Rio de Janeiro: Darfur é aqui
Sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Rio de Janeiro: Darfur é aqui

Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil

Vejo nos noticiários que o Governo Federal decretou intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro. Na prática isso significa que o Brasília, através das forças armadas, assume o comando da situação naquele estado. O instituto tem previsão no art.34 da Constituição Federal, especificando entre as hipóteses possíveis para tanto a necessidade de pôr termo a grave comprometimento da ordem pública.

Não teria eu condições de tecer juízo de valor sobre esse ato e tampouco legitimidade para dizer o que é melhor para o povo do Rio de Janeiro. Nada obstante, veio-me à mente a lembrança de um texto que escrevi quando da última visita que fiz à cidade maravilhosa e que parece de certa forma ter sido um prognóstico ou vaticínio.

Era o mês de setembro de 2017. Havia desembarcado do aeroporto Santos Dumont e estava a caminho do hotel, passando pelo aterro do Botafogo. Ficaria cinco dias de férias na capital fluminense e aproveitaria para retomar a escrita de um novo romance, agora mais denso que o anterior “Encontre-me no Café em Paris: Landon”, e também mais dramático, centrado em dois personagens. A obra tinha provisoriamente recebido o título “Tortura”, por sugestão do editor meu amigo. Além disso, aproveitaria para lançar na cidade maravilhosa meu último livro de crônicas, “Juiz de Si Juiz do Mundo: a esperança persiste”.

No táxi resolvi iniciar uma conversa.

Essa cidade é sim a mais linda do mundo, pelo menos entre as que eu conheço.

Sim, ela é! – Respondeu um resoluto taxista do alto de seus sessenta e poucos anos de idade.

Mas a aprazível conversa parou nesses prolegômenos. O resto foi um monólogo despachado por aquele senhor, sem piedade, sobre minha cabeça de turista.

Esta cidade está um horror. Os bandidos tomaram conta. Há uma semana ninguém podia mais sair de casa na zona sul, porque a violência corria solta, culpa dos traficantes. Felizmente o exército chegou e colocou ordem na favela. Foi uma guerra no meio da mata, para onde os vagabundos fugiram. Lá, na selva, quem sabe como agir é o exército, treinado para isso, para matar o inimigo. Eles estouraram os miolos da bandidagem e enterraram os corpos no morro mesmo, porque ninguém ia reconhecer depois do serviço bem feito. Agora a coisa se acalmou e nós podemos voltar a andar por ai.

Fiquei em silêncio. Não sabia exatamente com quem estava falando e tive algum receio de confrontar aquela opinião tão carregada de ódio.

Poderia ter falado que o exército não tem atribuição constitucional para guerrear contra a população, muito menos de seu próprio país, que inimigo era um termo para justificar abusos, torturas, massacres e que acima de tudo a Constituição e a lei devem ser cumpridas. Poderia ter alertado que certamente as pessoas que moram nas favelas precisavam muito mais de atenção em outras frentes, sociais e econômicas, não exclusivamente policiais.

Dizer que o tráfico é sustentado por grandes corporações e agentes públicos, dos quais todos acabam sendo vítimas, de policiais a traficantes.

Poderia ainda observar ao incauto motorista que aquela paz que ele agora sentia era frágil e que seria questão de tempo para que novos conflitos eclodissem, afetando ainda mais gravemente a pretensiosa e cega bolha chamada zona sul. Mas apenas lancei algumas palavras como “falta educação”, “saúde”, “emprego”, “referência para a juventude”, ao que ele logo retrucava com conhecidas expressões como “bandido bom é bandido morto”. Para meu alívio chegamos logo ao destino e me despedi, desejando de coração que ele tivesse um bom dia de trabalho.

Infelizmente opiniões como aquelas não são raras. Aliás, elas pertencem à boa parte dos brasileiros. E por mais que eu saiba que apenas com a educação para desenvolvimento da alteridade, baseada na ética e no humanismo é que essas posturas medievais serão superadas, reputo a responsabilidade por esse estado de coisas às autoridades deste país. Dia desses, ouvi uma delas defendendo o aumento da pena para roubos com uso de fuzil em semáforos. Segundo ela os assaltantes tinham perdido todo o respeito, como se houvesse algum limite na violência e no marginalizado, e que aquela prática que começava a se repetir pela capital do estado tinha que ter uma resposta dura!

Ora, em papo de botequim, descompromissado, até relevo essa posição, mas quando ela vem de quem tem o dever de guiar o povo não há como a aceitar passivamente. A ciência, a história mostram e os países de reduzida desigualdade social como Alemanha, Holanda, Noruega, Dinamarca, Suécia comprovam que a conquista de uma sociedade não violenta, sem vítimas, passa por políticas de estado que concretizam oportunidades iguais para todos, sedimentadas na educação, na saúde, habitação, saneamento, cultura e tantos outros direitos sociais.

Porém, para aquela autoridade, nada disso interessava.

Não queria ela saber da história de vida de alguém que pega num fuzil e pratica um ato tão violento contra outro ser humano.

Talvez porque já soubesse ou temesse vir a saber que sua própria mão estava manchada de sangue e também segurava aquele fuzil. Mão que retirou investimento em educação, saúde, habitação, saneamento, urbanização, empregabilidade. Mão que de maneira incompetente, espera-se que não desonesta, afagou amigos de campanha e abandonou os ideais do estado democrático de direito. Se pelo menos essa mão tapasse a própria boca! Mas não, as bocas de pessoas importantes para o destino da nação continuam se abrindo e lançando impropérios simplistas e nefastos sobre a segurança pública e violência urbana.

E como vemos acontecer, o mais grave disso tudo, de manifestações como essas de oportunistas autoridades, é que elas ludibriam, incentivam e fortalecem os cidadãos que, desavisados, passam a reproduzi-las, recheadas de ódios, aprofundando mais ainda o apartheid social, causando mais violência, mais vítimas.

Com o táxi já na porta do hotel, enquanto separava o valor da corrida, começou a tocar no rádio a música “Living Darfur”, do dueto Mattafix, formado por artistas britânicos que fazem hiphop, misturado a rap e R&B. Eu conhecia aquela música e sabia que ela falava de campos de refugiados de Darfur, chamando a atenção para uma tragédia que atinge milhares de pessoas, buscando fazer com que os governos do mundo ajam, envolvam-se, comprometam-se com a humanidade. Saí esperando que o taxista também a conhecesse e conseguisse associar aquela história à nossa.

Depois disso, desfrutei dos pares de dias de férias. Depois retornei ao trabalho, o tempo passou e  chegamos a 2018, chegamos à intervensão federal, chegamos a Darfur. Darfur é aqui!

João Marcos Buch é Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais da Comarca de Joinville/SC.

Sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
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