William Waack, representatividade hegemônica e o problema da unidade humana
Quinta-feira, 16 de novembro de 2017

William Waack, representatividade hegemônica e o problema da unidade humana

Foto: Reprodução 

É sempre interessante analisar a complexidade teórica de termos que utilizamos na nossa vida cotidiana.  O conceito de humanidade é um exemplo disso. O contato dos europeus com outros povos, no início da modernidade, suscitou uma série de problemas filosóficos. Um dos mais candentes foi sobre a existência de características comuns entre populações que tinham culturas e aparências bastante distintas. Como todas essas pessoas poderiam ser reconhecidas como seres humanos se havia poucas coisas em comum entre elas? Para que se tenha ideia da importância dessa questão, basta lembrar que a própria ideia de humanidade como um conjunto de atributos universais é uma construção da modernidade renascentista e que se vincula diretamente aos projetos do expansionismo mercantil e colonialista da Europa.

Apesar das diferenças físicas e culturais, alguns filósofos argumentaram que a racionalidade é um traço universal, o que os permitiu pressupor a existência de uma unidade da humanidade, ideia que no século XIX redundaria na antropologia evolucionista e a explicação da diversidade humana como diferentes “estágios” de um mesmo processo evolutivo.

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A crença iluminista na universalidade da razão humana serviria para fundamentar os direitos humanos, que tem como uma de suas afirmações básicas o tratamento igualitário entre todas as pessoas. Entretanto, a mesma razão universal que pavimentou a defesa da dignidade humana, serviu como fundamento para o racismo científico que levou inúmeros juristas e políticos a afirmar a que vários grupos humanos não estavam no mesmo nível de desenvolvimento mental e cultural dos europeus.

Esta tese, tão prestigiada no século XIX, foi a base ideológica para o neocolonialismo que fraturou a África, a Ásia, a Oceania e a América Latina, deixando um rastro de destruição e morte em nome da civilização e do progresso. Hoje no século XXI, ainda podemos sentir os efeitos de uma sociedade construída sob a égide de uma noção de “humanidade” e de universal que se encaixava apenas nos padrões estéticos e éticos dos povos europeus. O resultado disso é que vivemos em uma sociedade cujos mecanismos de dominação e controle valem-se de estereótipos raciais, que nada mais são do que falsas generalizações sobre grupos humanos que servem como sustentáculos de práticas discriminatórias.

Os estereótipos possuem uma dimensão descritiva e outra prescritiva. A primeira expressa supostas características de determinados grupos e a segunda indica quais são os lugares que eles podem ocupar na sociedade. São afirmações do tipo, “mulheres não tem capacidade de comando, portanto não podem ocupar cargos de chefia”. Eles cumprem um papel central no processo de dominação social porque referendam uma ordem de dominação na qual os membros do grupo social dominante são representados como as únicas pessoas capazes de atuar de forma competente dentro da esfera pública.

Falsas afirmações sobre minorias permitem a preservação das diferenças de status cultural e de status material entre os grupos; elas determinam quem gozará e quem não gozará de apreço social.

Estereótipos atuam como esquemas mentais que determinam nossa percepção do outro, motivo pelo qual muitos indivíduos não reconhecem e nunca reconhecerão membros de grupos minoritários como pessoas iguais. Mas, esses esquemas mentais são criações individuais? Eles são apenas exemplos de atos circunstanciais de indivíduos que, na maior parte do tempo, atuam de forma ética? Como eles são reconstruídos e reproduzidos no mundo contemporâneo? 

Alguns dias atrás, foi divulgado um vídeo que mostra o jornalista William Waack utilizando expressões racistas contra negros, o comportamento cotidiano de centenas de milhares de pessoas brancas no nosso país. Muitos indivíduos, negros e brancos, ficaram indignados com o fato e celebraram seu afastamento do telejornal que ele apresentava. Outras vieram a público criticar a condenação moral do jornalista sob o argumento de que ele é uma pessoa de grande caráter e “bom profissional”; o comentário racista seria, portanto, apenas uma fala infeliz e circunstancial, um “deslize”. Afirmaram que tal fato isolado não seria suficiente para comprometer sua brilhante carreira profissional e sua reputação. As manifestações de um lado e do outro sugerem que esse fato deve ser compreendido como um problema de caráter comportamental, motivo pelo qual essa pessoa em particular deve ser punida.

Mas o que está por trás do estereótipo que associa desempenho profissional inferior a pessoas negras? Certamente está presente a noção de que esses indivíduos não são capazes de desempenhar de forma adequada tarefas profissionais da mesma forma que pessoas brancas. Será que essa pressuposição decorre apenas dos comentários racistas que brancos fazem sobre negros no espaço privado todos os dias? Certamente não.

Percepções negativas sobre membros de minorias raciais não são produto apenas de julgamentos derrogatórios; elas são criadas a partir de processos estruturais que reproduzem as condições materiais e ideológicas de subalternidade econômica e política de grupos minoritários. Em relação às condições ideológicas, é importante acentuar que processos discriminatórios caracterizam-se pela associação e naturalização de valores estéticos e éticos, que se tornam “universais” graças à atuação decisiva dos meios de comunicação.

Assim, sob o prisma da ideologia e, por consequência, de valores ético-estéticos alçadas à universalidade, vivemos mergulhados e expostos de maneira incessante àquilo que alguns autores denominam de representatividade hegemônica: apenas pessoas brancas são retratadas como agentes que podem desempenhar atividades socialmente relevantes de forma adequada, o que faz com que as imagens de pessoas brancas em posições de poder sejam tomadas como o parâmetro de normalidade social. Outros grupos raciais podem aparecer, mas apenas em uma situação subordinada, o que reforça o imaginário que naturaliza o privilégio.

