Esquerda precisa de união se não quiser ser engolida nas urnas em 2018
Terça-feira, 31 de outubro de 2017

Esquerda precisa de união se não quiser ser engolida nas urnas em 2018

Foto: Isa Freixo/Midia Ninja

A esquerda cometeu um grande erro ao mirar apenas nas eleições de 2018. O ano de 2017 acabou representando um dos maiores retrocessos já vistos em todo o período (mais ou menos) democrático brasileiro. Mas essa avalanche, economicamente liberal e socialmente conservadora que cobriu o país ainda pode ser revertida.

Para isso, porém, as esquerdas devem conseguir criar um cenário de coesão entre si até outubro do ano que vem, ou serão engolidas nas urnas.

Essa união deve ser pensada em três grandes frentes: nas bases, no âmbito partidário, e entre os partidos e as bases. Algo difícil em tempos de muito ódio e pouco diálogo.

Primeiramente, é preciso entender que, quando se fala nas bases, não se emprega, aqui, aquele conceito preconceituoso, sinônimo de “massas manipuláveis” ou “pessoas de baixa renda sem autodeterminação”. Por bases, deve-se compreender todo cidadão, militante ativo ou não, sem cargo de liderança em partido ou movimento social e que não tenha o objetivo de candidatar-se a um cargo eletivo, independente da classe social a que pertença.

Nesse sentido, há de se reconhecer que a base esquerdista, atualmente, está rachada, não por brigas internas, mas simplesmente por não conseguir falar a mesma língua. E o problema parece ser mais grave nos setores da classe média.

A esquerda burguesa parece ter sido fisgada pelo fenômeno das bolhas nas redes sociais e, atualmente, vive mais o mundo virtual do que o das comunidades físicas que a cercam.

Reflexo da globalização, como Bauman bem pontua em suas obras. Para o sociólogo polonês, enquanto as camadas médias e ricas mantêm-se constantemente conectadas ao mundo cibernético, vivendo problemas de escala global, são as camadas mais pobres que acabam se atendo aos problemas mais próximos, locais, relacionados as suas comunidades.

Esse abismo social pode ser ainda maior no Brasil, onde as fontes de informação variam de acordo com a classe social da pessoa que as consome. Isso por que, apenas em 2014, o Brasil superou a marca de mais de 50% dos domicílios nacionais com acesso à internet. Número que cai para 40% se levadas em conta apenas as regiões Norte e Nordeste, e que despenca para 16% se consideradas apenas as classes D e E do país.

Com esse cenário, onde a televisão segue sendo a principal fonte de informação para os brasileiros, as pautas das esquerdas de classe média e das camadas mais populares parecem simplesmente não convergir.

A pequena esquerda burguesa vem se perdendo, cada vez mais, em polêmicas vazias e desgastantes em longos debates online que nada constroem. Parecem cada vez mais embebidas no grande caldo de egocentrismo em que se transformaram as redes sociais. A ação prática e o conteúdo perderam espaço para atitudes performáticas que, ainda que travestidas de coletividade, nada mais são do que uma grande apologia ao individualismo do “eu”.

Termos e temas que talvez até façam algum sentido em nações europeias ou nos EUA são importados de forma completamente acrítica, sem que se faça um recorte para o contexto latino e brasileiro. Método que acaba deteriorando as pautas identitárias no país ao mesmo tempo em que escanteia a consciência de classe sempre tão efervescente e necessária no cenário latino.

Nessa toada, a esquerda burguesa vai apenas fortalecendo a eterna caricatura que faz de si mesma.

Enquanto isso, problemas como o desemprego, a inflação, a precarização e terceirização do trabalho e a violência urbana atingem com mais força a esquerda popular. Não à toa essa massa de trabalhadores não consegue se ver representada no discurso da esquerda burguesa.

Por outro lado, as camadas populares precisam também reconhecer que existe nela uma certa permeabilidade a ideias conservadoras e, atualmente, ao discurso liberal. Se uma figura como Doria foi eleita com grande ajuda dos votos da periferia, é por que houve uma falha nos movimentos de esquerda provenientes dessas comunidades.

Aliás, se a inconstância dos votos da periferia paulistana explicita a crise de representatividade que tomou o mundo inteiro nos últimos anos, ela mostra também que as lideranças da esquerda popular não conseguiram se firmar como um polo de organização de classe por ali.

Nesse sentido, cria-se uma situação em que as bases populares e médias da esquerda, apesar de vários interesses em comum, não conseguem afinar seu discurso. Ao mesmo tempo, separadas, também não têm obtido sucesso em conquistar seus objetivos, vide a onda conservadora que assolou o país nos últimos dois anos.

É preciso recuperar o sentimento de união que levou o país às grandes mudanças proporcionadas pela era Lula.

A coesão entre as bases seria um grande avanço para a esquerda brasileira. Mas é necessário que o mesmo se repita em suas estruturas partidárias. Isso por que somente uma maioria Legislativa pode livrar a esquerda de uma nova armadilha de governo de conciliação.

Se o lulopetismo representou grandes avanços sociais, é verdade também que ele foi marcado por muitas concessões ao mercado e às elites. Concessões essas que puseram um prazo de validade no projeto de esquerda que se construía para o país.

Esse cenário só não se repetirá se a esquerda partidária der a devida importância às eleições legislativas e se vacinar contra a briga de egos que acaba representando a disputa por candidaturas ao Executivo. Deixem isso para os tucanos.

É importante que os partidos menores da esquerda larguem do purismo e reconheçam quando suas principais figuras não têm a força suficiente para disputar um cargo no Executivo ou no Senado e não desperdicem grandes puxadores de voto em eleições perdidas. Ao mesmo tempo, grandes partidos como o PT devem ter a humildade de reconhecer os poucos casos em que o contrário acontece, como o PSOL no Rio de Janeiro e no Pará, ou o PC do B no Maranhão.

A atual situação de retrocesso e crise no capitalismo não só exige como também representa uma oportunidade para que uma coesão de esquerda chegue, enfim, ao poder político de fato. Com o perdão de parecer repetitivo, peço, mais uma vez neste espaço, que se observe o exemplo português com os avanços que a “Geringonça” de esquerda conquistou por lá.

Por fim, é necessário, ainda, recuperar o diálogo entre as bases e os partidos. Para isso, é preciso superar o discurso antipolítico propagado pela direita e pela grande mídia. Este não é um cenário exclusivamente brasileiro. Como Wolfgang Streeck bem relata em “Tempo Comprado”, há uma crise generalizada, causada pela capitalismo liberal, que gerou uma ruptura entre o povo e as estruturas ditas democráticas.

O cenário mundial é altamente propício a revoluções e mudanças de sistema, mas a total falta de organização popular mostra que o Brasil está mais suscetível a continuar no marasmo de um liberalismo econômico falido.

A mobilização popular em torno de um sentimento revolucionário é sempre desejável, mas, enquanto as condições para tanto não surgirem, é preciso que nos apeguemos ao que temos de concreto. E, nesse momento, isso significa estar preparado para as disputas eleitorais partidárias do ano que vem.

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Terça-feira, 31 de outubro de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend