A não-violência funciona para negros?
Segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A não-violência funciona para negros?

Advogado Iuri Chianca de Araújo (à direita), aprovado como cotista racial em concurso público do TRE-SP. Foto: divulgação/OAB PB

Em 1967, o ativista Stokely Carmichael fez um discurso no qual criticava a perspectiva do uso da não-violência, pregada por Martin Luther King com os boicotes aos ônibus de Montgomery, como estratégia para luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos. Naquele momento, Carmichael apontava que esse caminho era uma solução passiva, pois King acreditava que haveria uma compaixão do oponente ao perceber o sofrimento dos manifestantes, e esse sofrimento levaria à superação da situação de opressão. Com isso, e o que marca a fala como uma referência usada por muitos anos contra a ideia de que negros não deveriam “reagir aos ataques promovidos pela supremacia branca”, Carmichael conclui: para que o princípio da não-violência funcione, o oponente deve ter consciência, algo que os Estados Unidos não têm. A compaixão para com o outro implica em ver o outro como sujeito e digno desse sentimento. E em diversos casos isso não acontece.

Gosto particularmente da força que essa referência, somada à fala de Angela Davis sobre o que significa perguntar a um negro sobre violência diante de todas as experiências de existência, marcadas pela violência perpetrada pela supremacia branca, possui para pensarmos sobre nossa reação diante das ações, atitudes, falas e situações que nós negros enfrentamos cotidianamente na diáspora. Sim, pois as referências citadas acima são norte-americanas, mas a violência contra nós negros é muito próxima – em termos de estratégias e resultados desejados pela supremacia branca, ou seja, a aniquilação e supressão da vida (estabelecida enquanto princípio de vida digna) negra. No entanto, gostaria de propor um outro olhar para a violência, para daí, defendê-la.

A violência realizada pelo sistema de opressões é uma violência real e estruturalmente realizada. Isso significa que todas as ações que são impostas pelo opressor, em prol da manutenção e fortalecimento da dominação, são ações próprias de uma violência estruturalmente consolidada, que se impõe de forma explícita e agressiva – como a aniquilação dos corpos – ou de maneira “quase-benevolente”, ou seja, a violência que emana do falso elogio ou da falsa ideia de tolerância que mantém, na perspectiva ética, a diferença respaldada na desigualdade vivida pelos corpos negros.

Stokely Carmichael, em 1966.

Mas essa violência não é a única. Há também a violência nomeada, ou seja, a concepção do que é violência gerada pelo sistema opressor, mas não exercida e sim nomeada por ele. Violência nomeada é uma ideia de violência construída em discurso e mobilizada publicamente contra aqueles que supostamente a exercem. Uma das principais diferenças é que essa violência nomeada costuma ser atribuída ao oprimido. Ele é o agente principal nomeadamente violento e tal nomeação garante a deslegitimação do ato (geralmente reativo) de resistência do oprimido, em grande parte efeito das violências sistêmicas que ele vivencia. Ao contrário da violência sistêmica, a violência nomeada é discurso e não produz dados ou estatísticas efetivas, tão pouco pode (ou deveria) ser objeto de atenção de movimentos ou políticas públicas.

Em termos ilustrativos do que é a violência nomeada, podemos incluir alguns fenômenos – recordes de likes e comentários em sites na internet – como é a ideia de racismo reverso ou da agressividade dos negros. Ainda nesse grupo de violência nomeada se enquadra algumas atitudes como a de intelectuais brancos que trabalham com questão racial no país, mas são contra cotas (muitos dos quais se manifestaram há cerca de 10 anos para fazer, ativamente, um manifesto anti-cotas – tipo de energia não demonstrada, por exemplo, para organizar passeatas ou ações enérgicas contra racismo que assassina negros a cada 23 minutos no país ou mantém invisibilidade de pensadores e intelectuais negros nessa mesma academia…) e acusam os defensores de cotas raciais de serem nomeadamente violentos ao apoiar uma medida que levaria a racialização do país e divisão, incitação do ódio racial (bem risível isso e inacreditável, como diria Abdias do Nascimento…). Ou seja, esses intelectuais brancos denunciam e “esclarecem” a população, em discurso, acerca da violência nomeada exercida pelos movimentos negros.