Isso significa que estereótipos raciais não apenas eliminam a possibilidade de um reconhecimento real da unidade da humanidade, mas também reproduzem a noção de que:

O reconhecimento das pessoas como seres humanos depende do pertencimento ao grupo racial dominante.

O racismo é, portanto, uma impossibilidade de se estabelecer empatia com pessoas que não são brancas porque elas não são psicologicamente representadas nesse mesmo patamar por causa de sua invisibilidade. Vejam que o racismo então não se reproduz apenas em função de imagens negativas sobre negros, indígenas ou asiáticos, mas em função de um imaginário social no qual apenas pessoas brancas são representadas como seres humanos. Isso impede que William Waack reconheça negros como pessoas minimamente dignas, ainda mais porque era ele o porta-voz, o representante máximo do privilégio branco, que ostentava a branquitude com honra, como uma medalha.

Desse modo, a possibilidade de reconhecimento de outras formas de humanidade está fechada porque as representações culturais dominantes têm o propósito específico de afirmar que a dignidade é uma característica de pessoas brancas. A representatividade hegemônica implica uma invisibilidade negra permanente, processo responsável pelo impulso de pessoas brancas a só se relacionarem com pessoas da mesma raça, único grupo de indivíduos que são reconhecidos como seres humanos, único grupo de pessoas que possuem qualidades morais positivas.

A presença quase exclusiva de pessoas brancas na mídia corporativa tem outra consequência significativa. Seguindo as reflexões de Herbert Blummer, podemos afirmar que ela permite a formação de um sentimento de identidade de grupo, sentimento que está baseado na oposição aos grupos raciais minoritários. Em outras palavras e outra chave de compreensão ocorreria aquilo que Maria Aparecida Bento denomina de “pacto narcísico” da branquitude, o que explicaria o porquê até mesmo pessoas brancas e progressistas se solidarizaram, ainda que de modo mais reticente, com Waack, criticando seus posicionamentos políticos, mas ressaltando a sua “lealdade e caráter”.

Como as relações raciais estão centradas na preservação da manutenção de distinções sociais que garantem status privilegiado dos membros do grupo racial dominante, eles não desenvolvem empatia com membros de grupos minoritários da mesma forma que criam como pessoas que são como eles. A identidade de interesses e de opiniões sobre membros de grupos minoritários faz com que essas pessoas se solidarizem com esse indivíduo porque para eles ele possui maior valor social pelo simples fato de ser um homem branco.

A posição dessas pessoas sugere que nós devemos dar o benefício da dúvida a pessoas brancas que fazem comentários racistas, embora elas se recusem a reconhecer qualquer problema moral em relação aos estereótipos raciais que esses indivíduos reproduzem.

Assim, o pertencimento ao grupo racial dominante impede que essas pessoas possam reconhecer a gravidade moral de comportamentos racistas. A empatia exclusiva ou preferencialmente direcionada a pessoas brancas faz com que qualquer ataque racista seja visto como um comentário circunstancial que não expressa atitudes discriminatórias. Curiosamente, episódios racistas são um momento no qual pessoas brancas se mobilizam para afirmar a dignidade da pessoa racista: em vez de ser socialmente execrada por esse comportamento ela se torna um mártir social.

Chegamos, enfim, a duas importantes conclusões.

A primeira se dá no nível psicanalítico, e revela o “pacto narcísico” entre pessoas brancas. Ver um homem importante como Waack sendo execrado por um ato tão, digamos, cotidiano, ativa o medo, às vezes inconsciente, de ser o próximo a ser pego, uma vez que a visão do jornalista sobre pessoas negras apenas expressou estereótipos raciais de quem possui privilégios raciais.

Já a segunda, é de caráter político. É emblemático que Waack esteja recebendo a maior dose de solidariedade de jornalistas conservadores. Não é para menos: a defesa da meritocracia e da diminuição ou da eliminação de direitos sociais é, por excelência, uma pauta anti-negros em uma sociedade desigual como a brasileira. Apresentada por meio de planilhas e números que visavam a apresentar um posicionamento político-ideológico como “técnico” e “racional”, a discriminação contra minorias dissimulada pelo silêncio sobre a questão racial ou pela negação sistemática do racismo, sintetizada na frase cunhada pelo patrão de Waack “não somos racistas”.

Com a divulgação da manifestação de racismo direto e pouco sutil de Waack, rompeu-se a aura de neutralidade que sustentava o pensamento conservador neoliberal.

Waack era um campeão, um dos grandes ideólogos do neoliberalismo, uma das poucas pessoas dentro de seu espectro político que ostentava a aura de “intelectual”, e por isso sua queda foi tão sentida, a ponto de gerar manifestações em defesa de um ato descaradamente racista. 

E a terceira e última conclusão, nos desafia sociologicamente a pensar o que é ser um “bom profissional” nesse contexto. Em uma sociedade marcada pela desigualdade e cujo sentido é dado por estereótipos, a qualidade de “bom profissional” está, muitas vezes, associada à disposição de atender as exigências dos poderosos e a atuar em prol da ordem vigente. Ser “bom profissional” em uma realidade como a nossa não está em contradição com o racismo. Pelo contrário: a depender do trabalho a ser realizado, ser racista é um requisito.

Adilson José Moreira é doutor em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da Universidade de Harvard.

Sílvio Luiz de Almeida é doutor e pós-doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Quinta-feira, 16 de novembro de 2017
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