Por que você deve preferir ser responsável a estar certo?
Terça-feira, 6 de março de 2018

Por que você deve preferir ser responsável a estar certo?

Foto: Tasso Marcelo/Fotos Públicas

Imagine que amanhã haverá um plebiscito para definirmos se o impeachment de 2016 foi ou não golpe. Pensemos em dois cenários. Primeiro: suponha que você acorda no dia seguinte e joga uma moeda. Deu coroa: você votará pela tese do golpe. Passados trinta anos, há relativo consenso de que o impeachment de 2016 deve ser, de fato, caracterizado como golpe. Você estava certo!

Pensemos agora em um segundo cenário. Suponha que você passou a semana angustiado. Você leu, pesquisou, notou a existência de uma controvérsia razoável na opinião pública, cotejou diferentes argumentos, e ainda se sente dividido. Na véspera da votação, você está marginalmente convencido de que não houve golpe, e assim você vota. Passam três décadas e, novamente, há relativo consenso de que o impeachment de 2016 deve ser caracterizado como golpe. Nesse caso, você estava errado.

Qual a diferença entre os dois cenários? Há certo incômodo com o primeiro. Estávamos certos, mas sentimos que faltou algo, que não agimos com a devida responsabilidade. Quanto ao segundo, tendemos a pensar que, apesar de estarmos errados, fomos responsáveis em nossa decisão. Nossa história imaginária ilustra a diferença entre estar certo e ser responsável. Por que é importante reconhecê-la?

E por que, nos debates políticos e morais, devemos nos preocupar mais em ser responsáveis do que em estarmos certos?

Essa distinção é importante, pois nos permite entender melhor o comportamento das pessoas. Pensemos em dois exemplos para ilustrar essa afirmação.

Primeiro exemplo

O polêmico curso da UnB, intitulado “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. Claro, docentes não devem satisfação ao MEC e qualquer tentativa do governo de vetar ou censurar a disciplina é ultrajante. Mas por que, ainda assim, algumas pessoas se incomodam com o curso? Porque elas sentem que, se não ao MEC, a universidade pública e seus docentes devem alguma satisfação à sociedade, e que a linha da responsabilidade é cruzada quando se elabora um curso partindo do pressuposto de que uma tese recente e controversa é correta.

Isso não quer dizer que o curso defende uma tese equivocada ou que ele não deveria ser ministrado, mas apenas que a distinção entre estar certo e ser responsável nos permite entender melhor o comportamento das pessoas que se dizem incomodadas. A explicação fácil vai nos dizer que os que criticam a disciplina são “golpistas”, “reacionários a favor do desmonte do Estado” ou algo que o valha.

Segundo exemplo

Pensemos naquela pessoa que compartilha em redes sociais várias correntes e notícias-bomba provenientes, muitas vezes, de fontes com credibilidade duvidosa. Todos conhecemos ou já ouvimos falar de uma pessoa assim, à esquerda e à direita. Por que o comportamento dela nos incomoda? Mais uma vez, é pelo fato de sentirmos que ela cruza a linha da responsabilidade ao propagar notícias e histórias duvidosas. Mesmo que essa pessoa esteja alinhada a você ideologicamente — e que vocês tenham várias opiniões políticas em comum —, você ainda assim se sente incomodado com esse comportamento. Ou, ao menos, deveria. Mas, por quê? Isso nos remete à nossa questão: por que, nos debates políticos e morais, devemos nos preocupar mais em ser responsáveis do que em estarmos certos?

A resposta é simples: porque é assim que demonstramos respeito aos outros e é assim que gostaríamos que os outros se portassem diante de nós. Voltemos aos nossos dois exemplos. Imaginemos diferentes cursos universitários sobre a reforma ou déficit na previdência.

Sabendo que há uma controvérsia razoável entre economistas ortodoxos e heterodoxos sobre o tema, qual curso você gostaria de frequentar: um em que sua professora parta do pressuposto de que não há déficit, ignorando a controvérsia razoável? Ou um em que a controvérsia é reconhecida e a defesa da posição da professora é feita levando em conta os argumentos daqueles que razoavelmente dela discordam?

Nosso segundo exemplo é o da pessoa que espalha correntes e notícias falsas. Como você gostaria que as pessoas se portassem? De um lado, você tem aquela que discorda de você, amparando-se em fontes dúbias; no primeiro sinal de discordância, ela tentará desqualificá-lo, chamando-lhe de “reaça”, “comuna”, “golpista”, “esquerdóide”, ou qualquer alcunha do gênero. De outro, você tem aquela pessoa que reconhece o desacordo razoável, que se esforça em conhecer e entender argumentos contrários, e que procura checar suas informações e dados.

Penso que, se assim como eu, você prefere o curso da segunda professora e  gostaria que as pessoas se portassem do segundo modo, você tem uma boa razão para, diante de temas recentes e controversos, preferir o “ser responsável” ao “estar certo”. Isso importa porque impacta o modo como devemos nos portar. Esse preferir implica, sobretudo, um compromisso com certa humildade, principalmente em tempos de polarização acirrada. Apenas políticos, por dever de ofício, têm de assumir posições peremptórias sobre assuntos polêmicos.

Por óbvio, isso não implica que nós não devamos nos posicionar, mas apenas que devemos fazê-lo com cautela, com responsabilidade. Em suma, preferir a responsabilidade ao estar certo implica se preocupar menos em dizer quem “está do lado certo da história”, e mais em identificar quem respeita a linha da responsabilidade.

A responsabilidade tem ainda uma vantagem: se não podemos demonstrar ou provar que estamos certos para alguém que discorda de nós, é possível ao menos mostrar que fomos responsáveis ao formarmos nossas opiniões.

De todo modo, conforme a história imaginária do começo deste texto buscou ilustrar, tem pouco valor estar certo quando não somos responsáveis, quando não levamos a dúvida e a controvérsia a sério. Como diz o ditado: até mesmo um relógio quebrado está certo duas vezes ao dia.

Mateus Matos Tormin é mestrando em Ciência Política pela USP e Graduado em Direito pela mesma instituição.

Terça-feira, 6 de março de 2018
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