Toda afirmação que evidencia a realidade racista de manutenção efetiva violenta da supremacia branca – respaldada no elitismo classista do neoliberalismo, e nas operações constantes de apagamento sexista – é nomeada como violenta pelos mesmos perpetradores do sistema. Toda reação – respaldada em estatísticas, dados, teorias, reflexões, exemplos e mais exemplos – é tomada como uma reação equivocada, desmedida e passional, portanto nomeadamente violenta, e que não encontraria espaço em uma sociedade democrática e pluralista – essa mesma que assassina negros a cada 23 minutos ou ampliou a violência contra mulher negra em 54% nos últimos anos.

 

Numa sociedade racista, violento é o negro que identifica a opressão que sofre e que responde a essa opressão visando acabar com ela.

 

Ainda nessa seara, como foi divulgado recentemente, entram muitos dos questionamentos contrários aos chamados Tribunais Raciais, nos exames e concursos que existem cotas raciais, como um exemplo de violência (nomeada) dos negros (ou racialistas) contra sociedade. Um caso emblemático (vários, na verdade) é a quantidade de fraudes de pessoas lidas como brancas que se utilizam de cotas fazendo resgates e, não há outra expressão melhor para isso, forçações absurdas de barra para se utilizar das prerrogativas estabelecidas pela discriminação positiva que visa garantir acesso aos negros e possibilidade de, paulatinamente, reduzir as desigualdades de acesso e oportunidades. Mais uma vez: negros que são a favor desses tribunais estariam cometendo violência nomeada, “racializando um país que não faz distinções ou negando a história de indivíduos que têm um ‘pretinho’ na família (mesmo que lá longe na árvore genealógica…)”. As usual, os negros são os inconvenientes e desagradáveis, que ficam negando sempre o direito de pessoas brancas de exercer “sua liberdade”.

Pois bem, é sobre essa violência nomeada que reivindico uma defesa, uma ode. Aproprio-me da ideia de Carmichael, mas em contexto específico dessa violência nomeada, para dizer que o princípio da não-violência – ou que seria por aqui o já conhecido “vamos negociar”, “não é por aí”, “nem todo mundo”, “mas eu também” ou ainda individualizações de discursos constantes – não pode ocorrer diante da falta de consciência da branquitude brasileira. É preciso entender que amenizar o racismo no Brasil, o mesmo que continua vendendo uma falsa ideia de democracia racial, ao se compactuar com a ideia que o racismo no Brasil não é tão violento assim, é reproduzir uma falácia, dado que estamos falando num país que a cada 23 minutos mata um jovem simplesmente por ele ser negro.

Essa falta de consciência racial, ou “consciência racial da branquitude brasileira”, não é apenas um enviesamento acerca da experiência histórica racial, mas ela se configura como uma falta de consciência de fundo moral. É uma não consciência respaldada pela negação em reconhecer a realidade efetiva de corpos e vidas que são tratadas com desprezo, com vidas que são entendidas como não-dignas de luto, preocupação e cuidado que se mantém na nossa atualidade e vidas. Ela é moral.

A falta da consciência moral própria do racismo à brasileira é uma crise moral historicamente consolidada, uma crise que não reconhece, dentro dos paradigmas do estado de direito e de humanidade (a partir do estatuto de direitos humanos de sociedades moderna), a humanidade desses corpos, dessas vidas.

Uma consciência que se afirma ao ignorar a violência efetiva do sistema, esconde-se hipocritamente no discurso da violência do Outro, da violência nomeada, a qual não produz efeitos perversos nem aniquilações, em suma porque ela não é propriamente uma violência. A violência nomeada não mata, não precariza, não destitui a dignidade da vida humana, tão pouco corrobora com o sistema de opressões que marcam a existência desses “nomeadamente violentos”. A violência nomeada é uma defesa de negros.

A “violência nomeada”, própria de nós, inferiorizados na escala de acessos, privilégios e dignidade, deve ser cometida. Sim, pois ela é a nossa reação diante de tantos ataques e tentativas de subjugação da supremacia branca, neoliberal e sexista. Nomear é um ato de poder, nós negros precisamos do mínimo que puder nomear a violência que nos atinge. É na tal violência nomeada que afirmamos nossa forma de reafirmamos que existimos e resistimos. Sejamos, então, nomeadamente violentos.

Tulio Custódio é Sociólogo, curador de conhecimento Inesplorato, criador do Pitacodemia, membro do Coletivo Sistema Negro. 

Segunda-feira, 28 de agosto de 2017
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