Doria é tão moderno quanto o Sujismundo criado na ditadura
Segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Doria é tão moderno quanto o Sujismundo criado na ditadura

Foto: Cesar Ogata/Secom

Raros são os prefeitos que alcançam unanimidade, mesmo que seja em relação a um único programa ou projeto. Kassab conseguiu essa proeza com o Cidade Limpa, iniciativa que proibiu outdoors, painéis, banners e estabeleceu regras para letreiros de estabelecimentos comerciais, colocando um basta no exageros da publicidade e despoluindo a cidade visualmente (tudo bem que o então prefeito também ficou marcado pela perseguição a bordéis, mas ninguém é perfeito).

João Doria quer reformar a lei e liberar painéis e anúncios que podem chegar a 300 metros quadrados. Essa medida só seria possível para locais de grandes eventos, como estádios (mas apenas para efeito comparativo, um outdoor padrão mede 24 m²) e não é coincidência que esteja sendo defendida pela prefeitura simultaneamente à venda do Pacaembu.

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Aliás não é demais lembrar que há apenas dois meses Doria havia prometido que o Pacaembu seria privatizado porém permaneceria classificado exclusivamente como local de atividades esportivas. O projeto depois aprovado pela Câmara Municipal libera para o estádio para eventos de ‘entretenimento’. Pegadinha.

Com sua verve de publicitário sem limites, Doria já vinha burlando a lei de Kassab e permitindo placas em praças mantidas por empresas que são ‘parceiras’ do prefeito. Sim, parceiras do prefeito, não da prefeitura nem da cidade porque até hoje anda complexo decifrar quem está doando, quanto e com qual finalidade. O prefeito sempre responde que não há contrapartidas. Ahan.

O estilo Doria de dizer uma coisa e fazer outra, de propagar seu amor pela cidade ao mesmo tempo em que trabalha para permitir ações que a médio e longo prazo trarão prejuízo no bem estar da população, tem provocado abalos sismicos constantes nas secretarias da gestão.

O secretário do Verde, Gilberto Natalini, estava pegando pesado contra empresas parceiras de Doria e denunciando irregularidades. Foi demitido por João Doria, claro. Em seguida, praticamente toda a equipe de Natalini pediu demissão, em protesto.

Por suas medidas autoritárias e prejudiciais à cidade, o gestor tem causado revolta até mesmo em quem foi chamado para formar sua equipe e vem enfrentando desmontes sistematicamente.

Com suas medidas que andam na contramão – e em alta velocidade – João Doria afirma ser um ‘prefeito global’ quando a realidade é que o número de mortes apenas de ciclistas aumentou em 75%.

O caixeiro-viajante prega seu Cidade Linda através dos microfones, mas em suas andanças mundo afora dedica-se a negociar cada metro quadrado disponível. E quando atingido por algum protesto, como quando teve o muro de sua casa pichado, coloca gente da prefeitura (cujo salário sai do seu bolso, leitor) para limpar a lambança. Sim, Paloma Oliva, que foi fotografada com rolo não mão, cobrindo a pichação, é supervisora de Esporte e Lazer da prefeitura. E, adivinhe, integrante do MBL. Que coisa, não?

O prefeito quer tudo limpo e bonito desde que nas suas adjacências. O restante da cidade está ao bel prazer de especuladores porcalhões e ele mesmo joga objetos ao chão (fez isso num protesto de ciclistas) e descumpre leis de trânsito.

O gestor moderno, na verdade, está mais para Sujismundo, o personagem ‘educativo’ dos anos de chumbo, quando os militares patrocinavam campanhas na linha “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Mauro Donato é Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo. 

Segunda-feira, 4 de setembro de 2017
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