A Maldição da Casa Winchester e o fantasma do armamento
Segunda-feira, 5 de março de 2018

A Maldição da Casa Winchester e o fantasma do armamento

Foto: Filme Winchester

Sábado à tarde, diante das salas de cinema, a sessão mais próxima era de um filme de terror.

Longe de ser minha categoria preferida, apenas pra não voltar pra casa sem assistir a nada, criei coragem e fui com Roberto, rumo aos sustos previsíveis. Sou daquelas que gritam no cinema, envergonhando quem está do lado. Meus enteados, quando crianças, viviam me cutucando e querendo se esconder debaixo das poltronas. Hoje não foi diferente.

Enfim, vamos ao filme. Não há “spoillers”, pois a história é baseada em fatos reais.

A história se passa no início do século XX, na Califórnia. Mansão Winchester é sobre os últimos anos de Sarah Winchester, viúva de um dos fundadores da conhecida fábrica de armas.

Considerada um tanto quanto lunática, por construir e desconstruir uma mansão interminável, que mais parece um labirinto, é obrigada a receber um médico, provavelmente psiquiatra, para ser avaliada quanto à sua capacidade mental para continuar administrando os 51% que lhe cabiam na empresa.

O médico escolhido, Dr. Price, é cheio de fraquezas: não superou o luto da esposa, viciado em alguma droga da época, promíscuo e endividado, é a opção perfeita para os acionistas, que querem afastar Sarah dos negócios. A condição imposta era a de que ele permanecesse na casa com Sarah e sua família e a observasse para atestar sua (in)capacidade.

A velha mulher vê fantasmas e os mantém presos em cômodos construídos para alojá-los e que são destruídos após encontrarem a paz, a luz,ou seja o que for que os faz felizes para deixarem de assombrar a família.

E por que a família é assombrada?

Aqui a história começa a ficar interessante e deixa os clichês de lado, tornando-se um verdadeiro manifesto anti armamentista.Trump e Bolsonaro, com toda a bancada da bala, deveriam assistir ao filme.

Inevitável não fazer um paralelo entre as assombrações de Sarah Winchester e os fantasmas que cercam os americanos, com seus jovens perturbados e perturbadores, que matam às dezenas, colegas e professores em suas escolas, causando comoções públicas que duram alguns dias, até que se tenha notícia de mais um desvario assassino.

Essa semana duas grandes lojas de departamentos – Wallmart e Dickcook – decidiram que não mais venderão rifles para menores de 21 anos.

Que país maluco! Controlam a venda de bebidas alcóolicas de forma quase obsessiva e vendem armas potentes como se fossem brinquedos inofensivos!

Já por aqui, com todo nosso “viralatismo” diante dos “irmãos do norte”, as armas estão sendo elevadas à condição de “objeto de desejo de todo cidadão de bem, representante da sociedade ordeira, que não compactua com bandidos e com defensores dos direitos humanos”!

O filme, real e ficicional ao mesmo tempo, poderia servir como um ponto de reflexão àqueles que consideram a posse de uma arma a solução para afastar todos seus medos. O tiro poderá sair pela culatra, desculpem o trocadilho.

Voltemos ao escurinho do cinema, sem “drops de anis”, sem combo de pipoca e coca, porque estou em lowcarb!

A viúva assombrada juntamente com a nora viúva e o neto Henry, é totalmente consciente do mal que as armas criadas e comercializadas por sua família causavam. Sentia-se amaldiçoada e perseguida por almas que tiveram as vidas materiais ceifadas pelos tiros disparados pelos produtos criados por sua família.

Aqueles que haviam sido mortos por projéteis das “Winchesters” permaneciam rondando Sarah e sua pequena família, ora assustando em imagens refletidas em espelhos e em objetos que pareciam ter vida própria, ora possuindo o corpo e a alma do pequeno Henry, frágil e assustado após ter testemunhado a morte do próprio pai.

Quando capturados, os espíritos intranquilos eram trancados em cômodos que reproduziam o local de sua morte, até que se acalmassem e pudessem seguir sua jornada.

No início de sua avaliação, o médico proibido de usar sua droga habitual por determinação de sua anfitriã, começa a dar de cara com alguns fantasmas, mas crê ser efeito da abstinência. O neto de Sarah, possuído por uma dessas almas que não descansam, é o mais afetado e coloca o médico em situações delicadas, que o tornam apreciado pelas duas mulheres, gratas por suas atitudes.

A história se desenrola, entre sustos, mortos-vivos e gritos típicos desse estilo de filme. Mais não vou contar para não estragar as surpresas.

Quero me demorar nos papéis femininos, em especial o de Sarah, em ótima interpretação de Helen Mirren.

A matriarca, bem além dos 70 anos, se veste o tempo todo de preto, em luto pelo marido, pelo filho, mas ainda mais pelas vítimas mortas com as armas criadas pela família.

Sarah reconhece-se amaldiçoada. Rica, porém almadiçoada, por ser a proprietária de um ramo de negócio que apenas serve para causar morte e destruição. Em suas ponderações afirma que nada pode vir de positivo e bom da criação e comercialização de uma invenção objeto que serve apenas para matar.

Marion, a nora, também viúva, divide-se em defender a sogra das acusações de loucura que lhe querem imputar e em cuidar do pequeno Henry, possuído e assustado, sem a figura paterna por perto.

Duas mulheres fortes: uma em sua missão de redirecionar as almas que deixaram os corpos destruídos por seu “produto”, amparando-as e curando-as para que possam prosseguir sem ressentimentos; a outra, mais jovem, procurando exercer a maternidade, lutando contra seus medos, apoiando a sogra e protegendo o filho.

Além de um libelo anti armamentista, o filme é claramente focado no feminino, colocando nas mãos das duas mulheres, uma idosa e uma bastante jovem, todo o poder para lidar com as consequências das atitudes masculinas.

Sarah e Marion, superam seus medos e inseguranças, seja enfrentando fantasmas reais, seja enfrentando a ausência de um companheiro na criação de um filho. São mulheres fortes, decididas, que conseguem alcançar seus objetivos e demonstrar que não são loucas nem frágeis.

Os diretores – Irmãos Spierig – surpreendentemente não apelaram para um caso de amor entre o médico e Sarah, como costuma acontecer na maioria dos filmes em que uma mulher sozinha e “frágil” encontra seu príncipe.

O tal médico atesta a sanidade de Sarah Winchester, resolve seus conflitos com o fantasma da esposa, deixa o passado para trás e segue sozinho, como também seguem as mulheres, cada uma com seus passados traumáticos e futuros incertos.

Não há final feliz. Não há lição de moral.

A gente sai do escuro com a sensação de que os sustos valeram à pena, com a certeza de que fantasmas existem, assustam mas podem ser, se não vencidos, encaminhados para o lugar onde devem permanecer: um cômodo fechado, do qual sairão quando eles, ou nós, estivermos prontos.

Carla Moradei Tardelli é Advogada, membro da Associação dos Advogados do Estado de São Paulo, graduada em Direito pela Universidade Paulista em 2008. Pós graduada em Direito de Família pela Escola Paulista da Magistratura – EPM. Professora em Cursos Jurídicos Preparatórios. Graduada em Psicologia pela PUC/SP em 1988, atuando por 21 anos, junto às Varas de Família e Sucessões e Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

Segunda-feira, 5 de março de 2018
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