Coluna do Meio: o que a pesquisa de campo ensina? A difícil lição de abrir os olhos ao novo
Quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Coluna do Meio: o que a pesquisa de campo ensina? A difícil lição de abrir os olhos ao novo

Foto: Reprodução/Os Simpsons 

Por: Grazielle Albuquerque

Em um trabalho de pesquisa bem alinhavado, o campo deve conversar com a teoria e vice-versa. Essa é a máxima encantada do mundo ideal da academia. Contudo, na difícil realidade nem sempre é assim. Sobretudo, em áreas novas, pouco exploradas em que os caminhos já trilhados são esparsos. É como se tentássemos descobrir onde está o leste e o oeste sem bússola.

Esse exercício carece observação, algum sentido dado pelos sinais da natureza em busca de um padrão que nos possa conduzir, indicar o nascente e o poente, mostrar uma direção. Nas ditas ciências “duras”, como as ligadas à natureza isso é, num nível básico, estruturalmente mais fácil. Mas como é possível extrair um padrão do volátil comportamento humano? As ciências humanas se debatem com isso há alguns séculos, pelo menos desde o Iluminismo – para usar uma referência não tão longínqua.

Essa é uma questão tão basilar quanto insolúvel. Haverá sempre um novo fenômeno a ser analisado para o qual as ferramentas teóricas são insuficientes ou mesmo inexistentes. Por outro lado, o conhecimento é cumulativo e sempre contamos com alguma informação prévia, ainda que intuitiva, antes de começar o trajeto. Ou seja, mesmo sem bússola, caminhamos com algo guardado a nos servir de ajuda.

Pequeno que seja nosso conhecimento, olhamos para o sol e entendemos que há uma lógica no seu trajeto.

Podemos pensar no desafio dos grandes pilares do conhecimento moderno, tateando no escuro, tentando achar um norte: Darwin, Marx e Freud vieram e destruíram quase todos os padrões ao trazer à tona a seleção natural, os meios de produção e o inconsciente. Não houve bússola, astrolábio ou qualquer outro instrumento que não se quebrasse diante de tais descobertas.

Contudo, não precisamos ir aos verdadeiros monstros sagrados do conhecimento para entender que há sempre o novo a nos desafiar ali, mais humildemente, nas esquinas da vida. Costumo questionar meus amigos adeptos dos esquemas mais fechados, perguntando: – quem mesmo aventou a possibilidade real de vitória do Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2016? Dou mil voltas e acabo parando no Michael Moore que, em julho de 2016, escreveu em seu blog um post com o título5 ReasonsWhy Trump Will Win. Dias antes, numa entrevista no programa de TV do Bill Maher, Moore soltou pela primeira vez para o grande público sua predição sobre Trump. O detalhe é que as eleições presidências dos Estados Unidos só ocorreram em dezembro de 2016. Ou seja, o cineasta norte-americano ganhou seis meses de vantagem numa cronologia das “previsões”.

É curioso pensar no quadro de cegueira geral em torno da vitória de Trump. Em dezembro de 2016, a jornalista Daniela Pinheiro faz um relato primoroso do susto norte-americano numa matéria para a revista Piauí intitulada  “O jornalismo pós-Trump: perplexidade, a autocrítica e os desafios da imprensa americana diante do novo presidente”.

A crítica da matéria nem sequer centra seu fogo na academia, mostrando com ênfase como o mercado jornalístico ensimesmado das redações não deu conta de sequer cogitar o fracasso de Hillary Clinton. Em todo caso, lá estava o choque entre a realidade e a nossa capacidade de auscultá-la e, consequentemente, analisá-la. Sendo direta, meu palpite é que Michael Moore conseguiu ver além da névoa porque estava na rua.

Contudo, nem mesmo isso é suficiente. Moore, por exemplo, monta parte substancial da sua explicação sobre quem será o futuro ocupante da Casa Branca nos chamados rednecks. A desilusão dos trabalhadores americanos de meia idade sustenta a tese. Simples, o cineasta americano conseguiu ver até o ponto em que seus olhos alcançaram e acertou. Mas na história das últimas eleições presidenciais do Tio Sam, uma figura passou incólume nas análises. Os jovens nerds frustrados e misóginos e do 4shan.

O quadrinista Dale Beran, hoje com 37 anos, quando era adolescente acompanhou o surgimento dos fóruns obscuros da Web. Ele presenciou quando espaços como o do 4shan começaram  a existir. Ele viu algo que quem estava de fora não alcançava, alguma coisa que mesmo agora nos escapa em sua totalidade. É possível questionar o relato de Beran, claro, mas é inegável que ele aponta para uma novidade. Alguma coisa que foge até mesmo ao debate mais tradicional das fakenews, que olha com demasia para os robôs, os perfis falsos e a queda de credibilidade da imprensa, mas não articula seu modelo de análise com o comportamento e o perfil dos jovens moradores de porão que habitam a Deep Web.

