Davis e Lupita Nyong’o ou nossa afrodescendente Taís Araújo, bem como deixem definitivamente o Lanterna Verde sair do armário.

Assim, seguimos preparando os novos caminhos com mais força e poder, para que essa nova geração de meninas trilhem melhores estradas, pois ao estrearem a idade adulta estarão mais empoderadas e cientes de seu papel e importância, reconhecendo o real significado de representatividade e de palavras como Sororidade, Igualdade e Humanidade, que podem ser o que elas quiserem, pois o fundamental na vida é ser feliz do jeito que se é.

Para isso, nós mulheres adultas não podemos nos descuidar de nossos papéis, através do diálogo, mas principalmente com nossos exemplos e ações. Assim, termino com dois trechos das lições lançadas por Chimamanda em seu festejado livro “Para educar crianças feministas: um manifesto”[2]: 

“3. TERCEIRA SUGESTÃO: Ensine a ela que “papéis de gênero” são totalmente absurdos. Nunca lhe diga qye fazer y deixar de fazer alguma coisa “porque você é menina”. “Porque você é menina” nunca é razão para nada. Jamais. (…). Se não empregarmos a camisa de força do gênero nas crianças pequenas, daremos a elas espaço para alcançar todo o seu potencial. Por favor, veja Chizalum como indivíduo. Não como uma menina que deve ser de tal ou tal jeito. Veja seus pontos fortes e seus pontos fracos de maneira individual. Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma. (…) Os esteriótipos de gênero são tão profundamente incutidos em nós que é comum os seguirmos mesmo quando vão contra nossos verdadeiros desejos, nossas necessidades, nossa felicidade. É muito difícil desaprendê-los, e por isso é importante cuidar para que Chizalum rejeite esses esteriótipos desde o começo. Em vez de deixá-la internalizar essas ideias, ensine-a autonomia. Diga-lhe que é importante fazer por si mesma e se virar sozinha. Ensine-a a consertar as coisas quando quebram. A gente supõe rápido demais que as meninas não conseguem fazer várias coisas. Deixe-a tentar. Ela pode não conseguir, mas deixe-a tentar. Compre-lhe brinquedos como blocos e trenzinhos – e bonecas também, se você quiser.

(…)

NONA SUGESTÃO: Dê a Chizalum um senso de de identidade. É importante. Esteja atenta a isso. Faça com que ela, ao crescer, se orgulhe de ser, entre outras coisas uma Mulher Igbo. E você deve ser seletiva – ensine-a a abraçar as partes bonitas da cultura igbo e ensine-a a rejeitar as que não são. (…). Ensine-lhe a sentir orgulho da história dos africanos e da diáspora negra. Encontre heróis e heróinas negros na história. Existem. Você talvez precise contradizer algumas coisas que ela aprenderá na escola – o currículo nigeriano não é muito imbuído da ideia de ensinar as crianças a sentirem orgulho de sua história. Os professores serão ótimos em ensinar matemática, ciências, artes e música, mas você mesma é que terá de lhe ensinar orgulho. Ensine-lhe sobre privilégio e desigualdade e sobre a importância de dar dignidade a todos os que não querem prejudicá-la – ensine-lhe que os trabalhadores domésticos são humanos como ela, ensine-lhe a cumprimentar sempre o motorista. Associe essas expectativas à identidade dela – por exemplo, diga: “Em nossa família, quando se é criança, cumprimenta-se os mais velhos, não importa o serviço que fazem. (…).”

Façamos a nossa parte, por nossas crianças, meninos e meninas, a humanidade e o futuro agradecem!

Elinay Melo é Juíza do Trabalho Substituta no TRT 8ª Região. Especialista em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo CESIT/Unicamp. Diretora Financeira da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 8ª Região – AMATRA8 (Biênio 2016/2018). Membra da Associação Juízes para a Democracia (AJD).


Compõe a coluna “Sororidade em Pauta” em conjunto com as magistradas Ana Carolina Bartolamei, Célia Regina Ody Bernardes, Claudia Maria Dadico, Daniela Valle da Rocha Müller, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Janine Ferraz, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Lygia Godoy, Naiara Brancher, Nubia Guedes, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega, Gabriela Lenz Lacerda, Roselene Aparecida Taveira, Simone Nacif, Valdete Souto Severo e Janine Soares de Matos Ferraz.


*Os nomes são fictícios para resguardar a identidade das menores.

[1] Tanto que para o inglês a tradução de humanidade advém de “mankind”

[2] São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Quarta-feira, 5 de julho de 2017
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