É um mundo novo a desafiar a pesquisa. Isso implica em duas coisas: um esforço teórico e analítico, mas em primazia – a meu ver – uma curiosidade genuína sobre o que não está dentro dos modelos conhecidos para dar conta desse novo fenômeno.

No campo dos estudos sobre Sistema de Justiça sofro um pouco dessa tensão entre o aporte teórico que se maneja para ver “algo” e este dito “algo” novo a exigir mais do que está disponível, pronto e acabado, para ser usado como ferramenta de análise. Acostumados a focar na lei, não tem mais de três décadas que surgem no Brasil os estudos tendo como objeto a Justiça do ponto de vista institucional. Se formos pensar a relação com a Comunicação, aí sim o quadro se fecha.

Num rápido apanhado sobre os trabalhos apresentados da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) cheguei aos seguintes números: no ano de 2016, de um total de 20 trabalhos pesquisados no GT “Comunicação Política e Opinião Pública”, apenas um abordou o Sistema de Justiça. Em outra mão, ainda em 2016, ao se pesquisar o GT “Política, Direito e Judiciário”, do total de 29 trabalhos apresentados, apenas quatro versaram sobre a questão da Comunicação. Nos anos anteriores, os números são mais rarefeitos.

Há uma lacuna. Isto é estimulante por um lado e extremamente trabalhoso por outro. É preciso juntar teorias de dois campos num debate que possa construir uma nova ferramenta de análise. E o melhor conceito que versa sobre teoria que achei até hoje foi exatamente o que a denomina como instrumento. Como numa cirurgia, um bisturi corta, um fórceps abre, uma agulha costura… A teoria utilizada nos ajuda a fazer determinadas incisões.

Seria “estranho”, por exemplo, sem nenhuma problematização, usar Karl Marx para falar de gênero, assim como usar Judith Butler para falar de mais valia. A questão é: quando você está diante de um objeto novo? Pior, de uma relação nova? Quando a boa e velha chave-de-fenda não dá conta de abrir um novo tipo de junção.

A digressão parece extensa, mas hoje esse é o grande desafio sobre o qual me deparo ao pensar a relação entre mídia e Sistema de Justiça. Sinto-me uma espécie de Professor Pardal olhando para um objeto novo sabendo que não terei uma caixa de ferramentas prontas à minha disposição. É preciso construí-las. E aí mais uma vez o campo, e provavelmente a verve jornalística – a despeito da minha formação jurídica – ganhem mais força porque é a observação do novo encaixe que me faz pensar quais características devem ter os instrumentos que preciso para “solucionar” o desafio que se apresenta, num recurso à lá Wittgenstein.

Costumo brincar que a Ciência Política é quase a Engenharia Mecânica das Ciências Sociais. Números, modelos, tabelas…. Aí esbarro com trabalhos como o do Richard Fenno sobre o Legislativo dos Estados Unidos entre os anos de 1940 e 1960. Lá, antes do campo consolidado se mostrar em números, Fenno é um pesquisador e um “jornalista” mapeando tanto o comportamento institucional quanto os bastidores, observando as regras formais e informais do jogo.

Também no que toca ao Judiciário, um livro como o “Deciding to Decide”, do H.W. Perry, olha para o poder de agenda da Suprem Court nos EUA de forma muito mais aberta que seus sucessores. O raciocínio é simples: entender o funcionamento de algo tem muito de etnográfico, de jornalístico, ainda que isso leve a um modelo de análise mais hermético. Não é possível quantificar ou padronizar o que sequer foi visto.

Nesse sentido, volto ao Michael Moore e ao Dale Beran. Existe um movimento lá fora que a gente parece não ver. Isso serve para pensar a eleição do Trump e as fakenews, mas também as pautas identitárias (gênero, raça, sexualidade, minorias étnicas etc) numa estrutura burocrática para lá de antiquada. Que os institucionalistas xiitas me julguem, mas o dado também vem dos sentidos, da percepção aguçada.

Como é mesmo que eu explico ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com perfis no Twitter? Ou os recados públicos dados por magistrado sem sessões de julgamento televisionadas? É impossível enxergar o novo com lentes antigas e gastas. 

Grazielle Albuquerque é jornalista e doutoranda em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi research fellow no German Institute of Global and Area Studies (Giga), em Hamburg. É pesquisadora da área de Ciência Política, estuda Sistema de Justiça, em especial, sua interface com a mídia.

Quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
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